{"id":3199,"date":"2009-01-25T00:00:00","date_gmt":"2009-01-25T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/dicas\/"},"modified":"2009-01-25T00:00:00","modified_gmt":"2009-01-25T02:00:00","slug":"dicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/dicas\/","title":{"rendered":"dicas"},"content":{"rendered":"<p><DIV> <STRONG>Recado<\/STRONG> &#8220;Escrita: arte de destelhar a casa sem que os transeuntes percebam.&#8221; Carlos Drummond de Andrade &nbsp; <STRONG>O time da l\u00edngua<\/STRONG> &#8220;Socooooooooooooooooooooooooorro!&#8221;, gritam os concurseiros de Europa, Fran\u00e7a e Bahia. O motivo: perdem pontos a rodo num tal item chamado coes\u00e3o. Eles procuram o assunto nas gram\u00e1ticas. N\u00e3o encontram. Celsos Cunhas, Becharas, Cegallas n\u00e3o dedicam nenhum cap\u00edtulo ao tema. Por qu\u00ea?  A raz\u00e3o \u00e9 simples. Coes\u00e3o est\u00e1 presente na morfologia, na sintaxe, nas figuras de linguagem. Ao estudar substantivos, verbos, pronomes, conjun\u00e7\u00f5es, preposi\u00e7\u00f5es, coordena\u00e7\u00e3o, subordina\u00e7\u00e3o, etc. e tal, indiretamente estudamos coes\u00e3o. Eles oferecem recursos pra ligar palavras, ligar per\u00edodos, ligar par\u00e1grafos. Em suma: juntar partes soltas em unidades coerentes. <I><\/I> <I>Anel<\/I> e <I>ouro<\/I> s\u00e3o duas palavras que n\u00e3o se conhecem nem de elevador. Mas formam unidade com a ajuda da preposi\u00e7\u00e3o <I>de<\/I>: <I>anel <STRONG>de<\/STRONG> ouro<\/I>.<I><\/I> <I>Cozinho, estamos sem empregada<\/I>. Que rela\u00e7\u00e3o existe entre enunciados assim independentes? A conjun\u00e7\u00e3o se encarrega de p\u00f4r os pontos nos ii. Ela pode indicar causa (cozinho porque estamos sem empregada). Pode indicar tempo (cozinho quando estamos sem empregada). Pode indicar dura\u00e7\u00e3o (cozinho enquanto estamos sem empregada). Pode indicar condi\u00e7\u00e3o (cozinho se estamos sem empregada).  Pronomes exercem duplo papel. Al\u00e9m de auxiliar a coes\u00e3o, contribuem para a eleg\u00e2ncia. Como? Evitam repeti\u00e7\u00f5es. Veja: <I> Rafael e Jo\u00e3o Marcelo s\u00e3o irm\u00e3os. Este estuda medicina; aquele, direito. (Este substitui Jo\u00e3o Marcelo; aquele, Rafael.) Oscar Niemeyer se casou aos 99 anos. Ele e a noiva se conheceram anos antes.<\/I><B> &nbsp; Por falar em repeti\u00e7\u00e3o\u2026<\/B> Nem toda repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 m\u00e1. A estil\u00edstica d\u00e1 liga e charme ao texto. \u00c9 o caso do &#8220;pode indicar&#8221; reiterado acima. \u00c9 o caso, tamb\u00e9m, deste trecho de Barack Obama:  <I>Sim, n\u00f3s podemos. N\u00f3s podemos recuperar a economia do pa\u00eds. N\u00f3s podemos legar uma p\u00e1tria melhor pra nossos filhos e netos. N\u00f3s podemos respeitar os direitos humanos. N\u00f3s podemos zelar pelo meio ambiente. N\u00f3s podemos construir um mundo mais justo e democr\u00e1tico. Sim, n\u00f3s podemos.<\/I><B> &nbsp; De sa\u00edda<\/B> Viu? O entrela\u00e7amento das id\u00e9ias se d\u00e1 por meio de v\u00e1rios mecanismos.&nbsp;Outro&nbsp;\u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o do tema. Ou seja: a persegui\u00e7\u00e3o do tema sem desvios. \u00c9 a tal hist\u00f3ria: quem se ajoelha tem de rezar. Veja exemplo de par\u00e1grafo do livro <I>Sonhos de Einsten<\/I>, de Alan Lightma:<I> <STRONG>Min\u00fasculos sons da cidade flutuam pela sala<\/STRONG>. Uma garrafa de leite tilinta contra uma pedra. Um toldo \u00e9 esticado em uma loja. Uma carro\u00e7a de verduras transita lentamente por uma rua. Um homem e uma mulher sussurram em um apartamento pr\u00f3ximo.<\/I> Que responsabilidade! O t\u00f3pico frasal (1\u00aa frase) amarrou as id\u00e9ias. Sem ele, os exemplos de sons da cidade ficariam sem elo. O leitor n\u00e3o saberia aonde as frases querem chegar. Em suma: um amontoado de ideias e nenhum recado.<B> &nbsp; Texto e equipe<\/B> Imagine a situa\u00e7\u00e3o. Com carta branca, Alex Serguson formou o time com os melhores jogadores do mundo. Todos do n\u00edvel de Cristiano Ronaldo, Kak\u00e1, Messi, Ronaldinho Ga\u00facho. Confiante no talento individual, p\u00f4s a equipe em campo antes de definir a posi\u00e7\u00e3o e movimenta\u00e7\u00e3o de cada um pra atingir o objetivo. Qual? O gol, claro. Sem plano que as orientasse, as criaturas n\u00e3o formaram conjunto. E, claro, n\u00e3o se entenderam. Corriam sem rumo, chutavam a esmo, estranhavam a bola. Eram 11 Pel\u00e9s transformados em 11 patetas. O resultado? Fiasco nota 10. (Qualquer semelhan\u00e7a com a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira de 2006 n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia.) A imagem vale para a reda\u00e7\u00e3o. Belas ideias, belas palavras e belas frases n\u00e3o resultam necessariamente em bom texto. Pra chegar \u00e0 unidade de composi\u00e7\u00e3o, elas precisam se articular \u2014 entrosar-se com clareza, harmonia e coer\u00eancia. Em bom portugu\u00eas: as palavras t\u00eam de conversar pra formar per\u00edodos. Os per\u00edodos t\u00eam de conversar pra formar par\u00e1grafos. Os par\u00e1grafos t\u00eam de conversar pra formar o texto. O bate-papo tem nome. Chama-se coes\u00e3o textual. <\/DIV> <DIV>&nbsp;<\/DIV><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recado &#8220;Escrita: arte de destelhar a casa sem que os transeuntes percebam.&#8221; Carlos Drummond de Andrade &nbsp; O time da l\u00edngua &#8220;Socooooooooooooooooooooooooorro!&#8221;, gritam os concurseiros de Europa, Fran\u00e7a e Bahia. O motivo: perdem pontos a rodo num tal item chamado coes\u00e3o. Eles procuram o assunto nas gram\u00e1ticas. N\u00e3o encontram. Celsos Cunhas, Becharas, Cegallas n\u00e3o dedicam nenhum cap\u00edtulo ao tema. Por qu\u00ea? A raz\u00e3o \u00e9 simples. 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