{"id":2388,"date":"2008-09-02T00:00:00","date_gmt":"2008-09-02T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/propriedade_vocabular\/"},"modified":"2008-09-02T00:00:00","modified_gmt":"2008-09-02T03:00:00","slug":"propriedade_vocabular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/propriedade_vocabular\/","title":{"rendered":"Propriedade vocabular"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<br \/>\n&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Dizem as m\u00e1s l\u00ednguas que o brasileiro \u00e9 sibarita. Imita os habitantes de S\u00edbaris. Os moradores da ilhazinha grega tinham uma caracter\u00edstica. Sentiam avers\u00e3o ao trabalho. Qualquer esfor\u00e7o f\u00edsico lhes arrepiava os p\u00ealos mais \u00edntimos.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os boas-vidas tinham enorme sensibilidade. Suavam copiosamente ao ver um escravo rachar lenha. Perdiam o sono num piscar de olhos. Bastava a empregada descuidar-se. Foi o que aconteceu com um deles. O pobre n\u00e3o conseguiu entregar-se aos bra\u00e7os de Morfeu por uma raz\u00e3o pra l\u00e1 de justa. Entre as p\u00e9talas de rosas que lhe serviam de len\u00e7ol, havia uma dobrada em duas. Quem consegue dormir com tal desconforto?<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O esp\u00edrito dos sibaritas contagiou o povo tupiniquim. &#8220;Ai, que pregui\u00e7a&#8221;, suspira Macuna\u00edma. E n\u00f3s vamos atr\u00e1s. A primeira v\u00edtima \u00e9 a l\u00edngua. Ao falar ou escrever, n\u00e3o d\u00e1 outra. Apelamos para a lei do menor esfor\u00e7o. Recorremos aos verbos-\u00f4nibus. Eles t\u00eam cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e. Neles, sempre cabe mais um.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um \u00f4nibus conduz 42 passageiros sentados e outros tantos de p\u00e9. Alguns voc\u00e1bulos os imitam. Funcionam como transporte coletivo. Encaixam-se em qualquer contexto. S\u00e3o as palavras- \u00f4nibus.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;&nbsp;&nbsp; Gen\u00e9ricas e incolores, tornam a frase vaga, imprecisa. Vale o exemplo de coisa. A danada \u00e9 um super\u00f4nibus. Virou minhoc\u00e3o. &#8220;Comprei uma coisa pra voc\u00ea&#8221; pode ser&#8230; qualquer coisa. &nbsp;<BR><br \/>\n<STRONG>V\u00edtimas&nbsp;&nbsp;<BR><\/STRONG><br \/>\n&nbsp;As maiores v\u00edtimas da sibaritice s\u00e3o os verbos. Ao menor descuido, pronto. L\u00e1 est\u00e3o os usurpadores. Fazer, p\u00f4r, dizer, ver &amp; cia. generosa roubam o lugar de outros. Resultado: o vocabul\u00e1rio empobrece. A precis\u00e3o pede socorro. O prazer da leitura diz bye, bye.&nbsp;<BR>&nbsp;<BR><br \/>\n&nbsp;&nbsp;&nbsp; H\u00e1 sa\u00edda? H\u00e1. Com paci\u00eancia e boa vontade, a gente deixa a pregui\u00e7a pra l\u00e1. Encontra o verbo mais adequado ao contexto. A frase ganha eleg\u00e2ncia. Fica podre de chique. A\u00ed, n\u00e3o d\u00e1 otura. O leitor agradece. Quer ver?&nbsp;<BR><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<STRONG>FAZER&nbsp;<\/STRONG><br \/>\n<BR>&nbsp;<br \/>\nFazer (cavar) uma fossa. Fazer (esculpir) uma est\u00e1tua. Fazer (redigir ou escrever) artigos para o jornal. Fazer ( proferir) discursos. Fazer (percorrer) o trajeto de carro. Fazer (cursar) economia.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nP\u00d4 R<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp; P\u00f4r (acrescentar) uma palavra na frase. P\u00f4r (introduzir) as onda na ferida. P\u00f4r (empregar) o futuro do subjuntivo na ora\u00e7\u00e3o. P\u00f4r (guardar) a roupa no arm\u00e1rio. P\u00f4r (depositar) dinheiro no banco. P\u00f4r ( vestir) o terninho novo. P\u00f4r (cal\u00e7ar) o sapato.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nDIZER<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;&nbsp; Dizer (declamar) poemas .Dizer ( revelar) os segredos da fam\u00edlia. Dizer (citar) exemplos. Dizer (contar) a hist\u00f3ria. Dizer (narrar) os acontecimentos .<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nTER<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;&nbsp; Ter (gozar) boa reputa\u00e7\u00e3o. Ter ( conquistar) o respeito dos subordinados. Ter ( sentir) dor de cabe\u00e7a. Ter (medir) cinc o metros . Ter (pesar) 50 quilos.Ter ( sentir) pena dos trabalhadores da Novacap .<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nVER<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;&nbsp; Ver (admirar) a beleza do quadro. Ver ( observar) os pormenores mais insignificantes. Ver (espiar) pela fechadura. Ver (assistir a) programas de televis\u00e3o. Ver ( presenciar, apreciar) o desfile de Cardin.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;&nbsp; Montaigne dizia e repetia. O estilo tem tr\u00eas virtudes. Uma: clareza. A outra: clareza. A \u00faltima: clareza. A clareza das id\u00e9ias anda de m\u00e3os dadas com a precis\u00e3 o das palavras.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;&nbsp; \u00c9 mais ou menos o que frisava Maupassant: &#8220;Qualquer que seja a coisa que queiramos dizer, h\u00e1 apenas uma palavra para exprimi-la, um verbo para anim\u00e1-la e um adjetivo para qualific\u00e1-la&#8221;.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;&nbsp; Buscar o voc\u00e1bulo mais adequado ao contexto constitui exerc\u00edcio dif\u00edcil. Exige aten\u00e7\u00e3o, cuidado, paci\u00eancia e&nbsp;pesquisa. Ler bons livros ajuda. Consultar o dicion\u00e1rio tamb\u00e9m.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Dizem as m\u00e1s l\u00ednguas que o brasileiro \u00e9 sibarita. Imita os habitantes de S\u00edbaris. Os moradores da ilhazinha grega tinham uma caracter\u00edstica. Sentiam avers\u00e3o ao trabalho. Qualquer esfor\u00e7o f\u00edsico lhes arrepiava os p\u00ealos mais \u00edntimos. &nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os boas-vidas tinham enorme sensibilidade. Suavam copiosamente ao ver um escravo rachar lenha. Perdiam o sono num piscar de olhos. Bastava a empregada descuidar-se. 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