{"id":2894,"date":"2008-11-14T00:00:00","date_gmt":"2008-11-14T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/lusofonia_sem_demofilia\/"},"modified":"2008-11-14T00:00:00","modified_gmt":"2008-11-14T02:00:00","slug":"lusofonia_sem_demofilia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/lusofonia_sem_demofilia\/","title":{"rendered":"Lusofonia sem demofilia"},"content":{"rendered":"<p><B> &nbsp; &nbsp; Jorge Antunes<\/B> &nbsp; &nbsp; Compositor, maestro, professor titular da UnB  &nbsp; Est\u00e1 faltando um olhar sobre a comunidade dos povos de l\u00edngua portuguesa. Existe uma mobiliza\u00e7\u00e3o canhestra, bitolada, discriminat\u00f3ria e totalmente carente de demofilia, que tenta congregar pa\u00edses lus\u00f3fonos e que n\u00e3o busca agregar todos os povos lus\u00f3fonos. &nbsp; Uma iniciativa voltada \u00e0 integra\u00e7\u00e3o cultural de todos os povos lus\u00f3fonos foi implementada em Bras\u00edlia h\u00e1 9 anos. A Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional de Bras\u00edlia esteve apinhada de gente na noite de 19 de abril de 1999. A superlota\u00e7\u00e3o do Teatro se justificava: o concerto marcava a abertura do ano de festejos dos 500 anos do Brasil. Sob encomenda do Decanato de Extens\u00e3o da Universidade de Bras\u00edlia, escrevi a composi\u00e7\u00e3o musical Cantata dos Dez Povos. Era uma obra monumental, com 64 minutos de dura\u00e7\u00e3o. O palco tamb\u00e9m estava apinhado de gente: a Orquestra do Teatro com 80 m\u00fasicos, 150 cantores do Coro L\u00edrico da Escola de M\u00fasica e do Madrigal de Bras\u00edlia, quatro cantores solistas e onze declamadores. &nbsp; Verificamos aus\u00eancias inesperadas na plat\u00e9ia. Nenhum representante das Embaixadas dos sete pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa havia comparecido. Sim, eram sete as na\u00e7\u00f5es lus\u00f3fonas. Timor Leste ainda n\u00e3o era um pa\u00eds. O mist\u00e9rio acerca das surpreendentes aus\u00eancias s\u00f3 seria desvendado alguns dias depois. &nbsp; Era muito dif\u00edcil para mim homenagear o chamado &#8220;descobrimento do Brasil&#8221;, por estar convencido de que o Brasil n\u00e3o fora descoberto. Ele havia sido invadido h\u00e1 500 anos. N\u00e3o havia acontecido um descobrimento. Em realidade foi um encobrimento que iniciou-se por estas bandas em 1500: um verdadeiro encobrimento cultural. &nbsp; Optei, ent\u00e3o, por homenagear a l\u00edngua portuguesa, importante elo de uni\u00e3o entre os dez diferentes povos que se originaram da bela saga portuguesa da \u00e9poca das grandes navega\u00e7\u00f5es. Assim, utilizei textos de escritores de Portugal, Brasil, Macau, Goa, Guin\u00e9-Bissau, Cabo Verde, S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe, Mo\u00e7ambique, Angola e Timor Leste. &nbsp; A UnB contava com estudantes africanos bolsistas, origin\u00e1rios dos pa\u00edses lus\u00f3fonos. Assim, os poemas de Agostinho Neto, Xanana Gusm\u00e3o, Camilo Pessanha, Vasco Cabral, Marcelo da Veiga, Fernando Pessoa, e tantos outros, puderam ser ditos com vozes e inflex\u00f5es enriquecidas pelos sotaques originais. &nbsp; Sob o ponto de vista est\u00e9tico a nova obra marcava a consolida\u00e7\u00e3o de uma nova linguagem musical, com melodias e harmonias sendo emolduradas por sonoridades contempor\u00e2neas. A aud\u00e1cia pluriestil\u00edstica pretendia representar o entrela\u00e7amento fraterno que haveria de, no futuro, ser constru\u00eddo pela grande comunidade lus\u00f3fona espalhada nos quatro cantos do mundo. &nbsp; Para embelezar a festa de confraterniza\u00e7\u00e3o, eu e um representante do Decanato de Extens\u00e3o da UnB hav\u00edamos feito, meses antes, uma peregrina\u00e7\u00e3o pelas Embaixadas dos sete pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa. Estava, aparentemente, garantida a presen\u00e7a, representativa e oficial, das na\u00e7\u00f5es amigas e irm\u00e3s. &nbsp; Um vazamento de informa\u00e7\u00e3o veio, uma semana depois, esclarecer o mist\u00e9rio da aus\u00eancia coletiva das representa\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas: o concerto n\u00e3o homegeava apenas os pa\u00edses lus\u00f3fonos. As autoridades haviam se sentido desconfort\u00e1veis, porque o concerto homenageava tamb\u00e9m tr\u00eas povos que n\u00e3o se constitu\u00edam como pa\u00edses: Timor Leste, Goa e Macau. &nbsp; Os governos brasileiro e portugu\u00eas precisam urgentemente atentar para este problema. A l\u00edngua portuguesa corre o risco de morrer \u00e0 m\u00edng\u00fca em Macau e em Goa. Foi a cidade chinesa de Macau que viu nascer os mais belos poemas de Camilo Pessanha. O poeta, em suas incurs\u00f5es simbolistas, soube desenvolver, gra\u00e7as \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o aditivada de \u00f3pio chin\u00eas, uma intensa musicalidade verbal que hoje \u00e9 uma honra para o nosso idioma. O portugu\u00eas \u00e9, ainda hoje, a l\u00edngua oficial de Macau. Mas a total aus\u00eancia de estrat\u00e9gias e o desinteresse dos Estados lus\u00f3fonos decretar\u00e3o, se nada for feito, a extin\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas naquela cidade chinesa.  &nbsp; A omiss\u00e3o brasileira e o desinteresse portugu\u00eas fazem com que o mesmo fen\u00f4meno possa vir a acontecer nos territ\u00f3rios da \u00cdndia portuguesa, em que \u00e9 praticada nossa l\u00edngua: Goa, Mam\u00e3o, Diu, Dadr\u00e1 e Nagar-Aveli. Para que a l\u00edngua portuguesa possa continuar com os seus mais de 215 milh\u00f5es de falantes nativos, e que continue a ser a quinta l\u00edngua mais falada no mundo, \u00e9 preciso que nossas autoridades abandonem a pol\u00edtica de aproxima\u00e7\u00e3o de paises lus\u00f3fonos, para adotar a pol\u00edtica de aproxima\u00e7\u00e3o de povos lus\u00f3fonos. Ideal seria que a primeira letra P da sigla CPLP deixasse de significar a palavra pa\u00edses e desse lugar \u00e0 palavra povos.   &nbsp; (Artigo publicado na editoria de Opini\u00e3o do Correio Braziliense)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Jorge Antunes &nbsp; &nbsp; Compositor, maestro, professor titular da UnB &nbsp; Est\u00e1 faltando um olhar sobre a comunidade dos povos de l\u00edngua portuguesa. 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