{"id":3071,"date":"2008-12-21T00:00:00","date_gmt":"2008-12-21T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/maite_embarcou_na_canoa_do_tancredo\/"},"modified":"2008-12-21T00:00:00","modified_gmt":"2008-12-21T02:00:00","slug":"maite_embarcou_na_canoa_do_tancredo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/maite_embarcou_na_canoa_do_tancredo\/","title":{"rendered":"Mait\u00ea embarcou na canoa do Tancredo"},"content":{"rendered":"\n<p><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&#8220;Se os rapazes empreendessem a ca\u00e7a, faria-lhes bem ao instinto&#8221;, escreveu Mait\u00ea Proen\u00e7a em O Globo de quinta-feira. Ops! Leitores se assustaram. Depois, lembraram-se de Tancredo Neves. &#8220;N\u00e3o confio em ningu\u00e9m que saiba usar a mes\u00f3clise&#8221;, repetia ele. A frase oculta as manhas e artimanhas do pol\u00edtico mineiro. Com ela, o quase-presidente deu o recado: n\u00e3o \u00e9 mole colocar o pronome no meio do verbo. Mait\u00ea serve de prova.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Manuais de reda\u00e7\u00e3o de jornais consideram a forma rebuscada. Aconselham os rep\u00f3rteres a deix\u00e1-la pra l\u00e1. Os professores de cursinho concordam. Na \u00e2nsia de garantir pontinhos nos testes, sugerem aos alunos: &#8220;N\u00e3o a usem. Fugindo dela, voc\u00eas correm menos riscos&#8221;. A meninada nem questiona. Resultado: a mes\u00f3clise virou praga. N\u00e3o se ensina como empreg\u00e1-la, mas como evit\u00e1-la. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Volta e meia, por\u00e9m, pintam situa\u00e7\u00f5es em que ela se imp\u00f5e. A\u00ed, o castigo vem a galope. A indesejada vira fantasma. Uhhhhhhhh! O que fazer? S\u00f3 h\u00e1 uma sa\u00edda. N\u00e3o bancar o avestruz. Correr atr\u00e1s dos mist\u00e9rios do bicho-pap\u00e3o. A descoberta: o diabo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o feio quanto o apresentam.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Pra dar e vender<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>O portugu\u00eas \u00e9 generoso. Tem tr\u00eas jeitos de colocar o pronome \u00e1tono. Um: antes do verbo (pr\u00f3clise). Outro: depois do verbo (\u00eanclise). O \u00faltimo: no meio do verbo (mes\u00f3clise). As gram\u00e1ticas ditam regras e regras sobre o emprego de cada um. \u00c9 um deus-nos-acuda. Todas combinam com a pron\u00fancia lusitana. A l\u00edngua falada e a linguagem informal tupiniquins se rebelaram diante da opress\u00e3o. Mandaram as normas pras cucuias. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Oswald de Andrade explica: &#8220;D\u00ea-me um cigarro \/ Diz a gram\u00e1tica \/ Do professor e do aluno \/ E do mulato sabido \/ Mas o bom negro e o bom branco \/ Da Na\u00e7\u00e3o Brasileira \/ Diz em todos os dias \/ Deixa disso, camarada, \/ Me d\u00e1 um cigarro&#8221;.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>O brado de liberdade n\u00e3o vale para a norma culta. Em memorandos, of\u00edcios, relat\u00f3rios, reda\u00e7\u00f5es de concursos, editoriais de jornais, a ordem \u00e9 uma s\u00f3: obedecer aos ditames sem tugir nem mugir. Os rebeldes pagam caro. Uns levam bronca do chefe. Outros perdem pontos em provas. Outros, ainda, d\u00e3o a promo\u00e7\u00e3o de m\u00e3o beijada pro outro. A\u00ed, adeus, dinheirinho a mais.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>O fantasma<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 mes\u00f3clise. O pronome \u00e1tono (o, a, lhe, se, nos, vos) s\u00f3 tem vez no meio do verbo em dois tempos. Um: o futuro do presente (cantarei). O outro: o futuro do pret\u00e9rito (cantaria). Nos demais, nem pensar! A forma \u00e9 pra l\u00e1 de simples. Quer ver? <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Comunicarei ao presidente a decis\u00e3o dos servidores. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;font-style: italic\"> <\/p>\n<p>O objetivo \u00e9 substituir o objeto indireto (ao presidente) pelo pronome \u00e1tono (lhe). H\u00e1 tr\u00eas passos a seguir:<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>1. p\u00f4r o verbo no infinitivo: comunicar<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">2. acrescentar o pronome: comunicar-lhe<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">3. juntar o pedacinho cortado (desin\u00eancia): comunicar-lhe-ei<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Mais um exemplo:<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Obedecer\u00edamos ao regulamento se o conhec\u00eassemos.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>A f\u00f3rmula: verbo no infinitivo + pronome + desin\u00eancia = obedecer-lhe-\u00edamos.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>A mes\u00f3clise n\u00e3o admite discrimina\u00e7\u00f5es. Como ocorre na \u00eanclise, os verbos terminados em r, s e z perdem a letrinha final quando seguidos do pronome o ou a, que viram lo ou la: Convenceremos o presidente a receber os servidores (convenc\u00ea-lo-emos) .<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Os diferentes<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Aten\u00e7\u00e3o, distra\u00eddos. Os verbos dizer, fazer e trazer gostam de ser diferentes. Fazem os futuros assim \u2014 direi, diria; farei, faria, trarei, traria. A mes\u00f3clise, com eles, exige dupla aten\u00e7\u00e3o. A trapaceira n\u00e3o se forma do infinitivo. Mas do radical dir, far e trar:<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Dar\u00e3o o recado ao professor. D\u00e1-lo-\u00e3o ao professor. Dar-lhe-\u00e3o o recado.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Far\u00e1 o pedido ao ministro. F\u00e1-lo-\u00e1 ao ministro. Far-lhe-\u00e1 o pedido.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Traremos em m\u00e3o o documento ao diretor. Tr\u00e1-lo-emos em m\u00e3o ao diretor.  <\/p>\n<p>Trar-lhe-emos o documento em m\u00e3o.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Tudo bem<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Voc\u00ea chegou at\u00e9 aqui. Desvendou os mist\u00e9rios da mes\u00f3clise. Mas n\u00e3o se convenceu. Concorda com Tancredo, os manuais de reda\u00e7\u00e3o e os professores de cursinho? Tem todo o direito. Voc\u00ea pode muito bem viver sem tantos hifens. Basta anteceder o futuro de uma palavra que atraia o pronome: Entreg\u00e1-lo-emos em m\u00e3o. N\u00f3s o entregaremos em m\u00e3o.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Cuiiiiiiiiidado. \u00c9 proibido \u2014 proibido mesmo \u2014 colocar o pronome depois do futuro como fez Mait\u00ea Proen\u00e7a. &#8220;Faria-lhes bem?&#8221; Cruz-credo! Nem com autoriza\u00e7\u00e3o do Senhor! &#8220;Far-lhes-ia bem&#8221; \u00e9 a forma aben\u00e7oada pela norma culta.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Se os rapazes empreendessem a ca\u00e7a, faria-lhes bem ao instinto&#8221;, escreveu Mait\u00ea Proen\u00e7a em O Globo de quinta-feira. Ops! Leitores se assustaram. 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