{"id":3336,"date":"2009-02-22T00:00:00","date_gmt":"2009-02-22T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/as_letras_usam_mascara\/"},"modified":"2009-02-22T00:00:00","modified_gmt":"2009-02-22T03:00:00","slug":"as_letras_usam_mascara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/as_letras_usam_mascara\/","title":{"rendered":"As letras usam m\u00e1scara"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/wp-content\/uploads\/blog-dad\/bc677b2bd4f43d30851232b746a18840.jpg\">  &nbsp; &nbsp; <BR>\u00c9 carnaval. Fantasias pedem passagem. Com elas, m\u00e1scaras fazem a festa. Invadem as ruas e exibem caras famosas ou sonhadas. Mulheres viram homens. Homens, mulheres. Meninos ganham os poderes do Super-Homem, a destreza do Homem Aranha ou a gra\u00e7a do Mickey. Meninas, a for\u00e7a da Pucca, a capacidade das Superpoderosas ou os malabarismos da Hannah Montana. Gente comum se transforma em celebridade. An\u00f4nimos invis\u00edveis se tornam foco de mil olhares.  <BR> &nbsp; Travestir-se n\u00e3o constitui privil\u00e9gio humano. M\u00e1scaras fazem parte do mundo das letras. As 26 criaturas do alfabeto n\u00e3o s\u00e3o 26. Gra\u00e7as aos disfarces, viram multid\u00e3o. Ora aparecem manuscritas. Ora impressas. Ora cursivas. Ora por extenso. Ora mai\u00fasculas. Ora min\u00fasculas. Ora com acento. Ora livres e soltas. Ora representam um som Ora outro ou outros. Em suma: as letras t\u00eam o dom da multiplica\u00e7\u00e3o.&nbsp; <BR>&nbsp; <BR> <STRONG>Cinco s\u00e3o doze <BR><\/STRONG> &nbsp; O portugu\u00eas tem cinco vogais (a, e, i, o u). Mas, com os recursos da camuflagem, a meia dezena vira uma d\u00fazia. O a, por exemplo, soa oral (casa), soa nasal (irm\u00e3), soa aberto (sof\u00e1), soa reduzido (folha). O e n\u00e3o fica atr\u00e1s. Ora se escuta oral (belo), ora nasal (bem), ora aberto (caf\u00e9), ora fechado (voc\u00ea), ora reduzido (bate).  <BR> &nbsp; A versatilidade do quinteto enriquece a l\u00edngua. O portugu\u00eas \u00e9 foneticamente muito mais rico que o espanhol. O idioma de Cervantes tem cinco vogais. Avessas a disfarces, as duronas soam cinco. Resultado: n\u00f3s entendemos melhor o espanhol do que eles o portugu\u00eas. Hispanofalantes n\u00e3o conseguem distinguir vov\u00f3 de vov\u00f4. Sem ter sons abertos, eles s\u00f3 escutam os fechados. Pra nossos vizinhos, vov\u00f4 e vov\u00f3 s\u00e3o vov\u00f4. Entenda quem quiser. Ou puder. <BR>&nbsp; <BR> <STRONG>Jogo de disfarces <BR><\/STRONG> &nbsp; As consoantes n\u00e3o fogem \u00e0 regra. S\u00e3o loucas por disfarces. Com elas, retornam os tempos das saturnais romanas. Conhece? Eram festas que celebravam a volta da primavera. A esta\u00e7\u00e3o simboliza o renascer da natureza depois do rigor do inverno. Era per\u00edodo alegre. Os servidores p\u00fablicos entravam em recesso. Os tribunais fechavam as portas. Nenhum criminoso podia ser punido. Libertavam-se os escravos pra assistir aos festejos. As fam\u00edlias ofereciam banquetes. <BR> &nbsp; Durante as celebra\u00e7\u00f5es, invertiam-se posi\u00e7\u00f5es sociais. Os escravos davam ordens aos senhores. Os senhores lhes serviam iguarias \u00e0 mesa. Todos se mascaravam pra se sentirem mais \u00e0 vontade. H\u00e1 quem diga que as m\u00e1scaras nasceram a\u00ed. Verdade ou fantasia, uma coisa \u00e9 certa. As consoantes adoraram a indument\u00e1ria. Usam-na \u00e0s claras.&nbsp; <BR>&nbsp; <BR> <STRONG>Fantasias multiplicadoras<\/STRONG> <BR> &nbsp; Consoantes t\u00eam v\u00e1rias leis. Uma delas: quanto mais confus\u00e3o melhor. Pra obedecer \u00e0 determina\u00e7\u00e3o t\u00e3o divertida, nada mais adequado que usar e abusar das m\u00e1scaras. Com elas, uma letra multiplica os sons. E, claro, d\u00e1 n\u00f3 nos miolos dos pobres mortais. Vale o exemplo do x. A danadinha adora trocar os disfarces. Em certas palavras, pronuncia-se ch (enxoval). Em outras, z (exame). Em outras, ainda, s (excel\u00eancia). Chega? N\u00e3o. H\u00e1 os casos em que a gloriosa soa ks (t\u00e1xi). Ufa! <BR> &nbsp; O s, ent\u00e3o, abusa. Salta de galho em galho com tal destreza que faz inveja a Tarz\u00e3. No come\u00e7o da palavra, soa c\u00ea (sala). Entre duas vogais, z (pesquisa). \u00c9 a\u00ed que a porca torce o rabo. Caprichoso, o vers\u00e1til quer manter a originalidade entre duas vogais. Imposs\u00edvel? Ele d\u00e1 um jeito. Apresenta-se em dose dupla (massa). Mant\u00e9m a originalidade tamb\u00e9m quando aparece entre vogal e consoante (cansar). Ops! Em tr\u00e2nsito, ele se exibe entre n e i. Mas soa z. Quem entende? Calma. \u00c9 carnaval. <BR> &nbsp; Uma ilustre senhora tem fasc\u00ednio por fantasias, m\u00e1scaras e badulaques. Quem \u00e9? \u00c9 a letra c. Seguida de a, o e u, soa k (casa, coisa, cuia). Seguida de e e i, pronuncia-se c\u00ea (cedo, cidade). Partid\u00e1rio do s, o c teima em soar c\u00ea quando seguido de a, o, u. Recorre, ent\u00e3o, \u00e0 marca que faz o Brasil Brasil. D\u00e1 um jeito. Cal\u00e7a um sapatinho e ganha a parada (cal\u00e7ado, a\u00e7o, a\u00e7ude). <BR>&nbsp; <BR> <STRONG>Moral da hist\u00f3ria <BR><\/STRONG> &nbsp; M\u00e1rio Quintana disse que a mentira \u00e9 a verdade que se esqueceu de acontecer. No carnaval das letras, a mentira acontece. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; \u00c9 carnaval. Fantasias pedem passagem. Com elas, m\u00e1scaras fazem a festa. Invadem as ruas e exibem caras famosas ou sonhadas. Mulheres viram homens. Homens, mulheres. Meninos ganham os poderes do Super-Homem, a destreza do Homem Aranha ou a gra\u00e7a do Mickey. Meninas, a for\u00e7a da Pucca, a capacidade das Superpoderosas ou os malabarismos da Hannah Montana. 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