{"id":3160,"date":"2009-01-16T00:00:00","date_gmt":"2009-01-16T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/roupa_nova_ao_velho_idioma\/"},"modified":"2009-01-16T00:00:00","modified_gmt":"2009-01-16T02:00:00","slug":"roupa_nova_ao_velho_idioma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/roupa_nova_ao_velho_idioma\/","title":{"rendered":"Roupa nova ao velho idioma"},"content":{"rendered":"\n<p>Frei Betto<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Vejam s\u00f3: eu, a l\u00edngua portuguesa, falada por pelo menos 230 milh\u00f5es de pessoas de oito pa\u00edses que oficialmente me adotam, estou de roupa nova. Sempre foi assim, de tempos em tempos decidem auto-regular o modo como sou escrita, ou melhor, autorregular. Agora \u00e9 assim, sabia?<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Bom exemplo \u00e9 o pronome voc\u00ea. Nasceu \u2018vossa merc\u00ea\u2019, virou \u2018vossemec\u00ea\u2019, derivou para \u2018vosmec\u00ea\u2019, reduziu-se a \u2018voc\u00ea\u2019, \u00e9 falado \u2018oc\u00ea\u2019 ou \u2018c\u00ea\u2019 (c\u00ea vai l\u00e1?). N\u00e3o duvido nada, daqui a pouco s\u00f3 se pronuncia o acento circunflexo.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Oficialmente meu alfabeto passa a ter 26 letras, com a inclus\u00e3o de k, y e w. Ora, na pr\u00e1tica isso j\u00e1 ocorria: km, yang e yin, show etc. Meio kafkiano, n\u00e3o?<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Cai a coroa de certas palavras, o velho trema, t\u00e3o frequente (agora sem trema) na tranquila (idem) sequ\u00eancia (idem) de voc\u00e1bulos como lingui\u00e7a. Q\u00fcinq\u00fc\u00eanio, duplamente coroado, agora \u00e9 quinqu\u00eanio. Tamb\u00e9m perco o acento no casal de vogais, conhecido por ditongo, em palavras parox\u00edtonas, como alcateia, androide, boia, colmeia, celuloide.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Confesso que me sinto meio nua&#8230; Ser\u00e1 paranoia? Ao menos me sobraram os acentos das ox\u00edtonas como pap\u00e9is, her\u00f3is e trof\u00e9u. E o Piau\u00ed ficou a salvo, como em toda ox\u00edtona terminada por i e u ou seguida de s.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">L\u00edngua \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de eleg\u00e2ncia. Imaginem uma mulher descabelada numa festa em que todas as outras est\u00e3o bem penteadas! \u00c9 como me sinto nos voc\u00e1bulos terminados em eem e oo. Adeus ao chapeuzinho em creem, magoo, perdoo, veem (do verbo ver), voo, zoo. \u201cSer\u00e1 que aben\u00e7oo tais mudan\u00e7as?\u201d, pergunta o autor deste texto. Ou ele encara isso com certo enjoo?<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Ser\u00e1 que os leitores, sem o circunflexo (que belo voc\u00e1bulo!), distinguir\u00e3o facilmente o casamento da preposi\u00e7\u00e3o com o artigo no voc\u00e1bulo pelo do substantivo p\u00ealo, que agora \u00e9 pelo, assim pelado? Perdem o acento: p\u00eara e p\u00e1ra. Num texto na nova ortografia, agora vamos ler que a mo\u00e7a gritou no carro para o namorado: \u201cPara! Des\u00e7o na esquina, seu h\u00e1lito, de quem comeu pera podre, me d\u00e1 enjoo\u201d. \u201cPode descer\u201d, dir\u00e1 ele. Ela retrucar\u00e1: \u201cComo voc\u00ea p\u00f4de sair de casa sem escovar os dentes?\u201d<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Outra exce\u00e7\u00e3o \u00e9 a preposi\u00e7\u00e3o por e o verbo p\u00f4r. Por que ser\u00e1? Mas ao menos uma liberdade resta a quem redige: voc\u00ea pode ou n\u00e3o enchapelar forma quando se referir \u00e0 vasilha de fazer bolos e escrever: \u201cQual a forma da f\u00f4rma do bolo?\u201d Estar\u00e1 tamb\u00e9m cert\u00edssimo se redigir: \u201cQual a forma da forma do bolo?\u201d<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">O h\u00edfen, coitado, foi o que mais sofreu nessa reforma ortogr\u00e1fica. Salvou-se frente ao h: super-homem, sobre-humano. Mas dan\u00e7ou quando o prefixo termina diferente do segundo elemento: aeroespacial, antia\u00e9reo, extraescolar. Sobrou o vice: vice-presidente.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Sai de cena o h\u00edfen se o prefixo termina em vogal e o resto se inicia com r ou s. Nesse caso, duplicam-se tais letras: antissocial, ultrassom, biorritmo. Estranho, n\u00e9?<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">H\u00e1 certas palavras com as quais \u00e9 preciso cuidado devido \u00e0 carga ideol\u00f3gica. O h\u00edfen permanece para o i n\u00e3o beijar o seu clone: anti-imperialista, anti-inflacion\u00e1rio. Tamb\u00e9m quando o r amea\u00e7a arranhar o seu duplo: inter-racial, super-rom\u00e2ntico. Superinteressante, n\u00e3o?<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Se o prefixo sub topar com o r, que mantenha dist\u00e2ncia: sub-regi\u00e3o, sub-ra\u00e7a. Pan-americano fica assim mesmo. Quando o prefixo terminar por consoante e o segundo elemento come\u00e7ar por vogal, una tudo: hiperativo, hiperacidez, interestadual.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Por\u00e9m, mantenha dist\u00e2ncia se o prefixo for ex, sem, al\u00e9m, p\u00f3s, pr\u00e9: al\u00e9m-t\u00famulo, ex-diretor, p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, pr\u00e9-vestibular, rec\u00e9m-casado. E sem-terra (mas com muita garra na luta por reforma agr\u00e1ria).<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">E algo fant\u00e1stico: o h\u00edfen \u00e9 preservado se o sufixo tiver origem tupi-guarani (olha ele a\u00ed): capim-a\u00e7u, amor\u00e9-gua\u00e7u. Sup\u00f5e, evidentemente, que voc\u00ea saiba identificar o voc\u00e1bulo como derivado do tupi-guarani.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Sei que n\u00e3o sou um idioma f\u00e1cil. Al\u00e9m da correta grafia, exijo perfeita sintaxe. E vivo provocando pegadinhas: aluvi\u00e3o, apesar do tom, \u00e9 substantivo feminino. E imagina um estrangeiro me aprendendo: \u201cPedro bota a cal\u00e7a e, em seguida, cal\u00e7a a bota\u201d. E manga? De camisa, a fruta, parte do eixo do carro e mais oito significados pelo menos. Banco ent\u00e3o nem se fala: de pra\u00e7a, de guardar dinheiro, de areia, de sangue e do presente do indicativo do verbo bancar.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Para fazer bom uso de mim s\u00f3 h\u00e1 uma receita: leia, leia muito, bons autores. E, quanto \u00e0 minha roupa nova, fique tranq\u00fcilo, pois esse trema e todas as demais mudan\u00e7as ortogr\u00e1ficas t\u00eam (o circunflexo do plural dos verbos ter e vir foram salvos pelo gongo) prazo at\u00e9 2012 para serem implementados.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">(artigo publicado no Correio Braziliense)   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei BettoVejam s\u00f3: eu, a l\u00edngua portuguesa, falada por pelo menos 230 milh\u00f5es de pessoas de oito pa\u00edses que oficialmente me adotam, estou de roupa nova. Sempre foi assim, de tempos em tempos decidem auto-regular o modo como sou escrita, ou melhor, autorregular. Agora \u00e9 assim, sabia?Bom exemplo \u00e9 o pronome voc\u00ea. Nasceu \u2018vossa merc\u00ea\u2019, virou \u2018vossemec\u00ea\u2019, derivou para \u2018vosmec\u00ea\u2019, reduziu-se a \u2018voc\u00ea\u2019, \u00e9 falado [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-3160","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3160","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3160"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3160\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3160"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3160"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3160"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}