{"id":21920,"date":"2020-03-02T14:11:52","date_gmt":"2020-03-02T17:11:52","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=21920"},"modified":"2020-03-02T14:13:39","modified_gmt":"2020-03-02T17:13:39","slug":"historia-e-narrativa-diferenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/historia-e-narrativa-diferenca\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria e narrativa: diferen\u00e7a"},"content":{"rendered":"<div id=\":188\" class=\"a3s aXjCH \">\n<div dir=\"ltr\">\n<p dir=\"ltr\">De algum tempo a esta parte a palavra \u201cnarrativa\u201d entrou na moda. A impress\u00e3o que fica \u00e9 a de que n\u00e3o existem mais fatos, apenas narrativas, ou seja vers\u00f5es, todas igualmente v\u00e1lidas. As pessoas sempre nos perguntam se isto faz sentido para n\u00f3s, historiadores.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A verdade \u00e9 que os pr\u00f3prios historiadores, em muitas ocasi\u00f5es, resolvem recontar o acontecido. Ent\u00e3o, como \u00e9 que fica?\u00a0 Afinal, se uma coisa aconteceu, j\u00e1 faz algum tempo, e se j\u00e1 foi devidamente registrada e \u201ccontada\u201d, qual o sentido de ser retomada por uma nova narrativa?<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O historiador deve explicar que v\u00e1rios fatores nos permitem e at\u00e9 determinam uma nova vis\u00e3o. Pode ocorrer que novos registros sobre os acontecimentos foram encontrados, registros escritos ou mesmo arqueol\u00f3gicos, por exemplo. Se novas escava\u00e7\u00f5es comprovam a exist\u00eancia de uma civiliza\u00e7\u00e3o em uma regi\u00e3o at\u00e9 h\u00e1 pouco inexplorada, temos que recontar a hist\u00f3ria da regi\u00e3o. Se um novo documento esclarece a atua\u00e7\u00e3o de um papa com rela\u00e7\u00e3o ao nazismo, a hist\u00f3ria precisa ser recontada.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Al\u00e9m disso, \u00e9 importante ressaltar que Hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 simplesmente aquilo que aconteceu, mas a maneira pela qual n\u00f3s nos apossamos, incorporamos e registramos o acontecido. Esse registro varia tamb\u00e9m em fun\u00e7\u00e3o de nossas preocupa\u00e7\u00f5es atuais. Por exemplo, o processo de empoderamento das mulheres faz com que passemos a olhar o acontecido tamb\u00e9m sob uma \u00f3tica feminista e isto muda nossa perspectiva sobre o mesmo fato, antes narrado sem considerar essa \u00f3tica.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u00c9 importante notar que n\u00e3o estamos falando de mudar o passado a partir de nossa vontade atual. O nazismo, por exemplo, n\u00e3o teve vergonha alguma de inventar uma inexistente ra\u00e7a ariana para justificar sua pol\u00edtica racista. Esse olhar presentista \u00e9 uma deturpa\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria, pois implica em reinvent\u00e1-la, o que \u00e9 puro exerc\u00edcio de fic\u00e7\u00e3o. J\u00e1 ter uma perspectiva atual, ser perspectivista, \u00e9 outra coisa.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">H\u00e1 quest\u00f5es na Hist\u00f3ria francamente favor\u00e1veis a um olhar mitificado. Guerras, por exemplo. N\u00e3o por acaso costuma-se dizer que a primeira v\u00edtima das guerras \u00e9 a verdade. \u00c0s vezes cria-se um mito assim que o fato b\u00e9lico ocorreu. \u00c0s vezes faz-se isso depois, por diversos motivos. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que durante alguns anos, foi aliada das pot\u00eancias ocidentais contra a Alemanha e o Jap\u00e3o, logo se tornou a grande inimiga. Nas narrativas ocidentais a enorme import\u00e2ncia dos pa\u00edses comunistas na derrota dos nazistas acabou sendo flagrantemente subestimada. Mitos servem para isso.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Talvez melhor do que teorizar, seja exemplificar. Um livro recentemente publicado na Fran\u00e7a (e agora traduzido no Brasil) mostra como os mitos de guerra surgem e s\u00e3o usados. Podemos aprender algumas coisas com essa obra chamada, n\u00e3o por acaso, Os mitos da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O livro ensina muito.\u00a0 \u00c9 uma excelente aula sobre temas da guerra que remodelou o mundo, a partir de informa\u00e7\u00f5es fidedignas e documentos devidamente checados. Tamb\u00e9m \u00e9 uma bela aula sobre os chamados \u201cusos da Hist\u00f3ria\u201d (como na\u00e7\u00f5es e grupos tentam moldar a narrativa hist\u00f3rica de acordo com seus interesses) e o papel do historiador (como algu\u00e9m que busca desconstruir mitos e tem um duplo compromisso, com o fato\/o acontecido e com as quest\u00f5es do tempo presente). Utiliza documentos variados, como jornais, revistas, sites, filmes, relat\u00f3rios militares, di\u00e1rios, mem\u00f3rias, memorandos secretos, depoimentos, julgamentos de criminosos de guerra, material diplom\u00e1tico, propagandas, estat\u00edsticas, dados t\u00e9cnicos a respeito de armas, t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Os 14 cap\u00edtulos desvelam mitos. Mais do que isso, mostram\u00a0como,\u00a0quando\u00a0eles foram constru\u00eddos e\u00a0por que se perpetuaram\u00a0(quais os interesses que fazem com que se mantenham vivos na mem\u00f3ria coletiva at\u00e9 hoje). Assim, ficamos sabendo que a ideia de que\u00a0Hitler se antecipou a um ataque de Stalin\u00a0ao invadir a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u00e9 apenas uma tese revisionista alimentada bem depois do Julgamento de Nuremberg.\u00a0Pearl Harbor, uma vit\u00f3ria japonesa\u00a0\u00e9 uma fal\u00e1cia perpetuada tanto pelos americanos (por conta da percep\u00e7\u00e3o dos contempor\u00e2neos surpreendidos pelo ataque) quanto pelos japoneses (para justificar a continuidade de uma luta que desde cedo seus governantes sabiam perdida). Esses s\u00e3o apenas alguns dos exemplos da vasta gama de assuntos tratada no livro, que v\u00e3o de bombardeios a\u00e9reos ao papel das mulheres, dos camicases aos carism\u00e1ticos discursos de Churchill.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Seria bom que pol\u00edticos, cientistas sociais e jornalistas, em vez de continuar dando vers\u00f5es e narrativas desencontradas e inconsequentes, lessem bons livros que os fizessem entender melhor o sentido da releitura da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">(Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky)<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De algum tempo a esta parte a palavra \u201cnarrativa\u201d entrou na moda. A impress\u00e3o que fica \u00e9 a de que n\u00e3o existem mais fatos, apenas narrativas, ou seja vers\u00f5es, todas igualmente v\u00e1lidas. As pessoas sempre nos perguntam se isto faz sentido para n\u00f3s, historiadores. 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