{"id":3096,"date":"2009-01-02T00:00:00","date_gmt":"2009-01-02T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/paulo_jose_cunha_procura-2\/"},"modified":"2009-01-02T00:00:00","modified_gmt":"2009-01-02T02:00:00","slug":"paulo_jose_cunha_procura-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/paulo_jose_cunha_procura-2\/","title":{"rendered":"Paulo Jos\u00e9 Cunha procura"},"content":{"rendered":"<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">\n<p>Querida Dad,<\/p><\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Olha eu de novo aqui,&nbsp;pedindo&nbsp;ajuda. Desta vez n\u00e3o  \u00e9 pra reclamar do desaparecimento de certas palavras (por falar nisso, de  repente me bateu uma saudade danada do trema,&nbsp;aqueles dois olhinhos sapecas que  gostavam de pousar suavemente sobre a letra &#8220;\u00fc&#8221;, que eu nunca aprendi a usar,  mas admirava e respeitava muito quem sabia). Pronto, perdi o fio da meada. Do  que falava mesmo? Nem lembro mais. Tamb\u00e9m, quem manda ficar lembrando dessas  antiguidades?<\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Por falar em verdade, a verdade \u00e9 que escrevo pra  pedir teus pr\u00e9stimos no sentido de conseguir um jeito de espantar de nossas  vidas j\u00e1 t\u00e3o sofridas umas manias que apareceram a\u00ed, foram ficando,&nbsp;ficaram&nbsp;e  n\u00e3o v\u00e3o embora nem com reza forte. Quer um exemplo? O verbo &#8220;conferir&#8221;. Outro  dia, na CBN, ouvi a mo\u00e7a (uma voz linda-linda-linda,&nbsp;que me emocionou \u00e0s  l\u00e1grimas, juro. Pensei em pedi-la em casamento, mas desisti, pois esse neg\u00f3cio  de casamento anda em baixa, n\u00e3o \u00e9 mesmo? O neg\u00f3cio agora \u00e9 ficar).   <\/p>\n<p>Mas a mo\u00e7a,  t\u00e3o simp\u00e1tica, com aquela&nbsp;voz de veludo (minhanossa!, que lugar-comum horr\u00edvel!  &#8220;Voz de veludo&#8221;, eu posso com um trem desses?), pois a mo\u00e7a usou em&nbsp;dois  minutos&nbsp;pelo menos umas quatro vezes a palavra &#8220;conferir&#8221;. O diabo \u00e9 que em  nenhuma delas&nbsp;foi no sentido original, de  conferir pra saber se est\u00e1 mesmo certo ou mesmo errado. Mas foi um tal de me  mandar &#8220;conferir&#8221; a pr\u00f3xima reportagem; &#8220;conferir&#8221; a pe\u00e7a de teatro (vale a pena  conferir, ela repetia, com aquela voz de amor ardente); conferir a not\u00edcia no  saite tal e assim por diante.   <\/p>\n<p>Fiquei tonto, com tanta&nbsp;confer\u00eancia, Dad  querida.&nbsp;A mo\u00e7a simp\u00e1tica e de voz aveludada (Dad, ser\u00e1 que se eu ligar pra CBN  eles me passam o&nbsp;n\u00famero do celular&nbsp;daquela mo\u00e7a? Adoraria conferir certos  detalhes da anatomia dela).&nbsp;Meu Deus, j\u00e1 me perdi de novo, deixa ver onde \u00e9 que  estava. Ah. \u00c9 isso: falava que foi tanta confer\u00eancia que fiquei tonto.   <\/p>\n<p>Porque  sou do tempo em que a gente conferia&nbsp;conta de botequim pra saber se o gar\u00e7om  n\u00e3o estava&nbsp;roubando; conferia o dinheiro que o banc\u00e1rio entregava quando \u00edamos  descontar um cheque (isso no tempo em que havia&nbsp;banc\u00e1rios e cheques, essas  coisas que os livros de hist\u00f3ria registram pra que n\u00e3o se dissolvam na mem\u00f3ria);  conferia a conta de dividir, pra ver se n\u00e3o estava errada&nbsp;(ainda se fazem contas  de dividir, Dad? Com esses celulares de hoje que at\u00e9 falam, acho que isso de  conta de dividir \u00e9 coisa muito, mas muito antiga).   <\/p>\n<p>Pois bem.&nbsp;Agora&nbsp;\u00e9 um tal de  mandar a gente conferir&nbsp;tudo e mais alguma coisa que a express\u00e3o&nbsp;&#8220;vale a pena  conferir&#8221; virou ponto final de qualquer reportagem sobre teatro ou show de  m\u00fasica.&nbsp;Pode conferir a\u00ed no teu r\u00e1dio pra ver se estou mentindo. <\/p><\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">S\u00f3 pra finalizar,&nbsp;me ajuda aqui numa d\u00favida: a  mo\u00e7a, aquela, da voz mal-intencionada (confere a\u00ed, Dad, se usei direito o diabo  do h\u00edfen),&nbsp;disse que valia a pena conferir a pe\u00e7a&nbsp;do Teatro dos Banc\u00e1rios. Bem  que venho&nbsp;tentando achar um jeito de conferir, mas como n\u00e3o assisti ainda \u00e0  pe\u00e7a, n\u00e3o sei como conferir, pra saber se est\u00e1 igual \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o  anterior.&nbsp;Porque um cheque&nbsp;de 50 reais corresponde a 50 reais em dinheiro, n\u00e9?    <\/p>\n<p>Portanto, se o banc\u00e1rio (ainda existe algum aqui&nbsp;do lado de fora,&nbsp;ou&nbsp;foram todos  morar dentro dos&nbsp;caixas eletr\u00f4nicos?). Pois se o banc\u00e1rio&nbsp;me entregar o dinheiro  e depois que eu conferir perceber que faltam&nbsp;5 posso reclamar.&nbsp;Mas como \u00e9 que se  faz pra conferir uma pe\u00e7a de teatro?&nbsp;Diante de tantas d\u00favidas, tomei uma  decis\u00e3o&nbsp;dr\u00e1stica, querida Dad: n\u00e3o confiro mais  nada, coisa alguma, xongas de longas: apenas&nbsp;assisto.&nbsp;Assisto a um filme,  assisto a um show do Capital Inicial&nbsp;(Capital Inicial, oh, Deus, como estou  velho!).&nbsp;Essas coisas.<\/p><\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Tenho assistido muito, Dad, e n\u00e3o me arrependo.  Queria&nbsp;tanto assistir a uma pe\u00e7a de teatro na companhia daquela mo\u00e7a, depois  sair pra conferir um jantar, depois a gente ia conferir a qualidade da pista ali  perto do N\u00facleo Bandeirante&#8230; Hum!&nbsp;Cala-te, boca!&nbsp;<\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Assistir&nbsp;\u00e9 t\u00e3o bom, Dad, voc\u00ea nem faz ideia.  Assistir \u00e9 t\u00e3o legal, mas t\u00e3o legal&nbsp;que nem precisa conferir. Juro por essa luz.  <\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Um beijo deste&nbsp;eterno admirador. <\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Paulo Jos\u00e9 Cunha&nbsp;<\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Querida Dad, &nbsp; Olha eu de novo aqui,&nbsp;pedindo&nbsp;ajuda. Desta vez n\u00e3o \u00e9 pra reclamar do desaparecimento de certas palavras (por falar nisso, de repente me bateu uma saudade danada do trema,&nbsp;aqueles dois olhinhos sapecas que gostavam de pousar suavemente sobre a letra &#8220;\u00fc&#8221;, que eu nunca aprendi a usar, mas admirava e respeitava muito quem sabia). Pronto, perdi o fio da meada. Do que falava [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-3096","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3096","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3096"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3096\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3096"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3096"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3096"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}