{"id":4232,"date":"2009-07-26T00:00:00","date_gmt":"2009-07-26T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/as_duas_pontas_da_vida\/"},"modified":"2009-07-26T00:00:00","modified_gmt":"2009-07-26T03:00:00","slug":"as_duas_pontas_da_vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/as_duas_pontas_da_vida\/","title":{"rendered":"As duas pontas da vida"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/wp-content\/uploads\/blog-dad\/ee089d0e6ade3ac2db28f7bc63763f07.jpg\">  <\/p>\n<p><b><\/b> Datas comemorativas n\u00e3o faltam. H\u00e1 o dia das m\u00e3es,  dos pais, dos namorados, das crian\u00e7as, da secret\u00e1ria, do m\u00e9dico, do jornalista,  do advogado\u2026ufa! E&nbsp;dos av\u00f3s? Hoje \u00e9  dia deles. A escolha tem a ver com a mitologia crist\u00e3. Em 26 de julho, nasceu  Sant\u00b4Ana, m\u00e3e de Maria e vov\u00f3 de Jesus.    <\/p>\n<p>De olho no calend\u00e1rio, o com\u00e9rcio faz promo\u00e7\u00f5es.  Flores, roupas, sapatos, joias, chocolates \u2014 a escolha depende do gosto e do  bolso. Restaurantes aumentam o faturamento. Os netos, eternos homenageados, hoje  homenageiam. N\u00e3o precisam dar presentes. A presen\u00e7a deles \u00e9 brinde pra l\u00e1 de  cobi\u00e7ado. &#8220;Vov\u00f3, vov\u00f4, cheguei&#8221;, anunciam-se eles. As tr\u00eas palavras traduzem a  cumplicidade existente entre as duas pontas da vida. &nbsp; Lauro M\u00fcller  definiu   <\/p>\n<p>&#8220;Av\u00f4 &#8212; pai sem exig\u00eancias.  Av\u00f3, m\u00e3e com a\u00e7\u00facar.&#8221;  <strong><\/strong>&nbsp; <strong>  <\/p>\n<p><\/strong><strong>Sem censura<\/strong>   <\/p>\n<p>Rachel de Queiroz homenageou as m\u00e3es com a\u00e7\u00facar na  cr\u00f4nica &#8220;A arte de ser av\u00f3&#8221;. Eis um trecho: &#8220;A av\u00f3 n\u00e3o tem direitos legais, mas  oferece a sedu\u00e7\u00e3o do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz  presentes. Faz coisas n\u00e3o programadas. Leva a passear, n\u00e3o ralha nunca. Deixa  lambuzar de pirulito. N\u00e3o tem a menor pretens\u00e3o pedag\u00f3gica. \u00c9 a confidente das  horas de ressentimento, o \u00faltimo recurso dos momentos de opress\u00e3o, a secreta  aliada nas crises de rebeldia. Uma noite passada em sua casa \u00e9 uma deliciosa  fuga \u00e0 rotina, tem todos os encantos de uma aventura. L\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 linha divis\u00f3ria  entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subvers\u00e3o da disciplina.  Dormir sem lavar as m\u00e3os, recusar a sopa e comer croquetes, tomar caf\u00e9, mexer na  lou\u00e7a, fazer trem com as cadeiras na sala, destruir revistas, derramar \u00e1gua no  gato, acender e apagar a luz el\u00e9trica mil vezes se quiser \u2013 e at\u00e9 fingir que  est\u00e1 discando o telefone. Riscar a parede com l\u00e1pis dizendo que foi sem querer \u2013  e ser acreditado!&#8221; <b style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> &nbsp;   <\/p>\n<p>Ele, ela, eles<\/b>   <\/p>\n<p>Olho no plural. A m\u00e3e da m\u00e3e \u00e9 av\u00f3. A m\u00e3e do pai  tamb\u00e9m. As duas s\u00e3o av\u00f3s. O pai da m\u00e3e \u00e9 av\u00f4. O pai do pai idem. Os dois s\u00e3o  av\u00f4s. A av\u00f3 e o av\u00f4? S\u00e3o os av\u00f3s.<b style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> &nbsp;   <\/p>\n<p>Quem \u00e9 quem<\/b>   <\/p>\n<p>Paulo tem 63 anos. Casou-se e descasou-se tr\u00eas vezes.  De cada uni\u00e3o nasceu um filho. Os garotos cresceram, namoraram e juntaram os trapos. Foram-se. Com  o ninho vazio, Paulo caiu em depress\u00e3o. Mas o sofrimento durou pouco. No  bate-papo com amigos \u00e0 mesa do bar, conheceu Lu\u00edza. Um se interessou pelo outro.  Resultado: em menos de dois meses, estavam juntos. Um ano depois, Laura nasceu.     <\/p>\n<p>Pintou, ent\u00e3o, a d\u00favida. Paulo \u00e9 pai av\u00f4 ou av\u00f4 pai?  A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nova. Machado de Assis levantou a lebre em <i>Mem\u00f3rias p\u00f3stumas  de Br\u00e1s Cubas. <\/i>Na introdu\u00e7\u00e3o, disse que n\u00e3o era um <i>autor defunto<\/i>, mas  um <i>defunto autor<\/i>. Na campanha de reelei\u00e7\u00e3o de Fernando Henrique Cardoso,  perguntava-se se ele era <i>candidato presidente<\/i> ou <i>presidente  candidato<\/i>.   <\/p>\n<p>A resposta est\u00e1 na coloca\u00e7\u00e3o das palavras. O termo  que vem na frente \u00e9 o substantivo. O que vem depois, o adjetivo. Br\u00e1s Cubas  escreveu o livro depois de morto. \u00c9 autor defunto. FHC era presidente quando se  candidatou \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o. Tornou-se presidente candidato. Paulo, nosso personagem,  ganhou um filho aos 63 anos. \u00c9 pai av\u00f4. Em bom portugu\u00eas: \u00e9 pai com idade e cara  de av\u00f4.<b style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> &nbsp;<\/b>  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Datas comemorativas n\u00e3o faltam. H\u00e1 o dia das m\u00e3es, dos pais, dos namorados, das crian\u00e7as, da secret\u00e1ria, do m\u00e9dico, do jornalista, do advogado\u2026ufa! E&nbsp;dos av\u00f3s? Hoje \u00e9 dia deles. A escolha tem a ver com a mitologia crist\u00e3. Em 26 de julho, nasceu Sant\u00b4Ana, m\u00e3e de Maria e vov\u00f3 de Jesus. De olho no calend\u00e1rio, o com\u00e9rcio faz promo\u00e7\u00f5es. 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