{"id":3440,"date":"2009-09-03T09:00:00","date_gmt":"2009-09-03T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/esopo_e_a_lingua\/"},"modified":"2009-09-03T09:00:00","modified_gmt":"2009-09-03T12:00:00","slug":"esopo_e_a_lingua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/esopo_e_a_lingua\/","title":{"rendered":"Esopo e a l\u00edngua"},"content":{"rendered":"\n<p>Esopo era um escravo de rara intelig\u00eancia que  servia \u00e0 casa de um conhecido chefe militar da antiga Gr\u00e9cia. Certo  dia, em que seu patr\u00e3o conversava com outro companheiro sobre os males e as  virtudes do mundo, Esopo foi chamado a dar sua opini\u00e3o sobre o assunto, ao que  respondeu seguramente:   <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>&#8212; Tenho a mais absoluta certeza de que a maior  virtude da Terra est\u00e1 \u00e0 venda no mercado.   <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>&#8212; Como? Perguntou o amo  surpreso. Tens certeza do que est\u00e1 falando? Como podes afirmar tal coisa?    <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o s\u00f3 afirmo, como, se meu amo permitir, irei at\u00e9 l\u00e1 e trarei a  maior virtude da Terra.   <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>Com a devida autoriza\u00e7\u00e3o do amo, saiu Esopo e,  dali a alguns minutos voltou carregando um pequeno embrulho.   <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>Ao abrir o  pacote, o velho chefe encontrou v\u00e1rios peda\u00e7os de l\u00edngua, e, enfurecido, deu ao  escravo uma chance para explicar-se.   <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>&#8212; Meu amo, n\u00e3o vos enganei,  retrucou Esopo.   <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>&#8212; A l\u00edngua \u00e9, realmente, a maior das virtudes. Com ela  podemos consolar, ensinar, esclarecer, aliviar e conduzir.   <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>&#8212; Pela  l\u00edngua os ensinos dos fil\u00f3sofos s\u00e3o divulgados, os conceitos religiosos s\u00e3o  espalhados, as obras dos poetas se tornam conhecidas de todos.   <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>&#8212; Acaso  podeis negar essas verdades, meu amo?   <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>&#8212; Boa, meu caro, retrucou o amigo  do amo. J\u00e1 que \u00e9s desembara\u00e7ado, que tal trazer-me agora o pior v\u00edcio do mundo.    <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 perfeitamente poss\u00edvel, senhor, e com nova autoriza\u00e7\u00e3o de meu amo,  irei novamente ao mercado e de l\u00e1 trarei o pior v\u00edcio de toda terra.    <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>Concedida a permiss\u00e3o, Esopo saiu novamente e dali a minutos voltava  com outro pacote semelhante ao primeiro.   <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>Ao abri-lo, os amigos  encontraram novamente peda\u00e7os de l\u00edngua. Desapontados, interrogaram o escravo e  obtiveram dele surpreendente resposta:   <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>&#8212; Por que vos admirais de minha  escolha?   <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>&#8212; Do mesmo modo que a l\u00edngua, bem utilizada, se converte numa  sublime virtude, quando relegada a planos inferiores se transforma no pior dos  v\u00edcios.   <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>&#8212; Atrav\u00e9s dela tecem-se as intrigas e as viol\u00eancias verbais.  Atrav\u00e9s dela, as verdades mais santas, por ela mesma ensinadas, podem ser  corrompidas e apresentadas como anedotas vulgares e sem sentido.   <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>&#8212;  Atrav\u00e9s da l\u00edngua, estabelecem-se as discuss\u00f5es infrut\u00edferas, os  desentendimentos prolongados e as confus\u00f5es populares que levam ao desequil\u00edbrio  social.   <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>&#8212; Acaso podeis refutar o que digo?, indagou Esopo.    <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>Impressionados com a intelig\u00eancia invulgar do servi\u00e7al, ambos os  senhores calaram-se, comovidos, e o velho chefe, no mesmo instante, reconhecendo  o disparate que era ter um homem t\u00e3o s\u00e1bio como escravo, deu-lhe a liberdade.    <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>Esopo aceitou a liberta\u00e7\u00e3o e tornou-se, mais tarde, um contador de  f\u00e1bulas muito conhecido da antig\u00fcidade e cujas hist\u00f3rias at\u00e9 hoje se espalham  por todo o mundo.   <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>***   <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>Clareia e ado\u00e7a tua palavra, para que o  teu verbo n\u00e3o acuse nem fira, ainda mesmo na hora da consagra\u00e7\u00e3o da verdade. Fala pouco. Pensa muito. Sobretudo, faze o bem. A palavra sem  a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o esclarece a ningu\u00e9m.  <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>(Colabora\u00e7\u00e3o de Guido Heleno)  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esopo era um escravo de rara intelig\u00eancia que servia \u00e0 casa de um conhecido chefe militar da antiga Gr\u00e9cia. 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