{"id":24283,"date":"2022-12-05T10:31:00","date_gmt":"2022-12-05T13:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=24283"},"modified":"2022-12-05T10:31:00","modified_gmt":"2022-12-05T13:31:00","slug":"e-agora-jose-saiba-como-usar-corretamente-o-vocativo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/e-agora-jose-saiba-como-usar-corretamente-o-vocativo\/","title":{"rendered":"E agora, Jos\u00e9? Saiba como usar corretamente o vocativo"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>\u201cO futebol n\u00e3o tem mist\u00e9rio. Voc\u00ea \u00e9 que faz o mist\u00e9rio do futebol.\u201d<br \/>\nGarrincha<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Inspira\u00e7\u00e3o truncada<\/strong><\/p>\n<p>Eram 22h de quarta-feira. A turma se sentou diante da TV. Queria saber as not\u00edcias do dia com coment\u00e1rios inteligentes. O assunto era as consequ\u00eancias do sumi\u00e7o de Jair Bolsonaro depois da derrota nas elei\u00e7\u00f5es. O t\u00edtulo foi inspirado no poema \u201cE agora, Jos\u00e9?\u201d, de Drummond. Mas, ao escrev\u00ea-lo na telinha, foi um banho de \u00e1gua fria. A frase apareceu assim: \u201cE agora Jair\u201d. Duas faltas: a v\u00edrgula do vocativo e o ponto de interroga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O marginal<br \/>\n<\/strong>O vocativo \u00e9 o marginal da ora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o faz parte dos termos essenciais, integrantes ou acess\u00f3rios. Por isso vem sempre \u2013 sempre mesmo \u2013 separado por v\u00edrgula.<\/p>\n<p>A palavra vocativo vem do latim <em>vocare<\/em>. Significa chamar. Pertence \u00e0 mesma fam\u00edlia de voca\u00e7\u00e3o (chamamento do cora\u00e7\u00e3o). Seguir a voca\u00e7\u00e3o \u00e9 atender a voz interior. Ouvir o apelo da alma. \u201c\u00c9 feliz quem faz aquilo de que gosta\u201d, dizem os psic\u00f3logos.<\/p>\n<p><strong>Ol\u00e1!<br \/>\n<\/strong>Sempre que voc\u00ea se dirigir a algu\u00e9m, n\u00e3o duvide. Estar\u00e1 usando o vocativo. \u201cPaulo, tome banho\u201d, manda a m\u00e3e. Paulo \u00e9 o vocativo. \u201cAl\u00f4, S\u00edlvio, tudo bem?\u201d, diz Maria ao telefone. S\u00edlvio \u00e9 o vocativo. \u201cSenhor Diretor\u201d, come\u00e7a o of\u00edcio com o vocativo.<\/p>\n<p><strong>Truque<br \/>\n<\/strong>H\u00e1 um truque para identificar esse termo arredio. Antepor-lhe o \u00f3: (\u00f3) Maria, vamos conversar? Vem c\u00e1, (\u00f3) meu filho. Presidente, posso lhe fazer uma sugest\u00e3o? Acreditem, (\u00f3) leitores, ser claro \u00e9 a maior qualidade do estilo.<\/p>\n<p><strong>Literatura<br \/>\n<\/strong>A literatura usa e abusa do chamamento. \u201cDeus, \u00f3 Deus, onde est\u00e1s que n\u00e3o me escutas?\u201d, pergunta Castro Alves em <em>Vozes d\u2019\u00c1frica<\/em>. \u201cTu choraste em presen\u00e7a da morte? Em presen\u00e7a de estranhos choraste? N\u00e3o descende o covarde do forte. Tu, covarde, meu filho n\u00e3o \u00e9s\u201d, escreve Gon\u00e7alves Dias em <em>I-Juca Pirama<\/em>. \u201cEntra, minha filha, sen\u00e3o vais virar prostituta\u201d, amea\u00e7a a experiente senhora. \u201cDeus te ou\u00e7a, minha m\u00e3e, Deus te ou\u00e7a\u201d, responde a mo\u00e7a assanhada do poema de Ascenso Ferreira.<\/p>\n<p>\u201cE agora, Jos\u00e9?\u201d, pergunta Drummond. Foi a\u00ed que a CNN pisou a bola. Esqueceu-se de que Jair \u00e9 vocativo. Marginal, exige a v\u00edrgula sim, senhores.<\/p>\n<p><strong>Correspond\u00eancia<br \/>\n<\/strong>Nas cartinhas, nos e-mails, nos bilhetes, o vocativo est\u00e1 presente: Ol\u00e1, Paulo, Oi, Maria, Caro Lu\u00eds, Meu amor. Na reda\u00e7\u00e3o oficial tamb\u00e9m. O ato de correspond\u00eancia se abre com ele: Senhor Presidente da Rep\u00fablica, Senhor Chefe, Senhor Diretor.<\/p>\n<p><strong>Reda\u00e7\u00e3o oficial<br \/>\n<\/strong>Houve tempo em que a correspond\u00eancia do governo dava margem \u00e0 criatividade. O redator podia separar o vocativo por dois pontos (Senhor Diretor, v\u00edrgula (Senhor Diretor,) ou simplesmente n\u00e3o usar nada (Senhor Diretor). Hoje as coisas mudaram. O Manual de reda\u00e7\u00e3o da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica recomenda o emprego da v\u00edrgula.<\/p>\n<p>E a letra mai\u00fascula depois da v\u00edrgula? Sempre que iniciar par\u00e1grafo, usa-se a grandona \u2014 mesmo depois da v\u00edrgula do vocativo. Assim se convencionou. Manda quem pode. Obedece quem tem ju\u00edzo.<\/p>\n<p>\u00d3 e oh!: quando usar<\/p>\n<p>O \u00f3 aparece no vocativo, quando a gente se dirige a algu\u00e9m:<\/p>\n<p>Deus, \u00f3 Deus, onde est\u00e1s que n\u00e3o me escutas?<br \/>\nAt\u00e9 tu, \u00f3 Brutus, meu filho?<br \/>\nSeu pai morreu? Morreu pra voc\u00ea, \u00f3 filho ingrato.<\/p>\n<p>O oh! \u00e9 interjei\u00e7\u00e3o. Tem vez quando a gente fica de boca aberta de admira\u00e7\u00e3o ou espanto:<\/p>\n<p>Oh! Que linda voz!<br \/>\nOh! Que trapaceiro! Quem diria, hem?<br \/>\nOh! Que surpresa!<br \/>\n\u00d3 Paulo, n\u00e3o entendi seu oh! de espanto. Pode me explicar?<\/p>\n<h3><strong>Ao hexa<\/strong><\/h3>\n<p>O Brasil conquistar\u00e1 a sexta estrela? Vamos torcer. Se chegar l\u00e1, estejamos preparados para lidar com a grafia do hexa. A desejada dos brasileiros pede h\u00edfen? Ou dispensa o tracinho? Ela pede o elo quando seguida de h e a. Nos demais casos, vem tudo junto: hexa-homenagem, hexa-advert\u00eancia, hexacampe\u00e3o, hexadecimal, hexarreator, hexassubstituto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O vocativo \u00e9 o marginal da ora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o faz parte dos termos essenciais, integrantes ou acess\u00f3rios. 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