{"id":2833,"date":"2008-11-02T00:00:00","date_gmt":"2008-11-02T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/nao_me_engana_que_eu_nao_gosto\/"},"modified":"2008-11-02T00:00:00","modified_gmt":"2008-11-02T02:00:00","slug":"nao_me_engana_que_eu_nao_gosto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/nao_me_engana_que_eu_nao_gosto\/","title":{"rendered":"N\u00e3o me engana, que eu n\u00e3o gosto"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nS\u00edsifo era pra l\u00e1 de esperto. S\u00f3 queria se sair bem. Paquerava a namorada dos amigos. Contava os segredos dos companheiros. Gozava do pai. Mentia pra m\u00e3e. Trapaceava a mulher. Nem a morte escapou. Ao descobrir que ia partir, achou m\u00e1 id\u00e9ia. Como se safar? S\u00f3 havia uma sa\u00edda: passar a morte pra tr\u00e1s. Quando ela bateu \u00e0 porta, o sabido a recebeu muito bem. Conversou, riu, contou piadas. A visitante se distraiu. N\u00e3o deu outra. Ele a prendeu com cadeado e tudo. Ela ficou presa um temp\u00e3o.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<BR>Num descuido do seq\u00fcestrador, a ref\u00e9m escapou. Partiu pro trabalho. Precisava levar muita gente pra recuperar o tempo perdido. S\u00edsifo foi o primeiro. Quando chegou ao outro mundo, disse aos deuses que tinha esquecido uma coisa muito importante na Terra. Pediu pra voltar um instantinho s\u00f3. Eles o deixaram. Ao chegar aqui, o astucioso se esqueceu da promessa. N\u00e3o voltou. Muitos anos depois, tornou a morrer. A\u00ed, recebeu um castigo \u2014 levar um baita bloco de pedra at\u00e9 o alto da montanha. Mas a pedra n\u00e3o p\u00e1ra. Quando ele chega l\u00e1, a pedra rola. Ele volta a lev\u00e1-la pro alto. Ela torna a rolar. O coitado faz isso at\u00e9 hoje. \u00c9 o mart\u00edrio de S\u00edsifo. <BR>&nbsp;<BR><br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<br \/>\n<STRONG>Me engana, que eu gosto<\/STRONG><br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<br \/>\nDois de novembro \u00e9 data pra l\u00e1 de especial. Nesse dia, lembramos os que foram na frente. N\u00e3o lhes damos o nome de mortos. Falamos em finados, filhote de fim. A raz\u00e3o? Morremos de medo da palavra que lembra dor, perda, sofrimento. L\u00e1 no fundo, acreditamos que proferir o voc\u00e1bulo atrai o mal. Apelamos, ent\u00e3o para eufemismos. Ado\u00e7amos o termo.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<BR>Pra n\u00e3o pronunciar as cinco letras, recorremos a sin\u00f4nimos brandos. Manuel Bandeira chamou-a de &#8220;a indesejada das gentes&#8221;. Outros dizem passamento, falecimento, viagem, ida para a companhia do Senhor, passagem desta para melhor, espichar a canela, vestir palet\u00f3 de madeira, bater as botas. E por a\u00ed vai. Vale tudo pra bancar o S\u00edsifo.<BR>&nbsp;<BR><br \/>\n<STRONG>Por falar em Bandeira\u2026<\/STRONG><br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<br \/>\nO eufemismo &#8220;indesejada das gentes&#8221; aparece no poema &#8220;Consoada&#8221;. Conhece? Ei-lo:&nbsp;<BR>&nbsp;<BR><br \/>\nQuando a indesejada das gentes chegar <BR>(N\u00e3o sei se dura ou caro\u00e1vel), <BR>Talvez eu tenha medo. <BR>Talvez sorria, ou diga: <BR>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<br \/>\n&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u2014 Al\u00f4, inilud\u00edvel!<br \/>\n<BR>O meu dia foi bom, pode a noite descer. <BR>(A noite com os seus sortil\u00e9gios.) <BR>Encontrar\u00e1 lavrado o campo, a casa limpa, <BR>A mesa posta, <BR>Com cada coisa em seu lugar. <BR>&nbsp;<BR><br \/>\n<STRONG>Variedade<\/STRONG><br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<br \/>\nAlguns dizem funeral. Outros, sepultamento. Muitos preferem ex\u00e9quias. Os sofisticados precisam respeitar a excentricidade da palavra. Ex\u00e9quias joga no time de p\u00easames. Ambas s\u00f3 se usam no plural. Artigos, adjetivos, pronomes e verbos a elas relacionados v\u00e3o atr\u00e1s: Apresentei meus p\u00easames \u00e0 fam\u00edlia. As ex\u00e9quias se finalizar\u00e3o \u00e0s 17h.<BR>&nbsp;<BR><br \/>\n<STRONG>Li\u00e7\u00e3o de estilo<\/STRONG><br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<br \/>\n&#8220;Entre duas palavras&#8221;, ensina Paul Val\u00e9ry, &#8220;escolha sempre a mais simples; entre duas palavras simples, escolha a mais curta.&#8221; A raz\u00e3o: voc\u00e1bulos simples e curtos ajudam a luta pela naturalidade da fala e da escrita. Falecer ou morrer? Morrer. \u00d3bito ou morte? Morte. F\u00e9retro ou caix\u00e3o? Caix\u00e3o.<BR>&nbsp;<BR><br \/>\n<STRONG>Morto ou morrido?<\/STRONG><br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<br \/>\nMorrer e matar t\u00eam dois partic\u00edpios. Um regular \u2014 comum, igual ao dos verbos da mesma conjuga\u00e7\u00e3o: morrido e matado. Outro irregular \u2014 diferente, magrinho, reduzido: morto. Quando usar um e outro?<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nUse o partic\u00edpio regular com os verbos ter e haver e o irregular com ser e estar: A pol\u00edcia tinha (havia) matado o ladr\u00e3o antes de prend\u00ea-lo. O ladr\u00e3o foi morto antes de ser preso. Quando chegou ao hospital, Elo\u00e1 ainda n\u00e3o tinha (havia) morrido. Dias depois, estava morta. Mas os \u00f3rg\u00e3os sobrevivem. Cora\u00e7\u00e3o, pulm\u00f5es, p\u00e2ncreas, f\u00edgado, c\u00f3rneas salvaram vidas e devolveram a alegria a pessoas que aguardavam um milagre. <BR>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; S\u00edsifo era pra l\u00e1 de esperto. S\u00f3 queria se sair bem. Paquerava a namorada dos amigos. Contava os segredos dos companheiros. Gozava do pai. Mentia pra m\u00e3e. Trapaceava a mulher. Nem a morte escapou. Ao descobrir que ia partir, achou m\u00e1 id\u00e9ia. Como se safar? 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