{"id":2520,"date":"2008-09-18T10:00:00","date_gmt":"2008-09-18T13:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/machismo_linguistico\/"},"modified":"2008-09-18T10:00:00","modified_gmt":"2008-09-18T13:00:00","slug":"machismo_linguistico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/machismo_linguistico\/","title":{"rendered":"Machismo ling\u00fc\u00edstico"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nJos\u00e9 Sarney lan\u00e7ou a moda. &#8220;Brasileiras e brasileiros&#8221;, saudava ele. Homens e mulheres acharam a novidade simp\u00e1tica. O SBT aproveitou a onda. P\u00f4s no ar a novela com o mesmo bord\u00e3o.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nA partir da\u00ed, distinguir o g\u00eanero deixou de ser gesto de simpatia. Virou obriga\u00e7\u00e3o. &#8220;Meus amigos e minhas amigas&#8221;, diz Fernando Henrique. &#8220;Senhores deputados e senhoras deputadas&#8221;, cumprimenta A\u00e9cio Neves. &#8220;Caros senadores e caras senadoras&#8221;, brada o orador da tribuna.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nDe obriga\u00e7\u00e3o, passou a obsess\u00e3o. Hoje, n\u00e3o faltam situa\u00e7\u00f5es como estas: &#8220;Convidamos os presentes e as presentes a se levantarem&#8221;. &#8220;Os estudantes e as estudantes devem usar uniforme.&#8221; &#8220;Os debatedores e as debatedoras chegar\u00e3o ao meio-dia.&#8221;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nNos convites, todo o cuidado \u00e9 pouco. A consagrada f\u00f3rmula &#8220;senhor e senhora Paulo Silva&#8221; provoca o furor delas. Melhor optar por &#8220;senhor Paulo Silva e senhora Maria Silva&#8221;.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nRea\u00e7\u00f5es ao exagero n\u00e3o faltam. Mill\u00f4r Fernandes dirige-se \u00e0s &#8220;pessoas e pess\u00f4os&#8221;. Ver\u00edssimo fala em &#8220;povo e pova&#8221;. O leitor \u00c1lvaro Lima teme que cheguemos ao absurdo de distinguir &#8220;humanidade e mulheridade&#8221; e &#8220;seres humano e mulherano&#8221;.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u00c9 ele quem pergunta:<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 O uso dos dois g\u00eaneros n\u00e3o \u00e9 um complicador? Est\u00e1 certo que a l\u00edngua \u00e9 viva. Mas isso cheira a Odorico Paragua\u00e7u. <STRONG><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nFeminismo<\/STRONG><B> <\/B><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nTudo come\u00e7ou com o movimento feminista. Nos anos sessenta, as mulheres foram \u00e0 luta. Queriam os mesmos direitos dos homens. Abusaram dos trajes masculinos. Desfilaram barrigas gr\u00e1vidas. Queimaram suti\u00e3s em pra\u00e7a p\u00fablica. E chegaram l\u00e1. Conquistaram a universidade e o mercado de trabalho. Sentaram-se no Parlamento. Vestiram togas. Engrossaram as fileiras das For\u00e7as Armadas.<STRONG><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nQuero mais<\/STRONG><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nInsatisfeitas, partiram pra outra. O novo alvo foi a l\u00edngua. &#8220;O portugu\u00eas \u00e9 machista&#8221;, decretaram elas. Ao englobar os g\u00eaneros, a palavra fica no masculino plural. &#8220;Meus filhos&#8221; inclui os filhos e as filhas. &#8220;Os devedores&#8221; abarca as devedoras e os devedores. &#8220;Os senadores&#8221; p\u00f5e senadores e senadoras no mesmo saco.<STRONG><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nTempos modernos<\/STRONG><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nA luta pelo g\u00eanero se imp\u00f4s. Hoje, distinguir o masculino e o feminino n\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de corre\u00e7\u00e3o gramatical. &#8220;Brasileiros&#8221; refere-se a homens e mulheres nascidos nesta alegre Pindorama. Gramaticalmente recebe nota 10. Mas escorrega politicamente. A raz\u00e3o \u00e9 simples. Esconde a mulher. Deixa-a sem espa\u00e7o.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nNo discurso, a modernidade recomenda usar o masculino e o feminino. Dando visibilidade a ele e a ela, marca-se, na fala, a igualdade dos dois g\u00eaneros. No fundo, \u00e9 quest\u00e3o de poder. Quem pode aparece.<STRONG><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nProblema seu<\/STRONG><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nE da\u00ed? Voc\u00ea decide. Se quiser entrar na guerra contra elas, esque\u00e7a o politicamente correto. Mas prepare-se. Voltar \u00e0s boas leva tempo. Valem as palavras de Bertold Brechet: &#8220;A paz n\u00e3o \u00e9 s\u00f5 melhor que a guerra. \u00c9 muito mais trabalhosa&#8221;.<STRONG><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nNada mais que a verdade<\/STRONG><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nA l\u00edngua \u00e9 machista? Nada mais injusto. A coitada nem marca o masculino. O <B>o<\/B> n\u00e3o caracteriza o sexo forte. \u00c9 a vogal tem\u00e1tica da palavra. Op\u00f5e-se ao <B>a<\/B>. O <B>a<\/B>, sim, denuncia o feminino. O mesmo ocorre com professor, mestre &amp; Cia. Eles pertencem ao g\u00eanero masculino porque se op\u00f5em \u00e0s formas professora e mestra.<STRONG><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nA diferen\u00e7a<\/STRONG><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nA oposi\u00e7\u00e3o masculino x feminino faz a diferen\u00e7a. \u00c9 o caso de menino, menina; vendedor, vendedora; presidente, presidenta. Sem oposi\u00e7\u00e3o, convoca-se o artigo. O pequenino definir\u00e1 o g\u00eanero da palavra: o estudante, a estudante; o comerciante, a comerciante; o assaltante, a assaltante.<STRONG><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nEmpate<\/STRONG><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nQuando o artigo \u00e9 o mesmo, s\u00f3 h\u00e1 uma sa\u00edda. Recorrer ao contexto. Valem os exemplos de crian\u00e7a, v\u00edtima e c\u00f4njuge. Como saber se se referem a mulher ou homem? S\u00f3 analisando a frase em que aparecem:<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n* <I>Maria tem tr\u00eas anos. Aproveitando o descuido da bab\u00e1, correu pra rua. O motorista do caminh\u00e3o n\u00e3o viu a crian\u00e7a. Atropelou-a.<br \/>\n* Os bombeiros contaram quinze v\u00edtimas: seis mulheres e nove homens.<\/I><STRONG><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nMoral da hist\u00f3ria<\/STRONG><br \/>\n<A name=\"Save1\"><\/A>&nbsp;<br \/>\nMachista? Nem pensar. A l\u00edngua n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed pro masculino. S\u00f3 marca o feminino. Ceguinha, a mulher ignora o privil\u00e9gio. Azar dela!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Jos\u00e9 Sarney lan\u00e7ou a moda. &#8220;Brasileiras e brasileiros&#8221;, saudava ele. Homens e mulheres acharam a novidade simp\u00e1tica. O SBT aproveitou a onda. P\u00f4s no ar a novela com o mesmo bord\u00e3o. &nbsp; A partir da\u00ed, distinguir o g\u00eanero deixou de ser gesto de simpatia. 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