{"id":24280,"date":"2022-11-28T07:22:46","date_gmt":"2022-11-28T10:22:46","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=24280"},"modified":"2022-11-28T07:22:46","modified_gmt":"2022-11-28T10:22:46","slug":"o-time-da-lingua-portuguesa-entra-em-campo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o-time-da-lingua-portuguesa-entra-em-campo\/","title":{"rendered":"O time da l\u00edngua portuguesa entra em campo"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>\u201cTudo certo como dois e dois s\u00e3o cinco\u201d<br \/>\nCaetano Veloso<\/p><\/blockquote>\n<p>O assunto \u00e9 um s\u00f3. Copa pra l\u00e1, Copa pra c\u00e1. Apostas n\u00e3o faltam. Nem cole\u00e7\u00e3o de figurinhas do evento. E o time? Muitos acham que a equipe pode trazer a ta\u00e7a. Outros duvidam. Mas, como a esperan\u00e7a \u00e9 a \u00faltima que morre, n\u00e3o arrefecem. Torcem. A l\u00edngua lhes d\u00e1 senhora ajuda porque p\u00f5e o dedo na ferida. O xis da vit\u00f3ria: a coes\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Texto e equipe<\/strong><\/p>\n<p>Imagine a situa\u00e7\u00e3o. Com carta branca, Tite forma o time com os melhores jogadores do mundo. Todos do n\u00edvel de Cristiano Ronaldo, Messi, Neymar. Confiante no talento individual, p\u00f5e a equipe em campo antes de definir a posi\u00e7\u00e3o e a movimenta\u00e7\u00e3o de cada um pra atingir o objetivo. Qual? O gol, claro. Sem plano que as oriente, as criaturas n\u00e3o formam conjunto. E, claro, n\u00e3o se entendem. Correm sem rumo, chutam a esmo, estranham a bola. S\u00e3o 11 Pel\u00e9s transformados em 11 patetas. O resultado? Fiasco nota 10.<\/p>\n<p>A imagem vale para a reda\u00e7\u00e3o. Belas ideias, belas palavras e belas frases n\u00e3o resultam necessariamente em bom texto. Pra chegar \u00e0 unidade de composi\u00e7\u00e3o, elas precisam se articular \u2014 entrosar-se com clareza, harmonia e coer\u00eancia. Em bom portugu\u00eas: as palavras t\u00eam de conversar pra formar per\u00edodos. Os per\u00edodos t\u00eam de conversar pra formar par\u00e1grafos. Os par\u00e1grafos t\u00eam de conversar pra formar o texto. O bate-papo tem nome. Chama-se coes\u00e3o textual.<\/p>\n<p><strong>Coes\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u201cSocooooooooooooooooooooooooorro!\u201d, gritam os concurseiros de Europa, Fran\u00e7a e Bahia. O motivo: perdem pontos a rodo num tal item chamado coes\u00e3o. Eles procuram o assunto nas gram\u00e1ticas. N\u00e3o encontram. Celsos Cunhas, Becharas, Cegallas n\u00e3o dedicam nenhum cap\u00edtulo ao tema. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>A raz\u00e3o \u00e9 simples. Coes\u00e3o est\u00e1 presente na morfologia, na sintaxe, nas figuras de linguagem. Ao estudar substantivos, verbos, pronomes, conjun\u00e7\u00f5es, preposi\u00e7\u00f5es, coordena\u00e7\u00e3o, subordina\u00e7\u00e3o, etc. e tal, indiretamente estudamos coes\u00e3o. Eles oferecem recursos pra ligar palavras, ligar per\u00edodos, ligar par\u00e1grafos. Em suma: juntar partes soltas em unidades coerentes.<\/p>\n<p>Quer ver?<\/p>\n<p>Anel e ouro s\u00e3o duas palavras que n\u00e3o se conhecem nem de elevador. Mas formam unidade com a ajuda da preposi\u00e7\u00e3o de: anel de ouro.<\/p>\n<p>Cozinho, estamos sem empregada.<\/p>\n<p>Que rela\u00e7\u00e3o existe entre enunciados assim independentes? A conjun\u00e7\u00e3o se encarrega de p\u00f4r os pontos nos ii. Ela pode indicar causa (cozinho porque estamos sem empregada). Pode indicar tempo (cozinho quando estamos sem empregada). Pode indicar dura\u00e7\u00e3o (cozinho enquanto estamos sem empregada). Pode indicar condi\u00e7\u00e3o (cozinho se estamos sem empregada).<\/p>\n<p>Mais<\/p>\n<p>Pronomes exercem duplo papel. Al\u00e9m de auxiliar a coes\u00e3o, contribuem para a eleg\u00e2ncia. Como? Evitam repeti\u00e7\u00f5es. Veja:<\/p>\n<p>Rafael e Jo\u00e3o Marcelo s\u00e3o irm\u00e3os. Este estuda medicina; aquele, direito. (Este substitui Jo\u00e3o Marcelo; aquele, Rafael.)<\/p>\n<p>Neymar foi pra a Fran\u00e7a h\u00e1 anos. Ele e a fam\u00edlia se mudaram para Paris.<\/p>\n<p>Repeti\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Nem toda repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 m\u00e1. A estil\u00edstica d\u00e1 liga e charme ao texto. \u00c9 o caso deste trecho:<\/p>\n<p>A cultura do desperd\u00edcio tem de ser desmontada por dentro. \u00c9 preciso que os brasileiros n\u00e3o joguem fora restos de comida aproveit\u00e1veis nem deixem as l\u00e2mpadas acesas quando saem de um aposento. \u00c9 preciso que os livros escolares sejam aproveitados pelos irm\u00e3os menores. \u00c9 preciso n\u00e3o destruir os bens p\u00fablicos. \u00c9 preciso, enfim, martelar insistentemente na necessidade de poupar.<\/p>\n<p>Viu? A repeti\u00e7\u00e3o de \u201c\u00e9 preciso\u201d n\u00e3o decorre de pobreza vocabular. O autor escolheu o recurso para enfatizar a necessidade de poupar. A locu\u00e7\u00e3o introduz cada exemplo. O resultado \u00e9 um s\u00f3: deixa gravada a mensagem na cabe\u00e7a do leitor. Oba!<\/p>\n<h3>Leitor pergunta<\/h3>\n<p><strong>Pirata, na fun\u00e7\u00e3o de adjetivo, se flexiona?<\/strong><br \/>\nMarcelo Santos, Viam\u00e3o<\/p>\n<p>Sim. No papel de adjetivo, pirata tem duas marcas. Uma: escreve-se sem h\u00edfen, A outra: flexiona-se no plural: r\u00e1dio pirata, r\u00e1dios piratas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Belas ideias, belas palavras e belas frases n\u00e3o resultam necessariamente em bom texto. 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