{"id":23347,"date":"2020-08-23T11:30:32","date_gmt":"2020-08-23T14:30:32","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=23347"},"modified":"2020-08-23T11:30:32","modified_gmt":"2020-08-23T14:30:32","slug":"taxar-o-livro-e-tiro-no-pe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/taxar-o-livro-e-tiro-no-pe\/","title":{"rendered":"Taxar o livro \u00e9 tiro no p\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Em palestra na Feira do Livro de Bras\u00edlia, Moacir Scliar disse que no Brasil s\u00f3 h\u00e1 uma unanimidade. \u00c9 o livro. O pa\u00eds estava em campanha eleitoral. Candidatos de diferentes cores ideol\u00f3gicas e de variados n\u00edveis de escolaridade declaravam amor ao objeto que carrega nas p\u00e1ginas o saber e a mem\u00f3ria da humanidade.<\/p>\n<p>O escritor ga\u00facho deve estar se revirando no t\u00famulo. A proposta de reforma tribut\u00e1ria encaminhada pelo governo ao Congresso lhe contraria a afirma\u00e7\u00e3o. Ao unificar dois tributos federais \u2013 o PIS e a Cofins \u2013 acaba com um benef\u00edcio que reduz o custo na produ\u00e7\u00e3o de livros e, consequentemente, no pre\u00e7o pago pelo consumidor. A majora\u00e7\u00e3o ser\u00e1 de 12%.<\/p>\n<p>Editores e entidades ligadas ao mercado editorial lan\u00e7aram o manifesto &#8220;Em defesa do livro\u201d. Escolas, professores, estudantes, servidores governamentais, profissionais do setor privado, e p\u00fablico em geral manifestaram o desacordo na imprensa e nas m\u00eddias sociais. No Congresso tamb\u00e9m houve rea\u00e7\u00f5es. O senador Fl\u00e1vio Arns reconhece que a nova tributa\u00e7\u00e3o deve isentar o setor.<\/p>\n<p>Questionado sobre a medida, o ministro Paulo Guedes disse que livro \u00e9 objeto de consumo da elite. No Brasil, quem compra o produto \u00e9 rico. E rico pode pagar. Nem notar\u00e1 a diferen\u00e7a. Para os pobres prometeu distribui\u00e7\u00e3o gratuita de t\u00edtulos pelo governo. As palavras despertaram indigna\u00e7\u00e3o e protestos.<\/p>\n<p>Com raz\u00e3o. Ao restringir o mais importante produto cultural a poucos privilegiados, o ministro revela desconhecimento das urg\u00eancias nacionais. Calcanhar de aquiles do pa\u00eds, a educa\u00e7\u00e3o precisa de salto qualitativo. O Brasil, diferentemente de outras na\u00e7\u00f5es com o mesmo grau de desenvolvimento, democratizou o acesso \u00e0 escola, n\u00e3o ao conhecimento.<\/p>\n<p>Reduzir o atraso passa necessariamente pela leitura. O brasileiro l\u00ea pouco. Pesquisa do Instituto Pr\u00f3-Livro apresenta n\u00fameros assustadores. Incluindo o livro did\u00e1tico, a m\u00e9dia \u00e9 de 2,43 livros por ano. Exclu\u00eddo o did\u00e1tico, cai para um. (O franc\u00eas l\u00ea 21). A ter\u00e7a parte da popula\u00e7\u00e3o nunca comprou um livro. Analfabetismo, desigualdade social, falta de estrutura educacional e familiar s\u00e3o fatores que impedem avan\u00e7os.<\/p>\n<p>O desafio \u00e9, pois, ler mais. Ler mais pressup\u00f5e mais contato com as obras. Imp\u00f5e-se possibilitar \u00e0 crian\u00e7a o direito de escolher. Da\u00ed por que secretarias de Educa\u00e7\u00e3o d\u00e3o aos estudantes vale-livro para eles irem \u00e0s bienais ou \u00e0s feiras liter\u00e1rias e exercitem a liberdade: olhem capas, folheiem, admirem as ilustra\u00e7\u00f5es, leiam uma p\u00e1gina aqui, outra ali \u2013 at\u00e9 encontrar o livro que lhes desperte o interesse. \u00c9 assim que nasce o leitor. Nas palavras de Jorge Amado, &#8220;um livro leva a outro&#8221;. Fechar essa porta \u00e9 tiro no p\u00e9.<\/p>\n<p>(Editorial do <em>Correio Braziliense<\/em> de hoje)<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><\/td>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em palestra na Feira do Livro de Bras\u00edlia, Moacir Scliar disse que no Brasil s\u00f3 h\u00e1 uma unanimidade. \u00c9 o livro. O pa\u00eds estava em campanha eleitoral. Candidatos de diferentes cores ideol\u00f3gicas e de variados n\u00edveis de escolaridade declaravam amor ao objeto que carrega nas p\u00e1ginas o saber e a mem\u00f3ria da humanidade. O escritor ga\u00facho deve estar se revirando no t\u00famulo. 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