{"id":2536,"date":"2008-09-21T07:00:00","date_gmt":"2008-09-21T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/alergia_a_gente\/"},"modified":"2008-09-21T07:00:00","modified_gmt":"2008-09-21T10:00:00","slug":"alergia_a_gente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/alergia_a_gente\/","title":{"rendered":"Alergia a gente"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nOps! As chuvas chegaram. Com elas, h\u00e1 cidades que sofrem. Ruas se alagam, morros despencam, multid\u00f5es ficam desabrigadas. H\u00e1, tamb\u00e9m, cidades que festejam. \u00c9 o caso de Bras\u00edlia. Depois de seca impiedosa, a \u00e1gua que cai do c\u00e9u \u00e9 pra l\u00e1 de bem-vinda. A grama renasce, as flores explodem, os moradores festejam. Mas num ponto as duas pontas se encontram. Trata-se do s verbos que indicam fen\u00f4menos da natureza. Entre eles, chover, ventar, nevar, trovejar, amanhecer, entardecer, anoitecer &amp; cia.<br \/>\n<BR>Os senhores do tempo t\u00eam uma marca. Al\u00e9rgicos a gente, s\u00e3o impessoais. Sem sujeito, s\u00f3 se conjugam na 3\u00aa pessoa do singular. Exemplos existem pra dar e vender: Na quarta, choveu em Bras\u00edlia. Raramente neva no Brasil. Que medo! Trovejou a noite inteira. Nesta \u00e9poca do ano, amanhece cedo na maior parte do pa\u00eds. Talvez vente menos nesta primavera.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<BR><STRONG>Mudan\u00e7a de papel<\/STRONG><br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<br \/>\n<STRONG>&nbsp;<br \/>\n<BR><\/STRONG>Os verbos, como as pessoas, detestam a monotonia. Pra fugir do sempre igual, inventam modas. Uma delas: mudar de papel. Impessoais se tornam pessoais; pessoais, impessoais. Como? Os primeiros arranjam sujeito. Os segundos, passam pro time dos indicadores de tempo.<br \/>\n<BR>Pra tornar-se pessoais, os intolerantes perdem o sentido literal e assumem o figurado. Assim ganham licen\u00e7as po\u00e9ticas e superpoderes. Quer ver? Choveram aplausos depois da apresenta\u00e7\u00e3o dos atletas paraol\u00edmpicos. Os mandachuvas trovejaram desaforos ao verem as instala\u00e7\u00f5es danificadas. Amanhecemos alegres. Anoiteceram no aeroporto \u00e0 espera do avi\u00e3o que n\u00e3o vinha. A vida entardece sem que a pessoa se d\u00ea conta.<br \/>\n<BR>&nbsp;<BR><STRONG>Caminho inverso<\/STRONG><br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<br \/>\nSer, estar, fazer s\u00e3o normalmente pessoais. Conjugam-se em todas as pessoas sem discrimina\u00e7\u00e3o (eu sou, ele \u00e9, n\u00f3s somos, eles s\u00e3o; eu estou, ele est\u00e1, n\u00f3s estamos, eles est\u00e3o; eu fiz, ele fez, n\u00f3s fizemos, eles fizeram). Mas, volta e meia, mudam de time. Viram impessoais. Em express\u00f5es de tempo, s\u00f3 se flexionam na 3\u00aa pessoa do singular: \u00c9 tarde. \u00c9 cedo. Era uma tarde de abril. Era ao cair do dia. Era a hora do repouso. Est\u00e1 tarde. Faz frio. Faz calor. <BR>&nbsp;<BR><br \/>\n<STRONG>Refor\u00e7os<\/STRONG><br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<br \/>\nFazer figura no time dos impessoais em outro emprego. Junto com o haver, mant\u00e9m-se na 3\u00aa pessoa do singular ao indicar contagem de tempo: Faz cinco anos que moro em Bras\u00edlia. A chuva come\u00e7ou a cair em Bel\u00f4, h\u00e1 uma semana. Fazia quatro anos que trabalhava na empresa quando pediu demiss\u00e3o. Ao ser descoberto, fazia cinco anos que morava em S\u00e3o Paulo. Cheguei h\u00e1 pouco. Viajou faz pouco. <BR>&nbsp;<br \/>\n<BR><STRONG>Vem comigo<\/STRONG><br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<br \/>\nOs impessoais, al\u00e9m de intolerantes, s\u00e3o exigentes. Estendem a impessoalidade aos auxiliares. &#8220;Quer andar comigo?&#8221;, perguntam. &#8220;Seja igual a mim. Mantenha-se na 3\u00aa pessoa do singular.&#8221; Assim: Faz cinco anos que cheguei a Bras\u00edlia. Deve fazer cinco anos que cheguei a Bras\u00edlia. Vai fazer cinco anos que cheguei a Bras\u00edlia.&nbsp;<br \/>\n<BR>&nbsp;<BR><STRONG>Redund\u00e2ncias<\/STRONG><br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<br \/>\nO haver \u00e9 pra l\u00e1 de p\u00e3o-duro. N\u00e3o suporta desperd\u00edcio. N\u00e3o \u00e9 outra a raz\u00e3o por que rejeita a preposi\u00e7\u00e3o atr\u00e1s. &#8220;H\u00e1 duas horas atr\u00e1s&#8221;? Nem pensar. H\u00e1 indica passado. Atr\u00e1s, tamb\u00e9m. Usar os dois na mesma frase maltrata o bolso e a l\u00edngua. Melhor recorrer a um de cada vez: Encontrei Z\u00e9lia Duncan h\u00e1 duas horas. Encontrei Z\u00e9lia Duncan duas horas atr\u00e1s. <BR>&nbsp;<BR><br \/>\n<STRONG>Por falar em haver\u2026<\/STRONG><br \/>\n<BR>Reaver tem toda a pinta de derivado de ver. Mas n\u00e3o \u00e9. Voc\u00ea sabe quem \u00e9 o pai dele? Acredite. Reaver \u00e9 filhote de haver. Significa haver de novo, recuperar: A casa de Maria foi assaltada. Os ladr\u00f5es levaram d\u00f3lares e j\u00f3ias. A pol\u00edcias os prendeu. Mas n\u00e3o conseguiu reaver nada.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nReaver tem um grande defeito. N\u00e3o se conjuga em todos os tempos e modos. Com ele, s\u00f3 t\u00eam vez as formas em que aparece o <STRONG>v<\/STRONG>, de ha<STRONG>v<\/STRONG>er. No presente do indicativo, por exemplo, apenas o n\u00f3s e o v\u00f3s ganham passagem: n\u00f3s reavemos, v\u00f3s reaveis.<br \/>\n<BR>O indolente n\u00e3o tem o presente do subjuntivo. Mas exibe todas as pessoas do passado e do futuro: reouve, reouvemos, reouveram; reavia, reavias, reav\u00edamos; reaverei, reaver\u00e3o; reaveria, reaverias, reaver\u00edamos, reaveriam; reouver, reouveres, reouvermos; reouvesse, reouv\u00e9ssemos. E por a\u00ed vai.<br \/>\n<BR>Eis exemplos do emprego do verbo pregui\u00e7oso: O pai reouve a confian\u00e7a do filho. Sempre que poss\u00edvel, ele reavia o dinheiro perdido no jogo. Ainda reaverei os pontinhos que perdi na prova. Quando reouver as j\u00f3ias, Maria vai vend\u00ea-las. Se eu reouvesse minha heran\u00e7a, faria longa viagem pelos cinco continentes. Adeus, monotonia!<br \/>\n<BR>Cuidado com as tenta\u00e7\u00f5es. Reav\u00ea, reaviu, reaveja n\u00e3o existem. Seriam derivados de ver. E reaver vem de haver. Mas n\u00e3o se sinta desamparado. Eles n\u00e3o fazem falta. Recuperar ou recobrar os substituem numa boa.<BR><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Ops! As chuvas chegaram. Com elas, h\u00e1 cidades que sofrem. Ruas se alagam, morros despencam, multid\u00f5es ficam desabrigadas. H\u00e1, tamb\u00e9m, cidades que festejam. \u00c9 o caso de Bras\u00edlia. Depois de seca impiedosa, a \u00e1gua que cai do c\u00e9u \u00e9 pra l\u00e1 de bem-vinda. A grama renasce, as flores explodem, os moradores festejam. Mas num ponto as duas pontas se encontram. 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