{"id":3636,"date":"2009-03-23T00:00:00","date_gmt":"2009-03-23T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/excelencias_e_senhorias\/"},"modified":"2009-03-23T00:00:00","modified_gmt":"2009-03-23T03:00:00","slug":"excelencias_e_senhorias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/excelencias_e_senhorias\/","title":{"rendered":"Excel\u00eancias e senhorias"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp; <BR> Globo, SBT, Record &amp; cia. perdem audi\u00eancia dia ap\u00f3s dia. N\u00e3o h\u00e1 novela nem programa humor\u00edstico capazes de concorrer com o reality show da C\u00e2mara e do Senado. O Legislativo est\u00e1 no olho do furac\u00e3o.&nbsp;Den\u00fancias pintam de todos os lados. Contradi\u00e7\u00f5es, l\u00e1grimas, jogos de cena \u2014 tudo tem vez no palco parlamentar. De todas as manobras, um pormenor chama a aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 o tratamento. Vossa Excel\u00eancia e Vossa Senhoria trombam a torto e a direito. <BR> &nbsp; Presidente, deputado, senador, ministro, prefeito t\u00eam sangue azul. Recebem o tratamento de excel\u00eancia. Os demais mortais \u2014 professores, diretores, advogados, m\u00e9dicos, engenheiros, comerciantes \u2014 pertencem \u00e0 plebe. Sem pedigree, n\u00e3o passam de senhoria. \u00c9 a\u00ed que a porca torce o rabo. No calor dos debates, muitos&nbsp;metem os p\u00e9s pelas m\u00e3os. Senhorias viram excel\u00eancias. Seu se transforma em vosso.  <BR> &nbsp; Descoberto o trope\u00e7o, a rea\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre a mesma: <BR> &nbsp; \u2014 Vossa Excel\u00eancia\u2026 desculpe.. melhor\u2026 quer dizer\u2026 isto \u00e9\u2026 Vossa Senhoria\u2026  <BR> &nbsp; Telespectadores riem e aguardam a nova v\u00edtima. N\u00e3o esperam muito. Minutinhos depois, outro parlamentar cai na armadilha. Apostas correm soltas. Quem ser\u00e1 o pr\u00f3ximo? Quantos minutos levar\u00e1? Dizem que Gl\u00f3ria Perez \u00e9 fiel espectadora da TV C\u00e2mara e da TV Senado. Busca inspira\u00e7\u00e3o para escrever os folhetins. <BR> &nbsp; <STRONG>Dos tempos da realeza <BR><\/STRONG> &nbsp; A hist\u00f3ria dos pronomes de tratamento vem de longe. Come\u00e7ou no s\u00e9culo XII. Exatamente em 1143, quando Portugal se tornou reino independente. Afonso Henriques, o primeiro rei, se sentia-se t\u00e3o poderoso que dizia: <BR> &nbsp; \u2014 Deus sou eu. <BR> &nbsp; Era proibido dirigir-se a ele. Quem ousasse, perdia a cabe\u00e7a. Da\u00ed, bem antes da guilhotina, surgiu o verbo decapitar. O triss\u00edlabo significa cortar a cabe\u00e7a. Como fazer? Se, no auge da paix\u00e3o, a amada dizia ao rei, &#8220;te amo&#8221;, a cabe\u00e7a dela rolava\u2026com peruca e tudo. Se o m\u00e9dico perguntava ao soberano o que estava sentindo, n\u00e3o recebia reposta. A degola vinha antes. E o ministro da Fazenda? Como saber se podia aumentar os impostos? <BR> &nbsp; <STRONG>O jeitinho<\/STRONG> <BR> &nbsp; O Conselho de S\u00e1bios se reuniu. Nasceu a\u00ed o jeitinho. A m\u00e1gica era esta: ningu\u00e9m falaria ao rei, mas \u00e0 majestade do rei. Cham\u00e1-lo-iam de Vossa Majestade. As pessoas se dirigiriam ao rei sem se dirigir a ele: <BR> &nbsp; \u2014 Eu amo Vossa Majestade, dizia a namorada olhando o rei nos olhos.  <BR> &nbsp; Nas cartas cheias de suspiros, escrevia aos amigos: &#8220;Eu amo Sua Majestade&#8221;. O rei ficou feliz. Os puxa-sacos, que existiam desde ent\u00e3o, come\u00e7aram a inventar pronomes. Nasceram ent\u00e3o Vossa Excel\u00eancia, Vossa Senhoria, Vossa Emin\u00eancia, Vossa Magnific\u00eancia. E por a\u00ed vai. <BR> &nbsp; Era um barato. Os bajuladores n\u00e3o se dirigiam ao rei. Mas \u00e0 excel\u00eancia do rei, \u00e0 senhoria do rei, \u00e0 emin\u00eancia do rei. Depois, os pronomes se especializaram. Reitor ficou com magnific\u00eancia. Cardeais abocanharam emin\u00eancia. Papa preferiu santidade. Altas autoridades adotaram excel\u00eancia. E assim por diante. Para azar nosso, que precisamos memoriz\u00e1-los at\u00e9 hoje. <BR> &nbsp; <STRONG>Concord\u00e2ncia <BR><\/STRONG> &nbsp; \u2014 Vossa Majestade \u00e9 divino. Sou sua f\u00e3 at\u00e9 debaixo d\u2019\u00e1gua, dizia a futura rainha.  <BR> Reparou? A namorada sabida fazia a concord\u00e2ncia como manda a gram\u00e1tica. Os pronomes de tratamento levam o verbo e os pronomes para a terceira pessoa. Por isso, nunca, nunca mesmo, se usa vosso com eles. <BR> &nbsp; E o adjetivo? N\u00e3o deveria concordar com majestade, substantivo feminino? Sim. Mas quem ousaria chamar o rei, t\u00e3o mach\u00e3o, de divina? Deu-se outro jeitinho. Criou-se a silepse. A figura permite seja feita a concord\u00e2ncia com a id\u00e9ia, n\u00e3o com a palavra. O adjetivo concordaria com o sexo da pessoa, n\u00e3o com o substantivo. Da\u00ed a rainha ter usado divino, n\u00e3o divina. <BR> &nbsp; <STRONG>Efeitos do calend\u00e1rio<\/STRONG> <BR> &nbsp; A grafia dos pronomes sofreu os efeitos do calend\u00e1rio. Nos tempos do rei, as pessoas escreviam \u00e0 m\u00e3o. A abreviatura era feita com o azinho em cima e, abaixo dele, o ponto (V.Ex\u00aa.) Com a m\u00e1quina de datilografia, o tra\u00e7o substituiu o ponto (V.Ex\u00aa). Alguns programas de computador n\u00e3o t\u00eam o azinho. Escrevem-no na mesma linha seguido de ponto (V.Exa.).  <BR> &nbsp; O Manual de reda\u00e7\u00e3o da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica p\u00f5e ponto final na briga. Pro\u00edbe a abreviatura do pronome de tratamento. A regra vale para o Poder Executivo. S\u00f3. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Globo, SBT, Record &amp; cia. perdem audi\u00eancia dia ap\u00f3s dia. N\u00e3o h\u00e1 novela nem programa humor\u00edstico capazes de concorrer com o reality show da C\u00e2mara e do Senado. O Legislativo est\u00e1 no olho do furac\u00e3o.&nbsp;Den\u00fancias pintam de todos os lados. Contradi\u00e7\u00f5es, l\u00e1grimas, jogos de cena \u2014 tudo tem vez no palco parlamentar. De todas as manobras, um pormenor chama a aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 o tratamento. 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