{"id":3115,"date":"2009-01-06T15:00:00","date_gmt":"2009-01-06T17:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/voz_ativa\/"},"modified":"2009-01-06T15:00:00","modified_gmt":"2009-01-06T17:00:00","slug":"voz_ativa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/voz_ativa\/","title":{"rendered":"Voz ativa"},"content":{"rendered":"<p> <b>&nbsp;<\/b> Por M\u00f4nica Manir,  de O Estado de S. Paulo<b style=\"font-style: italic\"><\/b> <b>&nbsp;<\/b> N\u00e3o consta, face a face, que o  professor Cegalla seja um senhor caturra \u2013 a n\u00e3o ser que eu escrevesse  t\u00eate-\u00e0-t\u00eate agorinha mesmo, como, enfim, acabo de fazer. Para esse catarinense  de 88 anos e voz pausada, gram\u00e1tico que atravessou quase cinco gera\u00e7\u00f5es de  estudantes brasileiros, n\u00e3o devemos nos deixar contaminar por termos peregrinos.  Por que hall, se temos vest\u00edbulo? Por que trupe, se temos elenco? Por que  compl\u00f4, se grassa a conspira\u00e7\u00e3o? Recorde, xorte e imbr\u00f3lio, no seu \u00e2ngulo de  vis\u00e3o, seriam prefer\u00edveis a record, short e  imbroglio. &nbsp; J\u00e1 diante da possibilidade de  confus\u00e3o que se avizinha com o novo acordo ortogr\u00e1fico, previsto para entrar em  vigor nos pa\u00edses lusofalantes, a partir deste m\u00eas, Cegalla reage com certo  agastamento. \u201cEssa reforma \u00e9 muito t\u00edmida e superficial.\u201d Queria mais punch,  ops!, ousadia para atingir n\u00e3o apenas os sinais diacr\u00edticos (entre eles o trema,  o acento agudo de jib\u00f3ia e o circunflexo de v\u00f4o) como tamb\u00e9m certas incoer\u00eancias  que se notam no sistema ortogr\u00e1fico brasileiro.  &nbsp; Uma desumanidade, por exemplo, \u00e9  escrever desumano sem h e co-herdeiro com o dito cujo. \u201cNingu\u00e9m hesitaria em  pronunciar corretamente co-herdeiro sem este h, que me parece in\u00fatil.\u201d Pode  parecer persegui\u00e7\u00e3o, mas l\u00e1 vai Cegalla propor a guilhotina nas palavras que  come\u00e7am com essa m\u00edsera letra. Hesitaria seria esitaria; hoje, oje. \u201cGrafa-se  hoje porque vem do latim hodie.\u201d A bem da simplifica\u00e7\u00e3o ortogr\u00e1fica, portanto, o  h etimol\u00f3gico inicial perderia o emprego.  &nbsp; O professor lembra o sistema  ortogr\u00e1fico de 1943. Iniciativa da Academia Brasileira de Letras, causou  rebuli\u00e7o porque, entre outras medidas, trocou officio por of\u00edcio, psalmo por  salmo, attento por atento, rhinoceronte por rinoceronte. \u201cPor ter abolido o th,  o ph e as consoantes geminadas in\u00fateis, nossa ortografia, como a espanhola, \u00e9  das mais avan\u00e7adas no mundo\u201d, categoriza. Sobre sua atra\u00e7\u00e3o pela l\u00edngua, ele  bota o indicador na testa para recobrar o que E\u00e7a disse ao amigo Eduardo Prado:  \u201cBrasileiros falam portugu\u00eas com a\u00e7\u00facar.\u201d &nbsp; Cegalla nasceu em Tijipi\u00f3, distrito  de Tijucas, a cerca de 50 quil\u00f4metros de  Florian\u00f3polis. Lidava com cana-de-a\u00e7\u00facar na fazenda do pai, mas aos 12 anos foi  enviado a Curitiba para estudar no Col\u00e9gio Santa Maria, dos irm\u00e3os maristas.  Ainda na capital formou-se em Letras Cl\u00e1ssicas pela  Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras, n\u00e3o sem antes trancar a matr\u00edcula por  quase dois anos para servir no Ex\u00e9rcito, quando esteve cotado para ser pracinha  da FEB. Mas enviou um pedido de dispensa ao ent\u00e3o ministro da Guerra, Eurico  Gaspar Dutra, e p\u00f4de voltar aos estudos. &nbsp; Passada a guerra, o Paran\u00e1 ficou  pequeno para suas ambi\u00e7\u00f5es profissionais. Rasgou ent\u00e3o a estrada at\u00e9 S\u00e3o Paulo,  onde deu aulas de portugu\u00eas no Col\u00e9gio Marista do Carmo at\u00e9 1952. Amante da  beleza, seja na mulher, seja na natureza, mudou-se para o Rio em 1953, decidido  a ficar. No Col\u00e9gio Rio de Janeiro, em Ipanema, ensinou latim e portugu\u00eas. No  Santo In\u00e1cio, em Botafogo, foi mestre de portugu\u00eas e tamb\u00e9m de literatura, com  um diferencial: passou a usar a si mesmo nas aulas. Explica-se. Angustiado com o  material did\u00e1tico da \u00e9poca, limitado e sem ilustra\u00e7\u00f5es, recheado de textos  arcaicos e enfadonhos, Cegalla organizou as anota\u00e7\u00f5es feitas durante anos at\u00e9  chegar \u00e0 Nov\u00edssima Gram\u00e1tica da L\u00edngua Portugu\u00easa, que levava circunflexo na  \u00e9poca.  &nbsp; Era uma gram\u00e1tica normativa, abonada  por trechos de obras de autores modernos, como Drummond, Cec\u00edlia Meireles e Lu\u00eds  Jardim. \u201cAs frases n\u00e3o podiam ser muito longas e tinham de oferecer um conte\u00fado  ideol\u00f3gico, um colorido po\u00e9tico.\u201d Nananinan\u00e3, portanto, para \u201cA mulher p\u00f4s a  \u00e1gua no fog\u00e3o e come\u00e7ou a mexer a comida\u201d. Prefere: \u201cObelisco n\u00e3o \u00e9 mour\u00e3o em  que se amarram cavalos\u201d ou \u201cN\u00e3o se atravessam oceanos s\u00f3 para dan\u00e7ar valsas\u201d,  cujas autorias aqui n\u00e3o revelamos para ati\u00e7ar a curiosidade do leitor. Confessa  que o Nov\u00edssima da gram\u00e1tica foi ideia dele, inspirado nos Nov\u00edssimos Estudos da  L\u00edngua Portuguesa, do gram\u00e1tico M\u00e1rio Barreto. O superlativo absoluto poderia se  configurar um tiro no p\u00e9, n\u00e3o fosse Cegalla pioneiro na tarefa de promover uma  arruma\u00e7\u00e3o tranquilizadora nos fatos gramaticais. &nbsp; O sucesso da obra foi tamanho que o  professor repousou o giz na lousa ap\u00f3s 35 anos de magist\u00e9rio para se dedicar  exclusivamente aos pedidos da editora. Al\u00e9m da Nov\u00edssima, em sua 47\u00aa edi\u00e7\u00e3o,  assina outras gram\u00e1ticas, dicion\u00e1rios, livros de poesia e tradu\u00e7\u00f5es de \u00c9dipo Rei  e Ant\u00edgona diretamente do grego, esta \u00faltima, premiada com o Jabuti, que  Cegalla, ali\u00e1s, n\u00e3o foi receber. \u201cEstudei grego na faculdade e depois li a  gram\u00e1tica grega sete vezes at\u00e9 assimilar a conjuga\u00e7\u00e3o.\u201d No prelo est\u00e3o os  epis\u00f3dios, segundo ele, mais bonitos da Eneida, de Virg\u00edlio, dados \u00e0 luz em  portugu\u00eas h\u00e1 seis meses por meio do latim. Tamb\u00e9m est\u00e1 a caminho a Nov\u00edssima  Gram\u00e1tica j\u00e1 adaptada ao novo acordo ortogr\u00e1fico.  &nbsp; Pelos n\u00fameros da editora, Cegalla  vendeu s\u00f3 de seu dicion\u00e1rio, incorporado pelo Programa Nacional do Livro  Did\u00e1tico, 1,5 milh\u00e3o de exemplares. Com os direitos autorais acumulados por  d\u00e9cadas ele ergueu seu patrim\u00f4nio, que abra\u00e7a um im\u00f3vel em condom\u00ednio fechado no  Leblon para uso pr\u00f3prio, da mulher e de um dos quatro filhos, mais apartamentos  que aluga a turistas no Rio. No terceiro andar da casa do Leblon, ele respira  imperativos, concord\u00e2ncias verbais, vozes passivas, sufixos nominais e  superlativos absolutos sint\u00e9ticos eruditos que emanam de aproximadamente cinco  mil seletos t\u00edtulos, a saber, obras completas de Machado, Bandeira, Vinicius,  Drummond, Alexandre Herculano e outros que pin\u00e7a de acordo com a necessidade e o  humor.  &nbsp; As hist\u00f3rias, na verdade, lhe s\u00e3o  secund\u00e1rias. Escarafuncha a estrutura das frases e, por isso, considera-se  moroso na leitura. Leva de uma a duas semanas para terminar um romance m\u00e9dio,  tamb\u00e9m porque as pelejas de futebol roubam algumas de suas noites e tardes. Mas  \u00e9 l\u00e9pido no gatilho para perceber que algu\u00e9m se constrange ao se sentar ante um  gram\u00e1tico: \u201cSempre evitei corrigir as pessoas quando falam por outra cartilha.\u201d  Logo diz para os convivas se acalmarem e conversarem naturalmente, para n\u00e3o  terem receio, que n\u00e3o \u00e9 nenhum bicho-pap\u00e3o. Mas ai de ti se disser cataclisma ou  se pedir que coloque menas \u00e1gua no copo. \u201cA\u00ed eu n\u00e3o resisto.\u201d&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;   &nbsp;  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Por M\u00f4nica Manir, de O Estado de S. Paulo &nbsp; N\u00e3o consta, face a face, que o professor Cegalla seja um senhor caturra \u2013 a n\u00e3o ser que eu escrevesse t\u00eate-\u00e0-t\u00eate agorinha mesmo, como, enfim, acabo de fazer. Para esse catarinense de 88 anos e voz pausada, gram\u00e1tico que atravessou quase cinco gera\u00e7\u00f5es de estudantes brasileiros, n\u00e3o devemos nos deixar contaminar por termos peregrinos. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-3115","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3115","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3115"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3115\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3115"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3115"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3115"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}