{"id":3768,"date":"2009-04-12T00:00:00","date_gmt":"2009-04-12T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/rito_de_passagem_linguistico\/"},"modified":"2009-04-12T00:00:00","modified_gmt":"2009-04-12T03:00:00","slug":"rito_de_passagem_linguistico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/rito_de_passagem_linguistico\/","title":{"rendered":"Rito de passagem lingu\u00edstico"},"content":{"rendered":"<p>  <BR>&nbsp;  <BR> A mentira, tantas vezes repetida, vira verdade. A vers\u00e3o se torna fato. E a gente acaba acreditando nela. Pol\u00edticos, artistas, pessoas poderosas s\u00e3o eternas v\u00edtimas. Atribuem-lhes declara\u00e7\u00f5es, casamentos, aventuras. As hist\u00f3rias encontram eco em jornais, revistas e tev\u00eas. Ganham coment\u00e1rios em colunas. Suscitam entrevistas. Com um pouco de sorte, sentam-se no sof\u00e1 do J\u00f4 Soares.&nbsp;  <BR>&nbsp;  <BR> Ningu\u00e9m escapa do diz que disse. Nem a l\u00edngua. Certos usos e express\u00f5es adquiriram fama de erradas. \u00c9 o caso de voltar atr\u00e1s, n\u00e3o&#8230; nenhum, taxar. Foge-se delas como senadores de jornalistas. Quem as emprega candidata-se a cr\u00edticas e sorrisos desdenhosos. Que injusti\u00e7a!&nbsp;  <BR>&nbsp;  <BR> \u00c9 hora da verdade. Na P\u00e1scoa, eis o convite. Filhote dos hebreus, a palavra quer dizer passagem. Os pastores n\u00f4mades comemoravam a primavera. Cantavam e dan\u00e7avam pela despedida do inverno. Na nova esta\u00e7\u00e3o, a neve se ia. Os campos se cobriam de pastagens. Os alimentos abundavam.&nbsp;  <BR>&nbsp;  <BR> Mais tarde, os judeus come\u00e7aram a festejar a P\u00e1scoa. Lembram a sa\u00edda do povo de Israel do Egito. Era a passagem da escravid\u00e3o para a liberdade. Em 325, foi a vez dos crist\u00e3os. Eles exaltam a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. Em outras palavras: a passagem da morte para a vida. Agora, n\u00f3s. Chegou a ocasi\u00e3o de desmascarar as falsas verdades. \u00c9 o rito lingu\u00edstico de passagem. Abram-lhe alas.&nbsp;  <BR>&nbsp;  <BR>&nbsp;  <BR> <STRONG>Falsas verdades<\/STRONG>&nbsp;  <BR>&nbsp;  <BR> 1.Voltar atr\u00e1s. \u2018\u2018\u00c9 pleonasmo\u2019\u2019, bradam os repetidores de vers\u00f5es. E explicam: \u2018\u2018Voltar s\u00f3 pode ser atr\u00e1s. Como voltar pra frente?\u2019\u2019&nbsp;  <BR>&nbsp;  <BR> A l\u00f3gica parece perfeita. Mas h\u00e1 um sen\u00e3o. O verbo voltar s\u00f3 adquire o significado de retroceder se estiver acompanhado do atr\u00e1s. \u00c9 diferente do subir pra cima e descer pra baixo. Subir \u00e9 sempre pra cima. Descer pra baixo. Mas voltar nem sempre \u00e9 retroceder.&nbsp;  <BR>&nbsp;  <BR> 2.Taxar x tachar. Essa \u00e9 velha como o rascunho da B\u00edblia. Desde que o mundo \u00e9 mundo, repete-se que taxar significa tributar. \u00c9 meia verdade. A acep\u00e7\u00e3o do verbinho vai al\u00e9m. Atrevido, ele avan\u00e7a no territ\u00f3rio do tachar. A\u00ed, quer dizer avaliar, julgar, qualificar: Taxou a apresenta\u00e7\u00e3o de perfeita. Taxou-o de ignorante. Taxou o assessor de corrupto.&nbsp;  <BR>&nbsp;  <BR> Duvida, criatura sem f\u00e9? Banque o S\u00e3o Tom\u00e9. Consulte o dicion\u00e1rio. Depois, respire fundo. Voc\u00ea sabe que tr\u00eas coisas n\u00e3o podem falhar. Uma delas: luz na sala de cirurgia. Outra: o amado no encontro amoroso. A \u00faltima: a corre\u00e7\u00e3o do pai de todos n\u00f3s.&nbsp;  <BR>&nbsp;  <BR> 3. N\u00e3o &#8230; nenhum. Os inimigos da duplinha apresentam suas raz\u00f5es. Dizem que as duas negativas s\u00e3o redund\u00e2ncia. Com agravante: junto, o casal deixa de ser nega\u00e7\u00e3o. Vira afirma\u00e7\u00e3o.&nbsp;  <BR>&nbsp;  <BR> Falsa verdade. O parzinho \u00e9 filho leg\u00edtimo da linguinha nossa de todos os dias. Um dos empregos do nenhum exige a companhia da negativa anterior. Veja: N\u00e3o h\u00e1 nenhum projeto conclu\u00eddo na \u00e1rea social. N\u00e3o houve nenhum atentado durante a semana santa.  <BR>N\u00e3o vi filme nenhum. Fez as grava\u00e7\u00f5es sem que nenhum entrevistado o tenha visto.&nbsp;  <BR>&nbsp;  <BR> Quem n\u00e3o gosta da estrutura casada tem sa\u00eddas. Uma delas: trocar o nenhum pelo algum. A\u00ed, se livra das duas negativas: N\u00e3o existe projeto algum conclu\u00eddo na \u00e1rea social. N\u00e3o houve atentado algum durante a semana santa. N\u00e3o vi filme algum. Fez as grava\u00e7\u00f5es sem que entrevistado algum o tenha visto.&nbsp;  <BR>&nbsp;  <BR> Conclus\u00e3o: a l\u00edngua \u00e9 um conjunto de possibilidades. A gente pode nadar de bra\u00e7adas. Basta uma dose de coragem. E ousadia.  <BR>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; A mentira, tantas vezes repetida, vira verdade. A vers\u00e3o se torna fato. E a gente acaba acreditando nela. Pol\u00edticos, artistas, pessoas poderosas s\u00e3o eternas v\u00edtimas. Atribuem-lhes declara\u00e7\u00f5es, casamentos, aventuras. As hist\u00f3rias encontram eco em jornais, revistas e tev\u00eas. Ganham coment\u00e1rios em colunas. Suscitam entrevistas. Com um pouco de sorte, sentam-se no sof\u00e1 do J\u00f4 Soares.&nbsp; &nbsp; Ningu\u00e9m escapa do diz que disse. 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