{"id":22079,"date":"2020-03-25T10:03:42","date_gmt":"2020-03-25T13:03:42","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=22079"},"modified":"2020-03-25T10:03:42","modified_gmt":"2020-03-25T13:03:42","slug":"cronica-o-dicionario-inspira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/cronica-o-dicionario-inspira\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica: o dicion\u00e1rio inspira"},"content":{"rendered":"<p><strong>As m\u00e3os.<\/strong><\/p>\n<p>O dicion\u00e1rio dedica mais de uma p\u00e1gina ao verbete m\u00e3o: ela \u00e9 a parte final dos nossos membros superiores; ela \u00e9 a extremidade do membro de um quadr\u00fapede (o mesmo que pata); ela \u00e9 lance de um jogo de baralho; ela \u00e9 uma camada de cal, tinta ou verniz; ela \u00e9 um sentido no tr\u00e2nsito; ela \u00e9 tamb\u00e9m aux\u00edlio, ajuda \u2014 \u201cme d\u00e1 uma m\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Os dedos das m\u00e3os n\u00e3o d\u00e3o conta do n\u00famero de express\u00f5es que t\u00eam m\u00e3o. M\u00e3o de vaca \u00e9 o cara p\u00e3o duro, m\u00e3o fechada. Largar de m\u00e3o \u00e9 o mesmo que abrir m\u00e3o de, ou seja, \u00e9 deixar pra l\u00e1. Em primeira m\u00e3o \u00e9 ser o primeiro a saber uma not\u00edcia. De segunda m\u00e3o \u00e9 coisa que j\u00e1 foi usada. E ter m\u00e3os de fada significa possuir m\u00e3os habilidosas.<\/p>\n<p>M\u00e3os ao alto \u00e9 um assalto, um assalto \u00e0 m\u00e3o armada. Ser uma m\u00e3o na roda \u00e9 uma boa e oportuna ajuda. Passar a m\u00e3o na cabe\u00e7a significa perdoar. Sair com uma m\u00e3o na frente e outra atr\u00e1s \u00e9 sair sem levar nada. Voltar com as m\u00e3os abanando \u00e9 voltar com as m\u00e3os vazias. Pedir a m\u00e3o (de) \u00e9 pedir autoriza\u00e7\u00e3o ao sogro para casar com a filha dele.<\/p>\n<p>Dar de m\u00e3o beijada \u00e9 entregar muito f\u00e1cil uma coisa, sem exig\u00eancia nenhuma. Meter as m\u00e3os pelos p\u00e9s \u00e9 trapalhada. J\u00e1 meter a m\u00e3o em cumbuca \u00e9 se meter em coisa que vai causar preju\u00edzo ou confus\u00e3o. Colocar as m\u00e3os no fogo \u00e9 confiar cegamente em algu\u00e9m. E n\u00e3o ter m\u00e3os a medir \u00e9 fazer algo com bastante empenho e esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Corro eu as m\u00e3os, os dedos entre as teclas, e acho cita\u00e7\u00f5es \u00e0 m\u00e3o cheia. Olha l\u00e1 o Drummond, abrindo os bra\u00e7os: \u201cTenho apenas duas m\u00e3os e o sentimento do mundo\u201d. Ali Augusto dos Anjos vem dizendo que o \u201cbeijo \u00e9 a v\u00e9spera do escarro, a m\u00e3o que afaga \u00e9 a mesma que apedreja\u201d.<\/p>\n<p>E por falar em m\u00e3os, reconto uma historinha que ouvi no tempo de menino. Em algum lugar vivia um homem que sabia das coisas, n\u00e3o havia pergunta sem resposta. Um dia um menino pegou um p\u00e1ssaro vivo na gaiola, botou na m\u00e3o e foi l\u00e1 fazer um desafio ao velho.<\/p>\n<p>Chegou com as m\u00e3os para tr\u00e1s e o passarinho em uma delas: \u201cO senhor sabe o que eu trago nas m\u00e3os?\u201d. O s\u00e1bio disse: \u201cUm p\u00e1ssaro\u201d. O menino concordou com a cabe\u00e7a e fez a pergunta fatal: \u201cEle t\u00e1 vivo ou t\u00e1 morto?\u201d O s\u00e1bio respondeu sereno: \u201cA vida do p\u00e1ssaro est\u00e1 em suas m\u00e3os\u201d.<\/p>\n<p>Era um menino, um s\u00e1bio, um p\u00e1ssaro, agora \u00e9 Rosa, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, chegando em seu cavalo, vindo l\u00e1 do sert\u00e3o: \u201cPorque eu s\u00f3 preciso de p\u00e9s livres, de m\u00e3os dadas e de olhos bem abertos\u201d. E vem l\u00e1 de Porto Alegre o Caio Fernando, traz nas m\u00e3os morangos mofados: \u201cEspero m\u00e3os pesadas, \u00f3pio na veia, sol de giz riscado no ch\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Outro ga\u00facho aparece, Carpinejar, poeta de pai e m\u00e3e: \u201c\u00c9 aquela vontade danada de andar de m\u00e3os dadas durante o dia e de p\u00e9s dados durante a noite\u201d. Ou\u00e7o agora Bob Marley: \u201cSe todos dermos as m\u00e3os, quem sacar\u00e1 as armas?\u201d Por fim, Shakespeare: \u201cAquilo que pedimos aos c\u00e9us na maioria das vezes se encontra em nossas m\u00e3os\u201d.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, o que pedimos aos c\u00e9us pode estar em nossas m\u00e3os, mas vamos com calma, excepcionalmente nestes tempos, neste ano sem gra\u00e7a de dois mil e vinte, nestas \u00e1guas de mar\u00e7o fechando o ver\u00e3o, nesses dias de abril, esse abril que nem chegou ainda e j\u00e1 \u00e9 despeda\u00e7ado, porque, nestes tempos, amigo, tudo o que precisamos \u00e9 deixar as suas m\u00e3os separadas das minhas.<\/p>\n<p>Calma, \u00e9 s\u00f3 um tempo, dois meses, tr\u00eas talvez, pouco menos, pouco mais. De modo que vai ser uma noite, uma longa noite de espera, noite de travessia, de paci\u00eancia, entanto n\u00f3s vamos travessar; depois vem o alvor da manh\u00e3, os fios de sol tecidos, o canto dos galos tecendo uma nova manh\u00e3. E a\u00ed sim: olhos abertos, p\u00e9s livres, m\u00e3os dadas.<\/p>\n<p>(Marcelo Torres &gt; <a href=\"mailto:marcelocronista@gmail.com\">marcelocronista@gmail.com<\/a>)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As m\u00e3os. 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