{"id":4425,"date":"2010-06-09T00:00:00","date_gmt":"2010-06-09T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/samba_do_imperativo_doido\/"},"modified":"2010-06-09T00:00:00","modified_gmt":"2010-06-09T03:00:00","slug":"samba_do_imperativo_doido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/samba_do_imperativo_doido\/","title":{"rendered":"Samba do imperativo doido"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c9 Copa pra l\u00e1, Copa pra c\u00e1. A cidade se enfeita. Janelas, vitrines, quadras, pra\u00e7as exibem as cores do Brasil. As pessoas v\u00e3o atr\u00e1s. Homens, mulheres e crian\u00e7as vestem camisetas, cal\u00e7\u00f5es, biqu\u00ednis verde-amarelos. O marketing, claro, explora o assunto \u00e0 exaust\u00e3o. Bancos, bebidas, carros s\u00f3 falam naquilo.  <\/p>\n<p>As cervejas s\u00e3o pra l\u00e1 de agressivas. Divulgam as vantagens das louras geladas. Vale tudo \u2014 mulher bonita, disputa de amigos, frases maliciosas. Depois, aparece um recadinho meio envergonhado. &#8220;Beba com modera\u00e7\u00e3o&#8221;, mandam umas. &#8220;Bebe com modera\u00e7\u00e3o&#8221;, ordenam outras. Marcelo Abi leu a mensagem. Incomodou-se com o imperativo. Depois de muito matutar, escreveu um e-mail ao blog:  <\/p>\n<p>\u2014 Beba com modera\u00e7\u00e3o? Bebe com modera\u00e7\u00e3o? Qual a forma nota 10?  <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>O manda-desmanda   <\/p>\n<p>O imperativo, forma que d\u00e1 ordem, faz pedido, manda e desmanda, tem caprichos. Cheio de manhas, exige aten\u00e7\u00e3o plena na forma\u00e7\u00e3o. Quer ver?  <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>O manda  <\/p>\n<p>O imperativo afirmativo \u00e9 rigoroso. Divide as pessoas do discurso em dois grupos. As segundas pessoas (tu e v\u00f3s), preferidas dos ga\u00fachos, ficam de um lado. As outras (ele, n\u00f3s, eles), do outro.   <\/p>\n<p>O tu e o v\u00f3s derivam do presente do indicativo. Mas esnobam o s final. Mais simples, as outras pessoas n\u00e3o d\u00e3o trabalho. Saem todas do presente do subjuntivo \u2013 sem tirar nem p\u00f4r. Veja o exemplo do verbo beber:  <\/p>\n<p>Presente do indicativo: eu bebo, tu bebes, ele bebe, n\u00f3s bebemos, v\u00f3s bebeis, eles bebem.  <\/p>\n<p>Presente do subjuntivo: que tu bebas, que voc\u00ea beba, que n\u00f3s bebamos, que v\u00f3s bebais, que eles bebam.  <\/p>\n<p>Imperativo afirmativo: bebe tu, beba voc\u00ea, bebamos n\u00f3s, bebei v\u00f3s, bebam voc\u00eas.  <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>O desmanda  <\/p>\n<p>O imperativo negativo \u00e9 elitista. N\u00e3o se mistura. Sai todinho do presente do subjuntivo: n\u00e3o filmes tu, n\u00e3o filme voc\u00ea, n\u00e3o filmemos n\u00f3s, n\u00e3o filmeis v\u00f3s, n\u00e3o filmem voc\u00eas.  <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>Resumo da \u00f3pera  <\/p>\n<p>Em &#8220;bebe com modera\u00e7\u00e3o&#8221;, trata-se o beberr\u00e3o de tu. Em &#8220;beba com modera\u00e7\u00e3o&#8221;, de voc\u00ea. Ambas as formas merecem nota 10.   <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n<p>Boa escola  <\/p>\n<p>Gon\u00e7alves Dias estudou em boa escola. No poema &#8220;Can\u00e7\u00e3o do ex\u00edlio&#8221;, esgrime imperativo e subjuntivo com maestria. Eis uma provinha:   <\/p>\n<p>N\u00e3o permita Deus que eu morra, <br style=\"font-style: italic\">Sem que eu volte para l\u00e1; <br style=\"font-style: italic\">Sem que desfrute os primores <br style=\"font-style: italic\">Que n\u00e3o encontro por c\u00e1; <br style=\"font-style: italic\">Sem qu\u2019inda aviste as palmeiras <br style=\"font-style: italic\">Onde canta o sabi\u00e1.  <\/p>\n<p>&nbsp;  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 Copa pra l\u00e1, Copa pra c\u00e1. A cidade se enfeita. Janelas, vitrines, quadras, pra\u00e7as exibem as cores do Brasil. As pessoas v\u00e3o atr\u00e1s. 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