{"id":3995,"date":"2009-05-08T00:00:00","date_gmt":"2009-05-08T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/literatura_e_experiencia_de_deus\/"},"modified":"2009-05-08T00:00:00","modified_gmt":"2009-05-08T03:00:00","slug":"literatura_e_experiencia_de_deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/literatura_e_experiencia_de_deus\/","title":{"rendered":"Literatura e experi\u00eancia de Deus"},"content":{"rendered":"<p><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>FREI BETTO  <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Escritor, autor, em&nbsp; parceria com Marcelo Barros, de O amor fecunda o universo \u2013 ecologia e&nbsp; espiritualidade (Agir), entre outros livros. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Pela literatura, o verbo se faz carne. Embora&nbsp; a m\u00fasica seja, na minha opini\u00e3o, a mais sublime das artes, a literatura \u00e9 a&nbsp; mais sagrada. Deus a escolheu para, atrav\u00e9s dela, se revelar a n\u00f3s. Escolheu&nbsp; uma escrita, a sem\u00edtica, e um g\u00eanero pr\u00f3ximo da fic\u00e7\u00e3o, pois em toda a B\u00edblia n\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica aula de teologia, um ensaio doutrin\u00e1rio, um texto conceitual.&nbsp; \u00c9 toda ela uma narrativa pict\u00f3rica \u2013 v\u00ea-se o que se l\u00ea. &nbsp; <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Os livros b\u00edblicos re\u00fanem uma sucess\u00e3o de fatos hist\u00f3ricos e aleg\u00f3ricos (par\u00e1bolas, met\u00e1foras, aforismos), entremeados de genealogias, axiomas, prov\u00e9rbios, poemas (C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos e&nbsp; Salmos) e detalhes t\u00e9cnicos e ornamentais (a constru\u00e7\u00e3o do Templo cf. 2 Cr\u00f4nicas). <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Como frisa Herbert Schneidau, a B\u00edblia pode ser&nbsp; considerada \u201cprosa de fic\u00e7\u00e3o historicizada\u201d. Historicizada porque se distancia&nbsp; do universo das lendas e dos mitos, embora haja mat\u00e9ria-prima lend\u00e1ria&nbsp; subjacente ao G\u00eanesis no relato sobre Davi, na saga de J\u00f3 e em parte&nbsp; dos Livros dos reis.  <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Os autores b\u00edblicos se afastaram, deliberadamente, do&nbsp; g\u00eanero \u00e9pico (Homero e Virg\u00edlio), o que se explica pela rejei\u00e7\u00e3o do&nbsp; polite\u00edsmo. O que impregna a escrita b\u00edblica \u00e9 o senso de historicidade. Ela&nbsp; rompe com a circularidade do mundo mitol\u00f3gico e apresenta-nos um Deus que tem&nbsp; hist\u00f3ria: Jav\u00e9, o Deus de Abra\u00e3o, Isaac e Jac\u00f3. Nela a historicidade se faz&nbsp; presente na descri\u00e7\u00e3o dos cinco primeiros dias da cria\u00e7\u00e3o, antes do surgimento&nbsp; daquele que viria a ser considerado o protagonista do processo hist\u00f3rico: o&nbsp; ser humano. H\u00e1 uma evolu\u00e7\u00e3o, simbolizada na sucess\u00e3o dos seis&nbsp; dias. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>O que faz de n\u00f3s imagem e semelhan\u00e7a de&nbsp; Deus \u00e9 a capacidade de amar e a linguagem. Animais tamb\u00e9m amam, tanto que&nbsp; certos p\u00e1ssaros, como os pardais, se mant\u00eam fi\u00e9is ap\u00f3s se acasalarem. Mas&nbsp; somente o ser humano possui um n\u00edvel de consci\u00eancia que lhe permite ordenar e&nbsp; expressar sentimentos, emo\u00e7\u00f5es, intui\u00e7\u00f5es e afetos. Isso nos faz semelhan\u00e7a&nbsp; divina. Deus \u00e9 amor e seu afeto por n\u00f3s se manifesta na linguagem contida na&nbsp; narrativa b\u00edblica e na epifania do verbo que, entre n\u00f3s, se fez carne. &nbsp; <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>A escrita \u00e9 uma forma de tentar organizar o caos&nbsp; interior. Por isso, todo artista \u00e9 clone de Deus. A escrita \u00e9 terap\u00eautica, libertadora. H\u00e9lio Pellegrino, psicanalista, atribu\u00eda a minha sanidade mental&nbsp; no decorrer de meus anos de pris\u00e3o ao fato de eu ter literalizado a vida de&nbsp; cadeia. O meu mundo \u00e9 recriado quando lan\u00e7o m\u00e3o de voc\u00e1bulos e regras&nbsp; sint\u00e1ticas para dar forma e express\u00e3o ao que penso e sinto. Assim,&nbsp; transubstancio a realidade, projeto-me em algo que, fora de mim, n\u00e3o sou eu e,&nbsp; no entanto, traduz o meu perfil interior de um modo que eu jamais conseguiria&nbsp; pela simples fala. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>A escrita constitui uma forma de ora\u00e7\u00e3o, como bem&nbsp; sabia o salmista. A experi\u00eancia de Deus antecede e ultrapassa a escrita. No entanto, o pouco que dela se sabe \u00e9 por meio da escrita; raras vezes por&nbsp; experi\u00eancia pessoal. Grandes m\u00edsticos, como Buda, Jesus e Maom\u00e9, nada&nbsp; escreveram. O que sabemos deles e de seus ensinamentos \u00e9 gra\u00e7as a quem teve o trabalho de redigir. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Ainda que o pr\u00f3prio m\u00edstico possa faz\u00ea-lo, como s\u00e3o&nbsp; exemplos Plotino, Mestre Eckhart e Charles de Foucauld, h\u00e1 um momento em que a&nbsp; experi\u00eancia de Deus ultrapassa os limites da palavra. \u00c9 inef\u00e1vel. Como diz&nbsp; Ad\u00e9lia Prado, \u201cSe um dia puder, nem escrevo um livro\u201d (C\u00edrculo). \u201cN\u00e3o&nbsp; me importa a palavra, esta corriqueira, \/ Quero \u00e9 o espl\u00eandido caos de onde&nbsp; emerge a sintaxe, \/ A palavra \u00e9 disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda \/&nbsp; foi inventada para ser calada. \/ Em momentos de gra\u00e7a, infrequent\u00edssimos, \/ se&nbsp; poder\u00e1 apanh\u00e1-la: um peixe vivo com a m\u00e3o. \/ Puro susto e terror (Antes do&nbsp; nome). <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Cruz, patrono dos poetas&nbsp; espanh\u00f3is, deixou tr\u00eas de seus quatro livros inacabados. Tom\u00e1s de Aquino&nbsp; considerou, ap\u00f3s seu \u00eaxtase em N\u00e1poles, que toda a sua obra n\u00e3o passava de&nbsp; \u201cpalha\u201d. E n\u00e3o mais escreveu.  <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>H\u00e1 no enfoque adeliano uma empatia com o poema&nbsp; Ash-Wednesday (\u201cQuarta-feira de cinzas\u201d), de T.S. Eliot, escrito&nbsp; em 1930, tr\u00eas anos ap\u00f3s a convers\u00e3o do poeta ao cristianismo. Na quinta parte,&nbsp; Eliot canta que \u201ca palavra perdida se perdeu\u201d, \u201ca usada se gastou\u201d, mas&nbsp; perdura no \u201cVerbo sem palavra, o Verbo. Nas entranhas do&nbsp; mundo\u201d. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Toda poesia de qualidade \u00e9 poliss\u00eamica. \u00c9&nbsp; verso que faz emergir nosso reverso. \u00c9 canto que encanta, desdobra em m\u00faltiplo o nosso ser e nos induz a encontrar aquela pessoa que realmente somos e, no&nbsp; entanto, em n\u00f3s reside como um estranho que provoca temor e&nbsp; fasc\u00ednio. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>\u00c9 \u00e0 poesia que o ap\u00f3stolo Paulo recorre&nbsp; quando, no discurso no Are\u00f3pago (Atos dos Ap\u00f3stolos 17, 28), expressa a&nbsp; nossa ontol\u00f3gica e visceral uni\u00e3o com Deus: \u201cNele vivemos, nos movemos e&nbsp; existimos, como alguns dos vossos, ali\u00e1s, j\u00e1 disseram: \u00b4Porque somos tamb\u00e9m de&nbsp; sua ra\u00e7a\u00b4.\u201d  <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Trata-se de uma cita\u00e7\u00e3o livre da obra&nbsp; Fen\u00f4menos, de Arato, poeta que viveu na Cil\u00edcia no s\u00e9culo 3 a.C. O&nbsp; texto origin\u00e1rio \u00e9: \u201cComecemos com Zeus, de que n\u00f3s mortais nunca deixamos&nbsp; de lembrar. Porque toda rua, todo mercado est\u00e1 cheio de Zeus. Mesmo o mar e o&nbsp; porto est\u00e3o cheios da divindade. Em todo lugar todo mundo \u00e9 devedor a Zeus.&nbsp; Porque somos, na verdade, seus filhos&#8230; \u201c (Phaenomena&nbsp; 1-5). <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>(artigo publicado hoje no Correio Braziliense)<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">                     <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FREI BETTO Escritor, autor, em&nbsp; parceria com Marcelo Barros, de O amor fecunda o universo \u2013 ecologia e&nbsp; espiritualidade (Agir), entre outros livros. Pela literatura, o verbo se faz carne. 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