{"id":2242,"date":"2008-08-09T08:00:00","date_gmt":"2008-08-09T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/a_oitava_maravilha_da_lingua\/"},"modified":"2008-08-09T08:00:00","modified_gmt":"2008-08-09T11:00:00","slug":"a_oitava_maravilha_da_lingua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/a_oitava_maravilha_da_lingua\/","title":{"rendered":"A oitava maravilha da l\u00edngua"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nNo grupo de terapia, falava-se de n\u00fameros. Entre eles, destacou-se o cabal\u00edstico sete. Sete s\u00e3o os dias da semana. Sete s\u00e3o os pecados capitais. Sete s\u00e3o as colinas de Roma. Sete s\u00e3o os portais que a alma atravessa at\u00e9 chegar ao c\u00e9u. Sete s\u00e3o as vidas do gato. Sete s\u00e3o as maravilhas do mundo.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 E o oito?, perguntou Lia Maria.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 Ele forma a oitava maravilha do mundo, respondeu a Ruth.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nAs sete a gente conhece. S\u00e3o as pir\u00e2mides do Egito, os jardins suspensos da Babil\u00f4nia, o t\u00famulo de Mausolo, o templo de Diana em \u00c9feso, o colosso de Rodes, a est\u00e1tua de J\u00fapiter esculpida por F\u00eddias e o Farol de Alexandria.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 E a oitava?, quis saber M\u00f4nica.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nPedr\u00e3o tomou a palavra:<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 Cada um tem a sua oitava maravilha. \u00c9 algo que se afigura extraordin\u00e1rio, insuper\u00e1vel no g\u00eanero. Para mim, \u00e9 o computador. N\u00e3o posso imaginar a vida sem ele.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 Muito mais maravilhoso, disse Carmela, \u00e9 a crian\u00e7a se alfabetizar.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nSou professora. Parece milagre ver a pestinha, de uma hora pra outra, decifrar a escrita.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 Melhor ainda, intrometeu-se Suzana, \u00e9 limpar o texto dos modismos. Eles irritam que s\u00f3. Fugir deles n\u00e3o exige nenhum saber excepcional. Basta conhecer as sete maravilhas da l\u00edngua.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 Quais s\u00e3o?<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nSuzana levantou-se. E, com ir\u00f4nico ar professoral, esnobou. Escreveu no quadro os cuidados que tornam a express\u00e3o nota mil.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n1. Conjuga\u00e7\u00e3o do futuro. H\u00e1 duas formas de indicar o porvir. Uma \u00e9 o futuro simples (mandarei). A outra, o composto (vou mandar). Nada do pleon\u00e1stico <I>irei mandar <\/I>ou do inexistente <I>vou estar mandando.<\/I><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n2. Emprego do subjuntivo. \u00c9 chique dar a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar. A certeza fica por conta do indicativo. A incerteza, a d\u00favida, a subjetividade pedem o subjuntivo: <I>Talvez ele venha. Se a pol\u00edcia detiver o bandido,a cidade ficar\u00e1 aliviada.Acreditei que cheg\u00e1ssemos a tempo. <\/I>Ah, que precis\u00e3o!<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n3. Uso do enquanto. A conjun\u00e7\u00e3o triss\u00edlaba une ora\u00e7\u00f5es. Em outras palavras: junta verbo com verbo (enquanto eu estudo, voc\u00ea trabalha; voc\u00ea nada enquanto eu jogo bola). Us\u00e1-la no lugar de como ou na qualidade de (Lula, enquanto presidente, defende o governo)? \u00c9 um horror. Induz-se a coitada ao crime de falsidade ideol\u00f3gica. D\u00e1 xilindr\u00f3.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n4. Vez do onde. O onde \u00e9 o maior vil\u00e3o do vestibular. Tira pontos da mo\u00e7ada at\u00e9 dizer chega. A raz\u00e3o \u00e9 uma s\u00f3. Usam-no no lugar do <I>que, cujo, o qual<\/I>. Nada feito. O diss\u00edlabo indica lugar f\u00edsico. S\u00f3: <I>Minha terra tem palmeiras \/ onde canta o sabi\u00e1.<\/I><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n5. Emprego do verbo haver. No sentido de <I>ocorrer <\/I>ou <I>existir, <\/I>o danado \u00e9 impessoal. S\u00f3 a 3\u00aapessoa do singular tem vez: <I>Havia muitos filmes em cartaz.Houve reclama\u00e7\u00f5es na vota\u00e7\u00e3o das reformas.<\/I><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nAten\u00e7\u00e3o, muita aten\u00e7\u00e3o: corte o <I>houveram <\/I>do vocabul\u00e1rio. Ele nunca lhe far\u00e1 falta. A tesourada afasta as tenta\u00e7\u00f5es.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n6. Indica\u00e7\u00e3o de tempo. Aos s\u00e1bados? No s\u00e1bado? O uso do aos informa que o fato se repete regularmente: <I>Fa\u00e7o compra aos s\u00e1bados <\/I>(todos os s\u00e1bados).&nbsp;Fa\u00e7o gin\u00e1stica \u00e0s quartas e domingos (todas as quartas e domingos). <I>Vou \u00e0 missa \u00e0s quintas <\/I>(todas as quintas).<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nA preposi\u00e7\u00e3oem (no s\u00e1bado, na segunda) diz que o fato ocorrer\u00e1 uma s\u00f3 vez ou de vez em quando: <I>Jo\u00e3o Marcelo se batizou no s\u00e1bado.Fui ao cinema na segunda.Viajo na quarta para Madri.<\/I><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n7. Respeito ao acontecer. <I>Acontecer <\/I>d\u00e1 id\u00e9ia de inesperado, desconhecido (o que acontece? Tudo acontece nos feriados). O verbinho n\u00e3o significa <I>realizar-se. <\/I>Nem <I>ocorrer. <\/I>O casamento da Marta aconteceu ontem? Nem pensar. Realizou-se ontem. O concerto acontece no Teatro Municipal? Cruz-credo! O concerto ser\u00e1 no Teatro Municipal.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 Ufa!, sorriu Suzana. E perguntou:<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 E a oitava?<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nA resposta foi un\u00e2nime:<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 Pronome relativo preposicionado. \u00c9 um luxo dizer <I>o livro <\/I>de <I>que gosto,o filme <\/I>a <I>que assisti, o regimento <\/I>a <I>que obede\u00e7o, a cidade <\/I>em <I>que moro.<\/I><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 Outro dia, completou Estela, o <I>Fant\u00e1stico <\/I>anunciou:<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 A cidade que chove todos os dias, em vez de <STRONG>em<\/STRONG> que chove todos os dias.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 Valha-nos Deus! J\u00e1 imaginaram a cidade chover? N\u00e3o sobraria um morador. Fiquei desolada. Desliguei a TV.&nbsp;<BR>&nbsp;<BR><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; No grupo de terapia, falava-se de n\u00fameros. Entre eles, destacou-se o cabal\u00edstico sete. Sete s\u00e3o os dias da semana. Sete s\u00e3o os pecados capitais. Sete s\u00e3o as colinas de Roma. 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