{"id":2949,"date":"2008-11-26T00:00:00","date_gmt":"2008-11-26T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/aguas_de_novembro\/"},"modified":"2008-11-26T00:00:00","modified_gmt":"2008-11-26T02:00:00","slug":"aguas_de_novembro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/aguas_de_novembro\/","title":{"rendered":"\u00c1guas de novembro"},"content":{"rendered":"<p><b style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p><\/b> <\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o as \u00e1guas de mar\u00e7o fechando o ver\u00e3o&#8221;, canta Tom Jobim. As    de novembro deveriam trazer a esta\u00e7\u00e3o do calor, do bronzeado, dos biqu\u00ednis    charmosos. Mas este ano vieram com mau humor. Em Santa Catarina choveu tr\u00eas    vezes mais que o normal. As imagens exibidas pela tev\u00ea assustam. Morros    desmoronam. Barreiras caem. Estradas se fecham. Casas se afogam. Bairros se    transformam em rios. Vidas se perdem. Nada menos que 45 mil pessoas perambulam    sem teto.    <\/p>\n<p>Jornais, r\u00e1dios e tev\u00eas s\u00f3 falam na trag\u00e9dia. As    not\u00edcias ruins trazem tr\u00eas verbos \u00e0 tona. Um deles: ruir. Outro: chover. O    \u00faltimo: assistir. O trio tem manhas. Algumas atingem a conjuga\u00e7\u00e3o. Outras, a    reg\u00eancia. H\u00e1 as que batem \u00e0 porta da grafia. Conhec\u00ea-las pega bem. Ao    empreg\u00e1-las como manda a norma culta, o rep\u00f3rter demonstra dom\u00ednio da l\u00edngua    e, de quebra, d\u00e1 a not\u00edcia correta. Em suma: homenageia o leitor e o ouvinte.    <b style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">   &nbsp;    <\/p>\n<p>O indesejado<\/b>    <\/p>\n<p>Ningu\u00e9m o ama. Ningu\u00e9m o quer. Com raz\u00e3o. Ele faz    estragos, destr\u00f3i bens, mata gente. Al\u00e9m disso, d\u00e1 trabalho na conjuga\u00e7\u00e3o.    Trata-se do verbo ruir. O diss\u00edlabo n\u00e3o tem todas as pessoas, tempos e modos.    &#8220;Casas roem&#8221;? Nem pensar. Ruir s\u00f3 se flexiona nas formas em que ao <b>u<\/b> se    seguir <b>e<\/b> ou <b>i <\/b>\u2014 <i>rui, ruem, ruiu, ruir\u00e1, ruiria<\/i>. Em &#8220;casas    roem&#8221; at\u00e9 o <b>u<\/b> desaparece. X\u00f4! <b style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">   &nbsp;    <\/p>\n<p>Chover &amp; cia.<\/b>    <\/p>\n<p>Chover joga no time de ventar, trovejar,    nevar, amanhecer, anoitecer. Por indicarem fen\u00f4menos da natureza, eles s\u00f3 se    conjugam na 3\u00b2 pessoa do singular: <i>Chove sem parar. Ventou muito ontem \u00e0    noite. Amanhece cedo no ver\u00e3o. Sempre troveja quando chove?    <\/i>    <\/p>\n<p>A l\u00edngua detesta monotonia. Por isso recorre    ao sentido figurado. A\u00ed chover &amp; cia. entram na vala comum. Concordam com    o sujeito em pessoa e n\u00famero: <i>Choveram aplausos depois da apresenta\u00e7\u00e3o. Os    moradores trovejaram improp\u00e9rios contra os ladr\u00f5es. Amanheci alegre. Os    turistas anoiteceram na praia.<\/i><b style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">   &nbsp;    <\/p>\n<p>Olha a ajuda<\/b>    <\/p>\n<p>Nas trag\u00e9dias clim\u00e1tico-ambientais, falta    tudo. Falta teto, falta agasalho, falta cobertor, falta colch\u00e3o, falta luz,    falta \u00e1gua, falta comida, falta rem\u00e9dio. Mas n\u00e3o falta solidariedade.    Volunt\u00e1rios ajudam. Homens, mulheres e crian\u00e7as dividem o que t\u00eam. ONGs    recolhem doa\u00e7\u00f5es. O governo, claro, faz a sua parte. Conjuga o verbo assistir.    Flexiona-o na reg\u00eancia direta. Sem preposi\u00e7\u00e3o, assistir significa prestar    assist\u00eancia: <i>O governador assiste os flagelados com m\u00e9dicos, enfermeiros e    alimentos. Professores assistem crian\u00e7as com dificuldade de aprendizagem. Quem    assiste os menores de rua?<\/i><b style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">    <\/p>\n<p>No lugar de outro<\/b>    <\/p>\n<p>A l\u00edngua adora eleg\u00e2ncia. Por isso foge da    repeti\u00e7\u00e3o. Os pronomes prestam grande ajuda na tarefa est\u00e9tica. Um deles \u00e9 o    pronome \u00e1tono <i>o, a<\/i>. Ele substitui o objeto direto. Transitivo direto,    volta e meia assistir lan\u00e7a m\u00e3o do recurso que torna o texto mais    \u00e1gil e mais bonito. Observe a transforma\u00e7\u00e3o: <i style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">    <\/p>\n<p>Santa Catarina tem 45 mil desabrigados. O governo    assiste os 45 mil desabrigados com rem\u00e9dios, comida e \u00e1gua    pot\u00e1vel.<\/i>    <\/p>\n<p>A repeti\u00e7\u00e3o de &#8220;45 mil desabrigados&#8221; torna o texto    mon\u00f3tono<i>. <\/i>Pior: autoriza infer\u00eancias negativas a respeito do autor. Das    duas, uma. Uma: ele desconhece os recursos da l\u00edngua. A outra: se os conhece e    n\u00e3o os usa, \u00e9 pregui\u00e7oso. Valha-nos, Deus. Vem, pequenino: <i style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">    <\/p>\n<p>Santa Catarina tem 45 mil desabrigados. O governo    <b>os<\/b> assiste com rem\u00e9dios, comida e \u00e1gua pot\u00e1vel.<\/i><b style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">   &nbsp;    <\/p>\n<p>Sem confus\u00e3o<\/b>    <\/p>\n<p>Em vestibular e concursos, n\u00e3o basta se sair    bem. \u00c9 importante sair-se melhor que os outros.&nbsp;Na guerra por mil\u00e9simos, qualquer pontinho faz    a diferen\u00e7a.&nbsp;O verbo assistir pode    dar uma boa m\u00e3ozinha. Ele tem uma cara e dois significados principais. Um:    prestar assist\u00eancia. O outro: presenciar. Na norma culta, a \u00faltima    acep\u00e7\u00e3o tem um capricho: n\u00e3o aceita o    pronome <i>lhe<\/i> como objeto indireto. D\u00e1 a vez a <i>a ele, a ela<\/i>:    <i>Enchentes como as que castigam Santa Catarina s\u00e3o in\u00e9ditas no estado. Assistimos a elas com pena,    tristeza e preocupa\u00e7\u00e3o. <\/i>   &nbsp;    <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;S\u00e3o as \u00e1guas de mar\u00e7o fechando o ver\u00e3o&#8221;, canta Tom Jobim. As de novembro deveriam trazer a esta\u00e7\u00e3o do calor, do bronzeado, dos biqu\u00ednis charmosos. Mas este ano vieram com mau humor. Em Santa Catarina choveu tr\u00eas vezes mais que o normal. As imagens exibidas pela tev\u00ea assustam. Morros desmoronam. Barreiras caem. Estradas se fecham. Casas se afogam. Bairros se transformam em rios. Vidas se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-2949","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2949","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2949"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2949\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2949"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2949"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2949"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}