{"id":3135,"date":"2009-01-11T00:00:00","date_gmt":"2009-01-11T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_que_fica\/"},"modified":"2009-01-11T00:00:00","modified_gmt":"2009-01-11T02:00:00","slug":"o_que_fica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_que_fica\/","title":{"rendered":"O que fica?"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Que confus\u00e3o! A reforma ortogr\u00e1fica fez n\u00f3s e n\u00f3s na cabe\u00e7a dos brasileiros. O tumulto chegou a tal ponto que deu margem a del\u00edrios \u00e0 mil e uma noites. Fala-se em fim dos acentos. Decretou-se que vi\u00fava perdeu o grampo. Decidiu-se que t\u00eam e v\u00eam deram adeus ao chap\u00e9u e, embora com menos charme, sentem-se mais livres e soltas.  <BR>&#8220;Alto l\u00e1&#8221;, dizem as palavras indignadas. Com raz\u00e3o. Elas h\u00e1 muito assinaram um contrato e o registraram em cart\u00f3rio. Quando o portugu\u00eas usava fraldas, l\u00e1 pelo s\u00e9culo 12, era pra l\u00e1 de dif\u00edcil acertar a s\u00edlaba t\u00f4nica dos voc\u00e1bulos. Rubrica ou r\u00fabrica? Nobel ou N\u00f3bel? Que rolo! As ilustres senhoras, ent\u00e3o, se reuniram em conselho. Discute daqui, negocia dali, ajeita dacol\u00e1, firmaram este acordo:  <BR>Artigo 1\u00ba \u2014 As palavras terminadas em <STRONG>a<\/STRONG>, <STRONG>e<\/STRONG> e <STRONG>o<\/STRONG> seguidas ou n\u00e3o de <STRONG>s<\/STRONG> s\u00e3o parox\u00edtonas.   <BR>Artigo 2\u00ba \u2014 As terminadas em <STRONG>i <\/STRONG>e <STRONG>u<\/STRONG> seguidas ou n\u00e3o de qualquer consoante s\u00e3o ox\u00edtonas.  <BR>Artigo 3\u00ba \u2014 Quem se opuser ao acordo ser\u00e1 punido com acento gr\u00e1fico.  <BR> &nbsp; <STRONG>Protestos  <BR><\/STRONG> Acordo implica ren\u00fancias, perdas e ganhos. O melhor \u00e9 aquele no qual todos ficam satisfeitos. N\u00e3o foi o caso do acerto feito pelas poderosas da l\u00edngua. Da\u00ed os protestos. As primeiras a reclamar foram as proparox\u00edtonas. Se aderissem ao acordo, elas desapareceriam. Por isso todas se enquadraram no artigo 3\u00ba. Rebeldes, s\u00e3o acentuadas: r\u00edtmico, \u00e1libi, sat\u00e9lite.  <BR> As ox\u00edtonas tamb\u00e9m demonstraram descontentamentos. Pura ciumeira. Elas foram brindadas com duas vogais (i, u). As parox\u00edtonas, com tr\u00eas (a, e, o). Por isso a maior parte das palavras em portugu\u00eas tem o acento t\u00f4nico na pen\u00faltima s\u00edlaba. A menor? Na antepen\u00faltima. As proparox\u00edtonas s\u00e3o minoria.  <BR>&nbsp;  <BR> <STRONG>Inimizade eterna  <BR><\/STRONG> &nbsp; Ox\u00edtonas e parox\u00edtonas s\u00e3o inimigas at\u00e9 hoje. O que acontece com umas n\u00e3o acontece com as outras. Quer ver? Compare:  <BR>&nbsp;  <BR><STRONG>Ox\u00edtonas  <BR><\/STRONG> 1. Terminadas em <STRONG>i <\/STRONG>e <STRONG>u<\/STRONG> seguidas ou n\u00e3o de qualquer consoante: n\u00e3o s\u00e3o acentuadas (tupi, tupis, caju, cajus, partir)  <BR> 2. Terminadas em <STRONG>a<\/STRONG>, <STRONG>e<\/STRONG>, <STRONG>o<\/STRONG>:  <BR>2.1. seguidas ou n\u00e3o de s: s\u00e3o acentuadas (est\u00e1, est\u00e1s; voc\u00ea, voc\u00eas; comp\u00f4-lo, comp\u00f4s)  <BR>2.2. seguidas de consoante diferente de s: n\u00e3o s\u00e3o acentuadas (jornal, vender, Nobel, amor)  <BR>Exce\u00e7\u00e3o: em, ens (ref\u00e9m, ref\u00e9ns).  <BR>&nbsp;  <BR><STRONG>Parox\u00edtonas  <BR><\/STRONG> 1. Terminadas em a, <STRONG>e<\/STRONG>, <STRONG>o<\/STRONG>:  <BR>1.1. seguidas ou n\u00e3o de <STRONG>s<\/STRONG>: n\u00e3o s\u00e3o acentuadas (rubrica, rubricas; vende, vendes; livro, livros)  <BR>1.2. seguidos de consoante diferente de <STRONG>s<\/STRONG>: s\u00e3o acentuados (t\u00f3rax, rev\u00f3lver, N\u00e9lson)  <BR>Exce\u00e7\u00e3o: am, em, ens (amam, nuvem, nuvens)  <BR>2. Terminados em <STRONG>i<\/STRONG> e <STRONG>u<\/STRONG> seguidas ou n\u00e3o de qualquer consoante: s\u00e3o acentuadas (t\u00e1xi, dif\u00edcil, \u00f4nus)  <BR>&nbsp;  <BR><STRONG><\/STRONG> <STRONG>Fatos estranhos<\/STRONG>  <BR> &nbsp; Reparou? Por causa do acordo, h\u00e1 fatos estranhos. \u00c9 o caso da grafia de h\u00edfen, \u00e9den e poucas mais. No singular, elas t\u00eam acento. No plural, n\u00e3o (hifens, edens). Por qu\u00ea? Trata-se da velha briga entre ox\u00edtonas e parox\u00edtonas. As ox\u00edtonas terminadas em ens s\u00e3o acentuadas (armaz\u00e9ns). As parox\u00edtonas n\u00e3o.  <BR>  <BR><STRONG>Reforma ortogr\u00e1fica<\/STRONG> &nbsp; Guarde isto: antiguidade \u00e9 posto. A reforma ortogr\u00e1fica n\u00e3o tocou nem uma v\u00edrgula do acordo. O que ali est\u00e1 firmado continua v\u00e1lido. As mudan\u00e7as atingiram outras regras.  <BR> <BR>Como foram as grandes vencedoras do acordo do s\u00e9culo 12, as parox\u00edtonas receberam o troco agora. A reforma s\u00f3 mexeu nelas. Perderam o acento os hiatos <STRONG>oo <\/STRONG>e <STRONG>eem<\/STRONG> (voo, perdoo, zoo; leem, deem, veem), o <STRONG>u<\/STRONG> t\u00f4nico dos verbos apaziguar, arguir, averiguar &amp; cia. (apazigue, averigue, argue), o <STRONG>i<\/STRONG> e o <STRONG>u<\/STRONG> antecedidos de ditongo (feiura, Sauipe), os ditongos abertos <STRONG>ei<\/STRONG> e <STRONG>oi <\/STRONG>(ideia, joia); os acentos diferenciais (para, pelo, polo, pera).  <BR>Exce\u00e7\u00e3o: p\u00f4de.  <BR> <BR>Por ter atingido s\u00f3 as parox\u00edtonas, as ox\u00edtonas e os monoss\u00edlabos t\u00f4nicos mant\u00eam os acentos intoc\u00e1veis. Joia perde o acento por ser parox\u00edtona. Her\u00f3i o conserva por ser ox\u00edtona. D\u00f3i, monoss\u00edlabo t\u00f4nico, tamb\u00e9m permanece com o agud\u00e3o.  <BR> &nbsp; Ufa!  <BR>&nbsp;  <BR><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Que confus\u00e3o! A reforma ortogr\u00e1fica fez n\u00f3s e n\u00f3s na cabe\u00e7a dos brasileiros. O tumulto chegou a tal ponto que deu margem a del\u00edrios \u00e0 mil e uma noites. Fala-se em fim dos acentos. Decretou-se que vi\u00fava perdeu o grampo. 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