{"id":2482,"date":"2008-09-14T00:00:00","date_gmt":"2008-09-14T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/trago_e_trazido\/"},"modified":"2008-09-14T00:00:00","modified_gmt":"2008-09-14T03:00:00","slug":"trago_e_trazido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/trago_e_trazido\/","title":{"rendered":"Trago e trazido"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<br \/>\nQue confus\u00e3o! Trago e trazido t\u00eam dado n\u00f3 no miolo de pais e alunos. A raz\u00e3o \u00e9 simples. Por alguma raz\u00e3o que nem Deus explica, a mo\u00e7ada decidiu fazer economia de s\u00edlabas. A v\u00edtima preferida \u00e9 o partic\u00edpio. Em vez do &#8220;tenho trazido&#8221;, aparece o &#8220;tenho trago&#8221;. Como na l\u00edngua impera a lei do menor esfor\u00e7o, a pr\u00e1tica ganhou adeptos.<br \/>\n<BR>A ades\u00e3o cresce como fogo morro acima e \u00e1gua morro abaixo. Os p\u00e9s ganharam asas. O tal &#8220;tenho trago&#8221; chegou \u00e0s escolas. Professores aqui e ali embarcaram na canoa furada e ensinam \u00e0 crian\u00e7ada a forma pregui\u00e7osa. &#8220;Valha-nos, Deus&#8221;, exclamam os pais. Com raz\u00e3o. Na boca dos mestres, o horror ganha legitimidade. Acende-se a luz vermelha.<br \/>\n<BR>&nbsp;<BR><STRONG>Dois em um<\/STRONG><br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<br \/>\nTrago joga em dois times. Um \u00e9 trazer. O outro, tragar. Em ambos \u00e9 a 1\u00aa pessoa do singular do presente do indicativo: eu trago, ele traz, n\u00f3s trazemos, eles trazem; eu trago, ele traga, n\u00f3s tragamos, eles tragam.<br \/>\n<BR>A mesma forma para dois verbos \u00e0s vezes provoca mal-entendidos. \u00c9 o caso do patr\u00e3o que n\u00e3o comprava cigarro, mas filava todos os dias um cigarrinho de manh\u00e3, outro depois do almo\u00e7o, outro na sa\u00edda do trabalho. O empregado, com dor no bolso, decidiu dar um jeito no abuso. Travou-se ent\u00e3o entre ele e o mandachuva di\u00e1logo pra l\u00e1 de divertido:<br \/>\n<BR>\u2014 O senhor fuma muito, n\u00e3o?<br \/>\n<BR>\u2014 Fumo, mas n\u00e3o trago.<br \/>\n<BR>\u2014 Pois devia trazer.<br \/>\n<BR>Viu? A gra\u00e7a da conversa reside no duplo sentido do trago. O patr\u00e3o se referia ao verbo tragar. O empregado, ao trazer. N\u00f3s, que conhecemos os dois lados da hist\u00f3ria, entendemos o jogo. Rimos das possibilidades da l\u00edngua.<br \/>\n<BR>&nbsp;<BR><STRONG>Vez do trago<\/STRONG><br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<STRONG><br \/>\n<BR><\/STRONG>Guarde isto: trago adora a solid\u00e3o. Intolerante, n\u00e3o aceita a companhia de nenhum verbo. Aparece sempre, sempre mesmo, sozinho da silva: Em dias de instabilidade, trago o guarda-chuva na bolsa. Trago pouco dinheiro no bolso, mas carrego cart\u00e3o e cheques. Fumo, mas n\u00e3o trago.<br \/>\n<BR>&nbsp;<BR><STRONG>Vez do trazido<\/STRONG><br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<br \/>\nO partic\u00edpio dos dois verbos n\u00e3o tem nada a ver com o presente. O de tragar \u00e9 tragado. O de trazer, trazido. Ambos se usam na voz passiva e nos tempos compostos. A\u00ed, o verbo aparece casadinho com os auxiliares ser, estar, ter e haver: A fuma\u00e7a \u00e9 tragada pelo fumante. A fuma\u00e7a est\u00e1 tragada. Ele tem trazido merenda para o lanche. Paulo havia trazido o agasalho. Por isso n\u00e3o passou frio.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nMoral da hist\u00f3ria: como diz o outro, \u00e9 l\u00e9 com l\u00e9, cr\u00e9 com cr\u00e9. Cada macaco no seu p\u00e9.<BR>&nbsp;<BR><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Que confus\u00e3o! Trago e trazido t\u00eam dado n\u00f3 no miolo de pais e alunos. A raz\u00e3o \u00e9 simples. Por alguma raz\u00e3o que nem Deus explica, a mo\u00e7ada decidiu fazer economia de s\u00edlabas. 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