{"id":23991,"date":"2020-11-20T15:26:50","date_gmt":"2020-11-20T18:26:50","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=23991"},"modified":"2020-11-20T15:29:03","modified_gmt":"2020-11-20T18:29:03","slug":"23991-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/23991-2\/","title":{"rendered":"Por que, por qu\u00ea, porque ou porqu\u00ea? Depende."},"content":{"rendered":"<p>Lucas Matos \u00e9 leitor atento do jornal. Presta aten\u00e7\u00e3o \u00e0s not\u00edcias e \u00e0 forma como s\u00e3o contadas. Outro dia, escreveu um desabafo: \u201cO blogue falou mais de uma vez sobre o emprego dos porqu\u00eas. Mas rep\u00f3rteres nem sempre leem as li\u00e7\u00f5es. At\u00e9 o chargista se descuida&#8221;. Que tal um repeteco?\u201d Leitor manda, n\u00e3o pede. L\u00e1 vai.<\/p>\n<p><strong>4 caras<\/strong><\/p>\n<p>Por que? Por qu\u00ea? Porque? Porqu\u00ea? \u00c9 um deus nos acuda. Ora a dupla vem coladinha. Ora, separada. \u00c0s vezes com acento. Outras, sem len\u00e7o nem documento. Quem entende? \u00c9 um n\u00f3 nos miolos. H\u00e1 dois empregos pra l\u00e1 de conhecidos.<\/p>\n<p>Gente de casa, quase todo mundo os domina. Na \u00e9poca em que a escola ensinava e o aluno aprendia, a meninada decorava: na pergunta, o parzinho \u00e9 separado. Se o qu\u00ea estiver no fim da frase, no fim mesmo, encostado no ponto, leva circunflexo. Caso contr\u00e1rio, vem soltinho da silva:<\/p>\n<p><b><\/b><b>Por que e por qu\u00ea <\/b><\/p>\n<p><i>Paulo, por que voc\u00ea chegou atrasado? <\/i><\/p>\n<p>Paulo, voc\u00ea chegou atrasado por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Maria, voc\u00ea \u00e9 sempre t\u00e3o atenta, mas anda distra\u00edda. Por que ser\u00e1?<\/p>\n<p>Maria, voc\u00ea sempre t\u00e3o atenta, mas anda distra\u00edda. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p><b>Porque<\/b><\/p>\n<p>A resposta \u00e0 quest\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil como tirar pirulito de beb\u00ea. O parzinho vem colado. \u00c9 a conjun\u00e7\u00e3o causal:<\/p>\n<p><i>Paulo chegou atrasado porque acordou tarde. <\/i><\/p>\n<p>Maria anda distra\u00edda porque est\u00e1 apaixonada.<\/p>\n<p><b><\/b><b>Porqu\u00ea<\/b><\/p>\n<p>O porqu\u00ea, assim \u2013 juntinho e enchapelado \u2013, joga no time dos substantivos. \u00c9 sin\u00f4nimo de causa, raz\u00e3o, motivo. Ele apresenta duas marcas. Uma: tem plural. A outra: vem acompanhado de artigo, numeral ou pronome. Quer ver?<\/p>\n<p><i>Agora entendo o porqu\u00ea dos porqu\u00eas. <\/i><\/p>\n<p>Eis o porqu\u00ea da distra\u00e7\u00e3o de Maria.<\/p>\n<p>Esse porqu\u00ea poucos entendem.<\/p>\n<p>O primeiro porqu\u00ea \u00e9 mais f\u00e1cil que o segundo.<\/p>\n<p><b><\/b><b>Por que e por qu\u00ea (de novo)<\/b><\/p>\n<p>Esse porqu\u00ea parece repeteco do primeiro. Parece, mas n\u00e3o \u00e9. Ele ganhou destaque porque representa um senhor perigo. Gente muito boa trope\u00e7a nele e cai como patinho ing\u00eanuo que nada no lago. O que fazer? Dar um jeito. Entender-lhe as manhas. Desvendado o mist\u00e9rio, a verdade \u00e9 uma s\u00f3 \u2013 o diabo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o feio quanto o pintam. \u00c9 malandro. Contra ele, malandragem e meia.<\/p>\n<p><b>Vamos aos fatos:<\/b><\/p>\n<p>O porqu\u00ea separado sem estar em pergunta \u00e9 constru\u00e7\u00e3o pregui\u00e7osa. Aparece pela metade. Sem muita disposi\u00e7\u00e3o para o batente, deixa subentendidos os substantivos <i>a raz\u00e3o, a causa, o motivo<\/i>:<\/p>\n<p><i><\/i><i>Gostaria de saber (a raz\u00e3o) por que Paulo chegou atrasado. <\/i><\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel me dizer (o motivo) por que J\u00falia odeia Bia?<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o sabemos (as causas) por que o Brasil invadiu o Paraguai.<\/p>\n<p>Viu? Antes do porqu\u00ea est\u00e1 escondidinho um substantivo. Ele n\u00e3o aparece. Mas conta. \u00c9 que a l\u00edngua, engenhosa, o omite. Os distra\u00eddos caem na armadilha. Os sabidos t\u00eam um macete. Sempre que o porqu\u00ea for substitu\u00edvel <i>por a raz\u00e3o pela<\/i> <i>qual<\/i>, n\u00e3o duvidam. \u00c9 um l\u00e1 e outro c\u00e1. Se estiver no fim da linha, colado no ponto, ganha chap\u00e9u:<\/p>\n<p>N\u00e3o entendi por que (a raz\u00e3o pela qual) Paulo chegou atrasado.<\/p>\n<p>Paulo tentou, mas n\u00e3o conseguiu explicar por que (a raz\u00e3o pela qual) chegou atrasado.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o melhor filme do ano. V\u00e1 ao cinema e descubra por qu\u00ea (a raz\u00e3o pela qual).<\/p>\n<p><i>No livro<\/i> Intermit\u00eancias da morte, <i>de Jos\u00e9 Saramago, as pessoas deixaram de morrer. Foi dif\u00edcil saber por qu\u00ea (<\/i>a raz\u00e3o pela qual elas deixaram de morrer).<\/p>\n<p><b><\/b><b>Resumo da \u00f3pera<\/b><\/p>\n<p>Descobrir o porqu\u00ea dos porqu\u00eas n\u00e3o \u00e9 nenhum bicho de sete cabe\u00e7as. Basta aprender por que uns se escrevem juntinhos; outros, separados. E abrir os olhos para as manhas dos acentos. Os chapeuzinhos t\u00eam seu porqu\u00ea.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lucas Matos \u00e9 leitor atento do jornal. Presta aten\u00e7\u00e3o \u00e0s not\u00edcias e \u00e0 forma como s\u00e3o contadas. Outro dia, escreveu um desabafo: \u201cO blogue falou mais de uma vez sobre o emprego dos porqu\u00eas. Mas rep\u00f3rteres nem sempre leem as li\u00e7\u00f5es. At\u00e9 o chargista se descuida&#8221;. Que tal um repeteco?\u201d Leitor manda, n\u00e3o pede. L\u00e1 vai. 4 caras Por que? Por qu\u00ea? Porque? 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