{"id":2213,"date":"2008-08-06T00:00:00","date_gmt":"2008-08-06T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/metamorfose_as_avessas\/"},"modified":"2008-08-06T00:00:00","modified_gmt":"2008-08-06T03:00:00","slug":"metamorfose_as_avessas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/metamorfose_as_avessas\/","title":{"rendered":"Metamorfose \u00e0s avessas"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;&nbsp;<br \/>\n&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Conhece aquela dos macacos? Um, numa ilha distante, l\u00e1 no Pac\u00edfico, inventou uma moda. Come\u00e7ou a descascar a banana antes de com\u00ea-la. Nenhum s\u00edmio havia tido esse luxo antes. Outro, noutra ilha, aqui no Atl\u00e2ntico, teve a mesma id\u00e9ia. Sentou-se no galho da \u00e1rvore onde morava, estendeu o bra\u00e7o, colheu a banana. Olhou-a. E, sem mais nem menos, tirou-lhe a casca.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A moda pegou. Outros macacos, em outras partes, passaram a fazer o mesmo. Quase ao mesmo tempo. Sem nunca terem falado um com o outro. Sem nunca terem lido um livro de boas maneiras.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No portugu\u00eas, algo semelhante est\u00e1 ocorrendo. Como num passe de m\u00e1gica, a conjun\u00e7\u00e3o <B>enquanto<\/B> ganhou novo emprego. Indesejado emprego. Ela reclama, briga, esperneia. Inutilmente.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Outro dia, Fernando Henrique soltou esta:&nbsp; \u201cE sa\u00fado nessa mobiliza\u00e7\u00e3o mais um passo do nosso avan\u00e7o, enquanto sociedade, na dire\u00e7\u00e3o de formas mais civilizadas e solid\u00e1rias de conviv\u00eancia\u201d.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Rom\u00e1rio,&nbsp;pernas pro alto, cervejinha gelada, disse: \u201cEstou bem enquanto pai e enquanto marido\u201d. Deputado, em entrevista \u00e0 CBN, n\u00e3o ficou atr\u00e1s: &#8220;Eu, enquanto parlamentar, defendo a lei seca&#8221;.&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<br \/>\n<STRONG>O papel<\/STRONG><br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<br \/>\n<BR><br \/>\n&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A conjun\u00e7\u00e3o <B>enquanto<\/B> liga ora\u00e7\u00f5es: verbo com verbo. Indica que duas a\u00e7\u00f5es se passam ao mesmo tempo: Enquanto eu falo, voc\u00ea escuta. Voc\u00ea trabalhava enquanto ele ouvia m\u00fasica.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p>Mal-empregada, a conjun\u00e7\u00e3ozinha vira usurpadora. Ocupa olugar do <B>como <\/B>ou das locu\u00e7\u00f5es <B>na condi\u00e7\u00e3o de<\/B>, <B>na qualidade de<\/B>. Sem querer, claro. E sem ganhar nada com isso.<\/p>\n<p>FHC n\u00e3o magoaria o <B>enquanto<\/B> se tivesse dito \u201c\u2026 mais um passo do nosso avan\u00e7o, como sociedade, na dire\u00e7\u00e3o de formas mais civilizadas de conviv\u00eancia. Rom\u00e1rio estaria melhor \u201cna condi\u00e7\u00e3o de pai e de marido\u201d. O deputado poderia ter escolhido dizer \u201ccomo parlamentar\u201d ou \u201cna condi\u00e7\u00e3o de parlamentar\u201d.&nbsp;<br \/>\n<BR>&nbsp;<\/p>\n<p>Cuidado. As ora\u00e7\u00f5es ligadas pelo <B>enquanto<\/B> t\u00eam que ter o mesmo tempo. L\u00e9 com l\u00e9, cr\u00e9 com cr\u00e9. Cada sapato no seu p\u00e9:<\/p>\n<p>Presente com presente: Enquanto eu dito, voc\u00ea escreve. <\/p>\n<p>Passado com passado: Paulo cozinhava enquanto Maria preparava a mesa. <\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nAo menor descuido, voc\u00ea pode misturar, por exemplo, o pret\u00e9rito perfeito com o imperfeito. Assim: Enquanto o desemprego crescia, a renda despencou. Mal. Muito mal. Enquanto o desemprego crescia, a renda despencava. Enquanto o desemprego cresceu, a renda despencou.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 isso. N\u00e3o acenda uma vela para Deus e outra para o diabo. Pega mal. X\u00f4!&nbsp;<BR>&nbsp;<BR><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Conhece aquela dos macacos? Um, numa ilha distante, l\u00e1 no Pac\u00edfico, inventou uma moda. Come\u00e7ou a descascar a banana antes de com\u00ea-la. Nenhum s\u00edmio havia tido esse luxo antes. Outro, noutra ilha, aqui no Atl\u00e2ntico, teve a mesma id\u00e9ia. Sentou-se no galho da \u00e1rvore onde morava, estendeu o bra\u00e7o, colheu a banana. Olhou-a. 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