{"id":3744,"date":"2009-11-01T00:00:00","date_gmt":"2009-11-01T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/a_indesejada_das_gentes\/"},"modified":"2009-11-01T00:00:00","modified_gmt":"2009-11-01T02:00:00","slug":"a_indesejada_das_gentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/a_indesejada_das_gentes\/","title":{"rendered":"A indesejada das gentes"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/wp-content\/uploads\/blog-dad\/c7f8539471c8d16fbe860b2263b4d938.jpg\">   <\/p>\n<p><b><\/b><b>&nbsp;<\/b>Amanh\u00e3 \u00e9 Dia de Finados. Os vivos homenagear\u00e3o os que foram  na frente. Nem todos obedecem ao mesmo ritual. Os mexicanos, por exemplo,  promovem bailes nos cemit\u00e9rios. Os japoneses preparam a comida mais apreciada  pelos mortos, trancam-se em casa e se banqueteiam. Os brasileiros visitam os  t\u00famulos, fazem preces e levam flores.     <\/p>\n<p>Uns se contentam com flores solit\u00e1rias. Outros preferem  quantidade. Escolhem vasos, buqu\u00eas ou bra\u00e7adas. \u00c9 a\u00ed que mora a d\u00favida. A gente  diz vaso de flor ou vaso de flores? Buqu\u00ea de rosa ou buqu\u00ea de rosas? Bra\u00e7ada de  margarida ou bra\u00e7ada de margaridas? A resposta \u00e9 sempre plural \u2014 vaso de flores,  buqu\u00ea de rosas, bra\u00e7ada de margaridas. Por qu\u00ea? O vaso tem mais de uma flor. O  buqu\u00ea, mais de uma rosa. A bra\u00e7ada, mais de uma margarida. L\u00f3gico, n\u00e3o?  <b> <\/b><b>&nbsp;<\/b> <b>Que med\u00e3o!<\/b>    <\/p>\n<p>Muita gente n\u00e3o pronuncia a palavra morte nem a pedido do  Senhor. Um deles \u00e9 Manuel Bandeira. Ele falou em &#8220;a indesejada das gentes&#8221;.  Guimar\u00e3es Rosa disse que a gente n\u00e3o morre. &#8220;Fica encantada&#8221;. \u00c1lvaro Moreira  escolheu &#8220;ir na frente&#8221;. O povo n\u00e3o se aperta. Apela para ocaso, partida,  passamento, tr\u00e2nsito, viagem, passar desta pra melhor, ir para a companhia do  Senhor. O malandro esconde o medo atr\u00e1s da goza\u00e7\u00e3o. Diz bater as botas, espichar  a canela, vestir terno de madeira.     <\/p>\n<p>Moral da hist\u00f3ria: as denomina\u00e7\u00f5es t\u00eam um denominador comum.  S\u00e3o eufemismos.<b> <\/b><b>&nbsp;<\/b> <b>Palavra adocicada<\/b>    <\/p>\n<p>Eufemismo, eutan\u00e1sia e eufonia t\u00eam a mesma origem. S\u00e3o  gregas. Meio-irm\u00e3s, as tr\u00eas exibem o prefixo eu-. O pequenino \u00e9 gente fina. Quer  dizer bom ou bem. Eutan\u00e1sia significa boa morte. Eufonia, o bom soar das  palavras. Eufemismo, a melhora na acep\u00e7\u00e3o do termo.    <\/p>\n<p>Por que recorrer ao eufemismo? Muitos acreditam que as  palavras t\u00eam fun\u00e7\u00e3o m\u00e1gica. Se negativas, t\u00eam efeito negativo. Falou? N\u00e3o d\u00e1  outra. Atraiu. Disse diabo? Valha-nos, Deus! O capeta aparece. Pronunciou  c\u00e2ncer? Melhor se benzer, ou bater na madeira. Pra n\u00e3o correr riscos, melhor  ficar com as iniciais <i>ca<\/i>. Fazer o qu\u00ea? O jeito \u00e9 adocicar o termo \u2014  buscar voc\u00e1bulos ou express\u00f5es mais brandos pra exprimir a mesma ideia. &#8220;As  palavras&#8221;, diz Cam\u00e9lia Dib, &#8220;s\u00e3o t\u00e3o fortes que viram verdade. Por isso s\u00f3 diga  ou pense palavras boas, generosas, de alto astral.&#8221;<b> <\/b><b>&nbsp;<\/b> <b>O enigma<\/b>    <\/p>\n<p>Por que se morre? Respostas n\u00e3o faltam. Africanos t\u00eam uma  pra l\u00e1 de original: &#8220;A gente nasce com um mont\u00e3o de palavras na barriga. Na  vida, vai falando e gastando o estoque. Quando todas acabam, a gente  morre.&#8221;<b> <\/b><b>&nbsp;<\/b> <b>Nossos e vossos<\/b>    <\/p>\n<p>Epit\u00e1fio? \u00c9 a inscri\u00e7\u00e3o que aparece nas l\u00e1pides. A palavra  nasceu na Gr\u00e9cia. Deu uma voltinha em Roma. E chegou aqui. Tem duas partes. Uma:  epi, que significa acima. A outra: t\u00e1phos, que quer dizer t\u00famulo. A prop\u00f3sito,  Machado de Assis escreveu: &#8220;Gosto dos epit\u00e1fios; eles s\u00e3o, entre a gente  civilizada, uma express\u00e3o daquele pio e secreto ego\u00edsmo que induz o homem a  arrancar \u00e0 morte um farrapo ao menos da sombra que passou&#8221;.     <\/p>\n<p>Um gozador n\u00e3o deixou por menos: &#8220;Se os mortos pudessem ler  os epit\u00e1fios que seus herdeiros lhes consagram, achariam que entraram no  cemit\u00e9rio errado&#8221;. Sabatier confirmou: &#8220;Uma crian\u00e7a lendo os epit\u00e1fios nos  t\u00famulos de um cemit\u00e9rio perguntou ao pai em que canto do cemit\u00e9rio se enterravam  as pessoas m\u00e1s&#8221;.     <\/p>\n<p>Epit\u00e1fios curiosos? H\u00e1 mont\u00f5es:     <\/p>\n<p>&#8220;Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu  menino.&#8221;     <\/p>\n<p>&#8220;Nada de monumento coberto de elogios. Meu epit\u00e1fio ser\u00e1 meu  nome, nada mais.&#8221; (Lord Byron)    <\/p>\n<p>&#8220;Assassinado por imbecis de ambos os sexos.&#8221; (Nelson  Rodrigues)    <\/p>\n<p>&#8220;Aqui est\u00e3o meus ossos \u00e0 espera dos vossos.&#8221; (citado por  Mill\u00f4r Fernandes) &nbsp;<b><\/b>   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;Amanh\u00e3 \u00e9 Dia de Finados. Os vivos homenagear\u00e3o os que foram na frente. Nem todos obedecem ao mesmo ritual. Os mexicanos, por exemplo, promovem bailes nos cemit\u00e9rios. Os japoneses preparam a comida mais apreciada pelos mortos, trancam-se em casa e se banqueteiam. Os brasileiros visitam os t\u00famulos, fazem preces e levam flores. Uns se contentam com flores solit\u00e1rias. Outros preferem quantidade. Escolhem vasos, buqu\u00eas ou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-3744","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3744","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3744"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3744\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3744"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3744"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3744"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}