{"id":3711,"date":"2009-03-31T00:00:00","date_gmt":"2009-03-31T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/rascunhos_novos\/"},"modified":"2009-03-31T00:00:00","modified_gmt":"2009-03-31T03:00:00","slug":"rascunhos_novos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/rascunhos_novos\/","title":{"rendered":"rascunhos novos"},"content":{"rendered":"<p> &nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  &nbsp; Burro com pele de le\u00e3o &nbsp; Um burro muito simp\u00e1tico vivia na floresta. A bicharada gostava muito dele. Adorava lhe tocar o pelo, montar no lombo amigo, acariciar as orelhas um tanto estranhas. Certo dia, o quadr\u00fapede achou uma pele de le\u00e3o. N\u00e3o teve d\u00favidas. Vestiu-a. E passou as assustar os animais do peda\u00e7o. Coelhos, ratos, veados, porcos-espinhos tremiam de medo quando viam a fera. A\u00ed, n\u00e3o dava outra. Fugiam. Feliz com a nova apar\u00eancia, o farsante foi dar uma voltinha. Encontrou um lenhador. No in\u00edcio, o homem levou um baita susto. Depois, viu as duas orelhas esquisitas debaixo do corpo de le\u00e3o. Resultado: ficou com a pele do rei da floresta e ainda deu belas palmadas no fingidor por causa do susto que o mentiroso lhe pregou. Reparou? O mundo est\u00e1 cheinho de gente que quer passar pelo que n\u00e3o \u00e9. A l\u00edngua tamb\u00e9m. Certas palavras se escrevem iguaizinhas a outras. Mas pertencem a classe gramatical diferente e t\u00eam significados diferentes. Como evitar a confus\u00e3o? A criatividade correu solta. Inventa daqui, palpita dali, eureca! Decidiram pelo acento diferencial. Assim, ele p\u00e1ra, do verbo parar, teria o agudo para distingui-lo da preposi\u00e7\u00e3o para (vou para S\u00e3o Paulo).  Eram poucos voc\u00e1bulos. Minoria, todos sabem, n\u00e3o tem for\u00e7a. A reforma ortogr\u00e1fica veio e passou a tesoura em grampos e chap\u00e9us cuja fun\u00e7\u00e3o era distinguir palavras hom\u00f3grafas \u2013 as que se escrevem do mesmo jeitinho, mas n\u00e3o t\u00eam parentesco nem distante. De agora em diante, polo, pera, pelo, pela, para se grafam sem distin\u00e7\u00e3o. Assim: Vou ao Polo Norte jogar partida de polo. O \u00f4nibus que vai para o Rio para aqui. O burro com pele de le\u00e3o arrepiou o pelo dos bichos que passeavam pelo caminho do asno.  Aten\u00e7\u00e3o, muita aten\u00e7\u00e3o. Dois diferenciais permaneceram pra contar a hist\u00f3ria. Um: p\u00f4de, passado do verbo poder. Ele n\u00e3o quer confus\u00e3o com pode, presente. O outro: p\u00f4r. O pequeno escapou porque \u00e9 monoss\u00edlabo. A reforma s\u00f3 atingiu as parox\u00edtonas.  &nbsp; &nbsp; A cerca cerca confus\u00f5es acerca da cerca  &nbsp; &nbsp; Um morcego caiu na toca de uma doninha que detestava ratos. Quando viu o intruso, ela disse: \u2014 Seu rato atrevido, agora voc\u00ea vai ver o que \u00e9 bom. \u2014 Rato eu? Olhe as minhas asas. Sou um p\u00e1ssaro. O morcego escapou. Mas caiu na toca de uma doninha que odiava p\u00e1ssaros. Ela advertiu: \u2014 Cuidado comigo, seu p\u00e1ssaro metido! \u2014 P\u00e1ssaro eu? N\u00e3o tenho penas. Sou um rato. De novo, salvou a pele. &nbsp; Ser flex\u00edvel \u00e9 pra l\u00e1 de bom. A gente se adapta com facilidade e experimenta coisas novas.  H\u00e1 palavras que sabem disso. <I>Cerca<\/I> \u00e9 um exemplo. Com a mesma cara deslavada, pode ser verbo, substantivo ou adv\u00e9rbio. E, com uma letra a mais, vira preposi\u00e7\u00e3o. Para saber qual \u00e9 a dela, s\u00f3 h\u00e1 uma sa\u00edda: prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 frase em que a camaleoa aparece. &nbsp; O verbo n\u00e3o d\u00e1 trabalho. <I>Cerca <\/I>\u00e9 a terceira pessoa do singular do presente do indicativo de cercar (eu cerco, tu cercas, ele cerca): <I>Paulo cerca o s\u00edtio com arame farpado.<\/I>  &nbsp; O rolo se arma com as outras acep\u00e7\u00f5es. A causa da confus\u00e3o \u00e9 a crase. Quando us\u00e1-la? Como substantivo, <I>cerca<\/I> recebe tratamento igual ao dos irm\u00e3ozinhos dele. Aceita o artigo (a cerca). Por isso pode vir antecedido de crase: <I>Dirigiu-se \u00e0 cerca do vizinho. Foi \u00e0 cerca da casa do irm\u00e3o para medir o terreno.<\/I> <I><\/I>&nbsp; Na d\u00favida, aplique o velho truque. Substitua a palavra feminina (no caso, cerca) por uma masculina (n\u00e3o precisa ser sin\u00f4nima). Se na troca aparecer ao, n\u00e3o duvide. Ponha crase no a. Veja a aplica\u00e7\u00e3o da m\u00e1gica nas frases anteriores: <I>Dirigiu-se ao terreno do vizinho. Foi ao jardim do irm\u00e3o para medir o terreno.<\/I> &nbsp; Quando adv\u00e9rbio, cerca significa <I>aproximadamente<\/I>. A\u00ed, nada de crase. Por qu\u00ea? Adv\u00e9rbio n\u00e3o se usa com artigo: Daqui a cerca de (aproximadamente) duas horas ele vai chegar. Maria saiu h\u00e1 cerca de (aproximadamente) 10 minutos.&nbsp; &nbsp; Ops! E o acerca? \u00c9 moleza que s\u00f3. Quer dizer sobre, a respeito: Essa superdica cerca as dificuldades acerca de quest\u00e3o que d\u00e1 n\u00f3 nos miolos h\u00e1 cerca de mil anos. Com a cerca, a alternativa \u00e9 uma s\u00f3 \u2013 acertar ou acertar.  &nbsp; Latim, pra que te quero? &nbsp; Expulsaram o latim da escola h\u00e1 meio s\u00e9culo. N\u00e3o adiantou. Teimosa, a linguinha bate \u00e0 nossa porta sem cerim\u00f4nia. Na televis\u00e3o, o ministro diz que \u00e9 demiss\u00edvel ad nutum. O jornal anuncia que o presidente recebeu o t\u00edtulo de doutor honoris causa. O advogado afirma que vai entrar com pedido de habeas corpus em favor do cliente.  &nbsp; Mais: a placa do restaurante ostenta o nome Carpe Diem. O professor pede: \u201cEscreva assim, ipsis literis\u201d. O rep\u00f3rter considera sui generis a rea\u00e7\u00e3o do candidato. O diplomata foi tratado como persona non grata. Dura lex, sed lex, consola o juiz. &nbsp; Criaturas t\u00e3o \u00edntimas merecem tratamento respeitoso. A rever\u00eancia imp\u00f5e duas condi\u00e7\u00f5es. Uma: graf\u00e1-las como manda a norma culta. A outra: dominar-lhes o significado. Vamos l\u00e1? &nbsp; Ad nutum quer dizer \u00e0 vontade. O empregado sem estabilidade pode ser demitido segundo o humor do patr\u00e3o &#8212; a qualquer momento. &nbsp; Honoris causa significa pela honra. Para ostentar o t\u00edtulo de doutor, a maioria dos mortais tem de ralar. Mas pessoas ilustres podem chegar l\u00e1 sem exame. Tornam-se doutores honoris causa. &nbsp; Habeas corpus \u00e9 o nome da lei inglesa que garante a liberdade individual. Em portugu\u00eas: que tenhas o corpo livre para te apresentares ao tribunal. &nbsp; Carpe Diem d\u00e1 o recado: aproveita o dia de hoje. A vida \u00e9 curta; a morte, certa. &nbsp; Ipsis literis tem a acep\u00e7\u00e3o de textualmente &#8212; sem tirar nem p\u00f4r. &nbsp; Sui generis: \u00edmpar, sem igual. &nbsp; Persona non grata: usada em linguagem diplom\u00e1tica para dizer que a pessoa n\u00e3o \u00e9 bem-aceita por um governo estrangeiro. Pessoa que n\u00e3o \u00e9 bem-vinda. &nbsp; Dura lex sed lex? Est\u00e1 na cara, n\u00e3o? \u00c9 isso mesmo. A lei \u00e9 dura, mas \u00e9 lei. &nbsp; Reparou? As express\u00f5es latinas n\u00e3o t\u00eam acento nem h\u00edfen. Se aparecer um ou outro, elas perdem a originalidade. Entram, ent\u00e3o, na vala comum do portugu\u00eas nosso de todos os dias. Compare: via crucis e via-cr\u00facis. &nbsp; &nbsp; Ia ao encontro do pai, mas foi de encontro \u00e0 \u00e1rvore &nbsp; De encontro? Ao encontro? Cuidado! As duas express\u00f5es se parecem, mas n\u00e3o se confundem. Uma \u00e9 o contr\u00e1rio da outra. Trocar as bolas s\u00f3 traz preju\u00edzo. Exemplos n\u00e3o faltam. Na campanha para a reelei\u00e7\u00e3o de Fernando Henrique, o programa sobre os avan\u00e7os da educa\u00e7\u00e3o foi o ponto alto. Depois de mostrar escolas que fazem inveja \u00e0 Su\u00e9cia e \u00e0 Dinamarca, o ministro disse: \u201cA educa\u00e7\u00e3o vai de encontro \u00e0s expectativas da sociedade\u201d. Dizem que FHC n\u00e3o perdeu a elei\u00e7\u00e3o naquele momento porque era s\u00e1bado. Os eleitores estavam com os sentidos na caipirinha e na feijoada.&nbsp; &nbsp;  <BR> <BR>Mais um exemplo? Voc\u00ea manda. O amado chega para a amada. Voz embargada de paix\u00e3o, sussurra-lhe ao ouvido: \u201cVoc\u00ea veio de encontro aos meus sonhos\u201d. Dita a ins\u00e2nia, s\u00f3 lhe restam duas esperan\u00e7as. Uma: que a bela seja surda. A outra: que se fa\u00e7a de surda. Afinal, o cora\u00e7\u00e3o tem raz\u00f5es que a pr\u00f3pria raz\u00e3o desconhece. Mas \u00e9 bom n\u00e3o facilitar. A psicologia amorosa avan\u00e7a dia ap\u00f3s dia. \u00daltima descoberta: o amor \u00e9 cego, mas n\u00e3o \u00e9 surdo. Olho vivo.  <BR> <BR><I>De encontro a<\/I> significa <I>contra, no sentido contr\u00e1rio, em contradi\u00e7\u00e3o<\/I>: <I>O carro foi de encontro \u00e0 \u00e1rvore. A reforma da Previd\u00eancia vai de encontro aos interesses dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos. Dos inativos, ent\u00e3o, nem se fala. A queda do d\u00f3lar vai de encontro \u00e0s expectativas dos exportadores.<\/I>  <BR> <BR><I>Ao encontro de<\/I> joga em outro time. Quer dizer <I>em favor de, na dire\u00e7\u00e3o de<\/I>: <I>O pai caminhou ao encontro do filho. A iniciativa do governo vai ao encontro da necessidade dos sem-teto. A redu\u00e7\u00e3o no pre\u00e7o da gasolina viria ao encontro do bolso dos consumidores.<\/I>  <BR> <BR>Moral da hist\u00f3ria: parecido n\u00e3o \u00e9 igual. Mas confunde. &nbsp; &nbsp; Em vez de pode ser ao inv\u00e9s de &nbsp; Maria concluiu o curso de direito. Recebeu o canudo e partiu pra luta. Teve sorte. Nos classificados, uma grande empresa recrutava advogados. Ela mandou o curr\u00edculo. Poucos dias depois, recebeu o convite para entrevista. &nbsp; Elegante, maquiagem discreta e cabe\u00e7a cheia de id\u00e9ias, l\u00e1 foi ela, feliz da vida. No bate-papo com o examinador, foi curta e grossa: &nbsp; &#8211; Ao inv\u00e9s de sal\u00e1rio alto, luto por boas condi\u00e7\u00f5es de trabalho e aperfei\u00e7oamento profissional. &nbsp; Cala-te, boca. Dizem que s\u00f3 12 pessoas sabem o significado de ao inv\u00e9s de. Uma delas \u00e9 o examinador. A\u00ed, n\u00e3o d\u00e1 outra. Adeus, oportunidade! Adeus, sonhos longamente acalentados! Adeus, adeus, adeus! &nbsp; Como evitar a esparrela? S\u00f3 h\u00e1 um caminho &#8212; entender as manhas de duas locu\u00e7\u00f5es. Uma: ao inv\u00e9s de. A outra: em vez de. Embora parecidas, elas s\u00e3o ilustres estranhas. A semelhan\u00e7a funciona como armadilha que pega os desavisados pelo p\u00e9. Pra n\u00e3o cair na cilada, guarde isto: &nbsp; <I>Ao inv\u00e9s de<\/I> significa <I>ao contr\u00e1rio de<\/I>. \u00c9 contr\u00e1rio mesmo, oposi\u00e7\u00e3o: <I>Saiu ao inv\u00e9s de ficar em casa. Comeu ao inv\u00e9s de jejuar. H\u00e1 religi\u00f5es que pregam a morte ao inv\u00e9s de pregar a vida. <\/I> &nbsp; Nas demais acep\u00e7\u00f5es, &nbsp;n\u00e3o duvide. Use em vez de. As tr\u00eas letrinhas querem dizer em lugar de, em substitui\u00e7\u00e3o a: <I>Comeu frango em vez de peixe. Em vez de ir ao teatro, foi ao cinema. Convidou Paula em vez de C\u00e9lia.<\/I> &nbsp; Eis o recado que Maria quis dar.  &nbsp; &#8212; Em vez de sal\u00e1rio alto, luto por boas condi\u00e7\u00f5es de trabalho e aperfei\u00e7oamento profissional. &nbsp; Vamos combinar? Sal\u00e1rio alto n\u00e3o \u00e9 o contr\u00e1rio de boas condi\u00e7\u00f5es de trabalho e aperfei\u00e7oamento profissional. Concorda? &nbsp; Dica pra l\u00e1 de \u00fatil:: deixe o ao inv\u00e9s de pra l\u00e1. A locu\u00e7\u00e3ozinha em vez de o substitui com galhardia. Ela vale por dois: Comeu em vez de jejuar. Em vez da carta, o carteiro entregou o pacote. Bobeou. &nbsp; &nbsp; &nbsp; <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp; Burro com pele de le\u00e3o &nbsp; Um burro muito simp\u00e1tico vivia na floresta. A bicharada gostava muito dele. Adorava lhe tocar o pelo, montar no lombo amigo, acariciar as orelhas um tanto estranhas. Certo dia, o quadr\u00fapede achou uma pele de le\u00e3o. N\u00e3o teve d\u00favidas. Vestiu-a. E passou as assustar os animais do peda\u00e7o. Coelhos, ratos, veados, porcos-espinhos tremiam de medo quando [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-3711","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3711","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3711"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3711\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3711"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3711"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3711"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}