{"id":3008,"date":"2008-12-05T08:10:00","date_gmt":"2008-12-05T10:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/urubus_do_texto\/"},"modified":"2008-12-05T08:10:00","modified_gmt":"2008-12-05T10:10:00","slug":"urubus_do_texto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/urubus_do_texto\/","title":{"rendered":"Urubus do texto"},"content":{"rendered":"\n<p> &nbsp;&nbsp; &nbsp; As aspas s\u00e3o os urubus do texto. Umas e outros enfeiam a paisagem. Ningu\u00e9m gosta de ver as aves de cabe\u00e7a pelada sobrevoando carni\u00e7a. Nem de bater o olho na duplinha \u201c montada na palavra. X\u00f4, coisas feias!  <\/p>\n<p><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;&nbsp; &nbsp;Guarde isto: os dois pauzinhos n\u00e3o foram feitos para destacar voc\u00e1bulos estrangeiros. Nem para chamar a aten\u00e7\u00e3o. O bom autor chama a aten\u00e7\u00e3o com o recado que transmite. N\u00e3o com as macaquinhas encarapitas em palavras, frases ou par\u00e1grafos.   <\/p>\n<p><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;&nbsp; &nbsp;Por isso, seja sovina. Com as aspas, todo p\u00e3o-durismo \u00e9 pouco. Vale, antes de recorrer a elas, lembrar a sabedoria mineira. Na d\u00favida, n\u00e3o as use. Se as usar, n\u00e3o abuse. Use-as s\u00f3 quando forem indispens\u00e1veis. \u00c9 o caso do texto dos outros. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>\u00c9 dele  <\/p>\n<p><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;&nbsp; &nbsp;Em cita\u00e7\u00f5es, declara\u00e7\u00f5es e transcri\u00e7\u00f5es, os urubuzinhos colaboram com a honestidade intelectual. Deixam claro que o trecho aspeado n\u00e3o \u00e9 de autoria de quem escreve: \u201cO povo n\u00e3o deve parar de comprar\u201d, disse Lula em discurso&nbsp; transmitido pelas tev\u00eas. Tocqueville ensinou: \u201cA hist\u00f3ria \u00e9 uma galeria de quadros onde h\u00e1 poucos originais e muitas c\u00f3pias\u201d. Segundo Bush, os Estados Unidos t\u00eam direito de usar \u201cfor\u00e7a total\u201d contra o Iraque. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Aten\u00e7\u00e3o, mo\u00e7ada  <\/p>\n<p><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;&nbsp; &nbsp;Quando uma cita\u00e7\u00e3o passa de um par\u00e1grafo para outro, olho vivo. A cada par\u00e1grafo, cutuque o leitor. Diga-lhe que o texto n\u00e3o \u00e9 seu. Por isso, abra aspas. Mas s\u00f3 as feche quando chegar ao fim da cita\u00e7\u00e3o.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;&nbsp; &nbsp;\u201cSe voc\u00ea deseja ser compreendido, suas frases dever\u00e3o atender a requisito essencial: a clareza. \u00c9 uma exig\u00eancia para a qual n\u00e3o existe meio termo. Se a frase for clara, voc\u00ea dir\u00e1 o que quis dizer. Se a frase for obscura, voc\u00ea provocar\u00e1 confus\u00e3o. <br style=\"font-style: italic\"><br style=\"font-style: italic\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cO escritor americano E. B. White observou que a confus\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas um dist\u00farbio da prosa. Trata-se tamb\u00e9m de uma destruidora de vidas e esperan\u00e7as: h\u00e1 viajantes que n\u00e3o encontram quem os aguarde no desembarque por culpa de um telegrama mal-endere\u00e7ado; h\u00e1 casais que se separam depois de uma frase infeliz numa carta cheia de boas inten\u00e7\u00f5es; e h\u00e1 gente que morre nas rodovias vitimada por palavras obscuras de uma placa de sinaliza\u00e7\u00e3o.\u201d (Manual de Estilo da Editora Abril)  <\/p>\n<p><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Ningu\u00e9m tasca  <\/p>\n<p><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;&nbsp; &nbsp;O requinte est\u00e1 nos detalhes. Um autor caprichoso mant\u00e9m-se atento aos pormenores. Um deles \u00e9 a briga do ponto com as aspas. Dentro ou fora? A disputa tem regras.   <\/p>\n<p><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;&nbsp; &nbsp;1. A C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar. O ponto vai dentro do parzinho se o per\u00edodo come\u00e7ar e terminar com aspas. A raz\u00e3o \u00e9 simples. O ponto faz parte da cita\u00e7\u00e3o. \u00c9 dela. Ningu\u00e9m tasca: \u201cO grande escritor tem estilo; o pequeno, maneira.\u201d&nbsp; \u201cOs que escrevem como falam, ainda que falem muito bem, escrevem mal.\u201d&nbsp; \u201cUma palavra posta fora do lugar estraga o pensamento mais bonito.\u201d  <\/p>\n<p><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Metido  <\/p>\n<p><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;&nbsp; &nbsp;2. O ponto vai fora se o trecho aspeado for intrometido. Em outras palavras: se enfiar-se em outro que j\u00e1 come\u00e7ou: Segundo Christian Morgenstern, \u201co grande escritor tem estilo; o pequeno, maneira\u201d. Para Fernando Pessoa, \u201ctudo vale a pena se a alma n\u00e3o \u00e9 pequena\u201d. Voltaire acredita que \u201cuma palavra posta fora do lugar estraga o pensamento mais bonito\u201d. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>N\u00e3o contam <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c0s vezes, a gente come\u00e7a a cita\u00e7\u00e3o. No meio do caminho, interrompe-a. Em seguida a retoma. Acredite: a pausa \u00e9 um zero \u00e0 direita. N\u00e3o conta: \u201cA\u00ed temos a lei\u201d, dizia o Florentino, \u201cmas quem as h\u00e1 de segurar? Ningu\u00e9m.\u201d <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Vale por dois  <\/p>\n<p><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;&nbsp; &nbsp;A l\u00edngua detesta redund\u00e2ncias. Se o per\u00edodo cercadinho estiver pontuado, o ponto dele vale por dois: conclui a cita\u00e7\u00e3o e d\u00e1 fim ao enunciado. Br\u00e1s Cubas perguntou: \u201cPor que n\u00e3o nasci eu um simples vaga-lume?\u201d \u201cA\u00ed temos a lei, dizia o Florentino, &#8220;mas quem as h\u00e1 de segurar?\u201d  <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;&nbsp; &nbsp; As aspas s\u00e3o os urubus do texto. Umas e outros enfeiam a paisagem. Ningu\u00e9m gosta de ver as aves de cabe\u00e7a pelada sobrevoando carni\u00e7a. Nem de bater o olho na duplinha \u201c montada na palavra. X\u00f4, coisas feias! &nbsp;&nbsp; &nbsp;Guarde isto: os dois pauzinhos n\u00e3o foram feitos para destacar voc\u00e1bulos estrangeiros. Nem para chamar a aten\u00e7\u00e3o. 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