{"id":2449,"date":"2008-09-10T00:00:00","date_gmt":"2008-09-10T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_mesmo_dos_mesmos\/"},"modified":"2008-09-10T00:00:00","modified_gmt":"2008-09-10T03:00:00","slug":"o_mesmo_dos_mesmos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_mesmo_dos_mesmos\/","title":{"rendered":"O mesmo dos mesmos"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 palavras adapt\u00e1veis que s\u00f3. T\u00eam a cintura mais flex\u00edvel que a de pol\u00edtico mineiro. \u00c9 o caso do <I>mesmo<\/I>. Ora ele se flexiona no feminino, masculino, singular e plural. Ora se mant\u00e9m invari\u00e1vel. A maleabilidade \u00e9 tal que incentiva abusos. Criaturas sem limites acham que podem fazer gato e sapato do diss\u00edlabo. Enganam-se. Vingativo, ele os desmoraliza. Pra escapar do vexame, o bom senso aconselha p\u00f4r as barbas de molho. A receita \u00e9 uma s\u00f3 \u2014 conhecer as manhas do ser t\u00e3o el\u00e1stico quanto chiclete. <B><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nPorteira aberta<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<\/B>1. \u00c0 s vezes, <I>mesmo<\/I> funciona como pronome demonstrativo. A\u00ed, concorda em g\u00eanero e n\u00famero com o substantivo a que se refere: <I>o mesmo jogo, a mesma camisa, os mesmos jogadores, as mesmas partidas.<\/I><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n2. Outras vezes, modifica substantivos e os pronomes pessoais. Flexiona-se, ent\u00e3o, de acordo com o g\u00eanero e o n\u00famero do termo a que se relaciona. Para melhor compreens\u00e3o, pode ser substitu\u00eddo por <I>pr\u00f3prio<\/I> e <I>pr\u00f3pria<\/I>: <I>a garota mesma (a pr\u00f3pria garota), o ator mesmo (o pr\u00f3prio ator), as garotas mesmas (as pr\u00f3prias garotas), os atores mesmos (os pr\u00f3prios atores), eu mesma (eu pr\u00f3pria), eu mesmo (eu pr\u00f3prio), ele mesmo, ela mesma, n\u00f3s mesmos, n\u00f3s mesmas, eles mesmos, elas mesmas.<\/I><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n3. H\u00e1 ocasi\u00f5es em que o polivalente faz papel de adv\u00e9rbio. Significa <I>realmente, de fato<\/I>. A\u00ed, fica invari\u00e1vel: <I>Ele n\u00e3o viajou mesmo. Fizemos o trabalho ontem mesmo. Ela quer mesmo mudar-se de casa.<\/I><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n4. A versatilidade do mesmo n\u00e3o fica por a\u00ed. Ele pode funcionar como pronome neutro. Tem o sentido de <I>a mesma coisa<\/I>: <I>Ir ou ficar n\u00e3o faz diferen\u00e7a. D\u00e1 no mesmo (na mesma coisa). O mesmo (a mesma coisa) eu ouvi de pessoas diferentes.<\/I><B><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nEntrada proibida<\/B><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nApesar das mil e uma utilidades, h\u00e1 pessoas insaci\u00e1veis. Querem mais. Exigem que o coitado fa\u00e7a as vezes de pronome pessoal ou de pronome relativo. Ele n\u00e3o gosta. Reclama. E d\u00e1 o troco. Desmoraliza quem o obriga a ser o que n\u00e3o \u00e9. Deixa a frase capenga, pobre e viciada. Quer exemplos?<B><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nVou \u00e0 casa de Maria. L\u00e1, combinarei com a mesma a festa do Dia das Crian\u00e7as.<\/B><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u00c9 a receita do cruz-credo, n\u00e3o? <I>Mesmo<\/I> n\u00e3o tem procura\u00e7\u00e3o pra substituir o sujeito, o objeto, o complemento. A gente n\u00e3o precisa cair na esparrela. H\u00e1 jeitos de escapar da muleta de pregui\u00e7oso.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nQuer ver? <I>Vou \u00e0 casa de Maria, com quem combinarei a festa do Dia das Crian\u00e7as. . Vou \u00e0 casa de Maria para combinar com ela a festa do Dia das Crian\u00e7as. Vou \u00e0 casa de Maria. Combinarei com ela a festa do Dia das Crian\u00e7as.<\/I><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nOutro exemplo<B><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nRealizou-se domingo a comemora\u00e7\u00e3o do Dia da P\u00e1tria. Compareceram \u00e0 mesma milhares de pessoas<I>.<\/B><\/I><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nCruzes! Pra l\u00e1, comodismo: <I>Realizou-se domingo a comemora\u00e7\u00e3o do Dia da P\u00e1tria \u00e0 qual compareceram milhares de pessoas<\/I>. <I>Realizou-se domingo a comemora\u00e7\u00e3o do Dia da P\u00e1tria. Milhares de pessoas compareceram \u00e0 Esplanada dos Minist\u00e9rios. Realizou-se domingo a comemora\u00e7\u00e3o do Dia da P\u00e1tria. Milhares de pessoas deram brilho \u00e0 festa.<\/I><B><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nAviso nos elevadores<\/B><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nH\u00e1 pessoas que abandonaram os elevadores. Tornaram-se freq\u00fcentadores de escadas por causa do aviso afixado em todos os andares. O texto, obrigat\u00f3rio por lei, est\u00e1 eivado de erros. Um deles \u00e9 o emprego do <I>mesmo<\/I>. Eis a p\u00e9rola legislativa:<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&#8220;Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar.&#8221;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nPra evitar acidentes e desgastes f\u00edsicos, \u00e9 necess\u00e1rio respeito \u00e0 l\u00edngua. O <I>mesmo<\/I> deve cair fora. Mas n\u00e3o ir\u00e1 sozinho. Outras mudan\u00e7as se imp\u00f5em. Dado a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar, a recomenda\u00e7\u00e3o fica assim<I>: Antes de entrar, verifique se o elevador est\u00e1 neste andar. <\/I>Que tal?<B><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nResumo da opereta<\/B><I><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nMesmo<\/I> fica tiririca diante de abusos. Respeite-o. N\u00e3o o ponha no lugar dos pronomes pessoal (ele, ela) e relativo (que, quem). Nem o ponha no papel de substituto do sujeito, do objeto e complementos. Na hora da tenta\u00e7\u00e3o, pare, pense e diga sem apego:<br \/>\n\u2014 X \u00f4! <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 palavras adapt\u00e1veis que s\u00f3. T\u00eam a cintura mais flex\u00edvel que a de pol\u00edtico mineiro. \u00c9 o caso do mesmo. Ora ele se flexiona no feminino, masculino, singular e plural. Ora se mant\u00e9m invari\u00e1vel. A maleabilidade \u00e9 tal que incentiva abusos. Criaturas sem limites acham que podem fazer gato e sapato do diss\u00edlabo. Enganam-se. Vingativo, ele os desmoraliza. 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