{"id":3662,"date":"2009-06-18T00:00:00","date_gmt":"2009-06-18T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/adeus_aos_mortos\/"},"modified":"2009-06-18T00:00:00","modified_gmt":"2009-06-18T03:00:00","slug":"adeus_aos_mortos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/adeus_aos_mortos\/","title":{"rendered":"Adeus aos mortos"},"content":{"rendered":"<p>Mensagem<\/p>\n<div> <a name=\"Save1\"><\/a>  <\/p>\n<p>Dad Squarisi \/\/ dadsquarisi.df@@diariosassociados.com.br  <\/p>\n<p>O acidente da Air France matou 228 pessoas. Muitos pensavam que os corpos  ficariam pra sempre no fundo do mar. Enganaram-se. Cinquenta emergiram. Os  outros teimam em permanecer onde est\u00e3o. A cada dia torna-se mais dif\u00edcil obter  algum resultado nas buscas. Logo os encarregados da procura bater\u00e3o ponto final.  Eis a quest\u00e3o: como dizer \u00e0s fam\u00edlias que n\u00e3o ter\u00e3o not\u00edcias de seus mortos?  <\/p>\n<p>A simples suspeita da desist\u00eancia provocou protestos. Explica-se. Em todas as  culturas, os vivos n\u00e3o podem se furtar ao dever de dar descanso \u00e0s almas. Cada  uma, a seu modo, vive o rito de passagem. O tema, ali\u00e1s, mereceu belas p\u00e1ginas  da literatura. O drama de Ant\u00edgona, filha de \u00c9dipo e Jocasta (da trag\u00e9dia  <i>\u00c9dipo Rei<\/i>), se resume \u00e0 luta para salvar o irm\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de  insepulto. Seus dois irm\u00e3os, Polinice e Et\u00e9ocles, matam-se um ao outro. Creonte  pro\u00edbe o enterro de Polinice. Ela vai \u00e0 luta. N\u00e3o mede esfor\u00e7os at\u00e9 cobrir o  cad\u00e1ver com um pouco de terra &#8220;para afastar o horror&#8221;.  <\/p>\n<p>King Richard II, de Shakespeare, exclama: &#8220;Toda a extens\u00e3o do meu reino por  uma pequena sepultura, uma pequena, pequenina sepultura, uma ignorada  sepultura&#8221;. A maldi\u00e7\u00e3o do pai, em <i>I-Juca-Pirama<\/i>, de Gon\u00e7alves Dias, recai  na priva\u00e7\u00e3o da sepultura. Pensando que o filho havia chorado de medo, o velho  guerreiro joga-lhe uma s\u00e9rie de pragas. A pior: &#8220;Um amigo n\u00e3o tenhas piedoso \/  que teu corpo na terra embalsame \/ Pondo um vaso d\u00b4argila cuidosos \/ Arco e  flecha e tacape a teus p\u00e9s&#8221;.  <\/p>\n<p>No tempo das Cruzadas, quando morria um cavaleiro crist\u00e3o em terra de mouros,  uma provid\u00eancia se impunha. O corpo era picado e fervido num caldeir\u00e3o at\u00e9 a  carne se destacar dos ossos, os \u00fanicos a voltarem \u00e0 p\u00e1tria. L\u00e1 deveriam receber  sepultura digna. O cancioneiro popular guardou a mem\u00f3ria do remoto costume:  &#8220;B\u00e3o, ba-la-b\u00e3o, \/ Senhor capit\u00e3o, \/ Em terra de mouro \/ Morreu seu irm\u00e3o \/  Cozido e assado \/ No seu caldeir\u00e3o.  <\/p>\n<p>Resta a pergunta: o fundo do mar ser\u00e1 morada digna? Digo que sim. As fam\u00edlias  das v\u00edtimas do voo 447 talvez concordem. Mas a dor da perda \u00e9 t\u00e3o grande que  custa aceitar o nunca mais. Fica, ent\u00e3o, a esperan\u00e7a. Enquanto n\u00e3o se d\u00e1 adeus  ao corpo, o ente querido continua a ser esperado. A espera consola. D\u00e1 a  sensa\u00e7\u00e3o de que ele voltar\u00e1.  <\/p>\n<p>(artigo publicado na editoria de Opini\u00e3o do Correio Braziliense) <\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mensagem Dad Squarisi \/\/ dadsquarisi.df@@diariosassociados.com.br O acidente da Air France matou 228 pessoas. Muitos pensavam que os corpos ficariam pra sempre no fundo do mar. 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