{"id":4445,"date":"2009-08-14T08:05:00","date_gmt":"2009-08-14T11:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/a_escola_do_zequinha\/"},"modified":"2009-08-14T08:05:00","modified_gmt":"2009-08-14T11:05:00","slug":"a_escola_do_zequinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/a_escola_do_zequinha\/","title":{"rendered":"A escola do Zequinha"},"content":{"rendered":"\n<p>O padeiro Zequinha da Bolacha \u00e9 o prefeito da Cidade do Cabo, a 30km do  Recife. Ganhou o apelido porque troca voto por bolacha. O homem \u00e9 de poucas  letras mas muitas manhas. Certa tarde, recebeu uma queixa. As ruas estavam muito  sujas. O lixo n\u00e3o era recolhido havia muitos dias.   <\/p>\n<p>O prefeito, de olho nas elei\u00e7\u00f5es, quis dar satisfa\u00e7\u00e3o ao povo. Chamou o  assessor de imprensa e pediu: \u00ad&#8211; Escreva um comunicado \u00e0s r\u00e1dios. Explique que o caminh\u00e3o do lixo n\u00e3o pode  passar por causa da chuva. As vias est\u00e3o intransit\u00e1veis.   <\/p>\n<p>O funcion\u00e1rio p\u00f4s m\u00e3os \u00e0 obra. Enquanto redigia o texto, pintou a d\u00favida. O  caminh\u00e3o atolou-se? O caminh\u00e3o se atolou? Melhor perguntar ao chefe. O sabich\u00e3o  n\u00e3o pensou duas vezes: \u00ad&#8211; A resposta \u00e9 simples. Se foram as rodas da frente que se afundaram no  barro, o caminh\u00e3o se atolou. Se as de tr\u00e1s, o caminh\u00e3o atolou-se. Se as da  frente e as de tr\u00e1s, o caminh\u00e3o se atolou-se.   <\/p>\n<p> Antes ou depois?   <\/p>\n<p>A hist\u00f3ria se espalhou. Ganhou espa\u00e7o nos jornais e na tev\u00ea. Alguns acharam  gra\u00e7a. Riram \u00e0 solta. Outros ficaram na d\u00favida. Qual, \u00f3 Deus, \u00e9 a forma correta?  O caminh\u00e3o se atolou? O caminh\u00e3o atolou-se?    <\/p>\n<p>Desmoraliza\u00e7\u00e3o   <\/p>\n<p>A irrever\u00eancia nacional tem uma marca. Desmoraliza. Dizem que o comunismo n\u00e3o  fincou ra\u00edzes aqui com medo de jogar lama na reputa\u00e7\u00e3o. Afinal, Deus virou  brasileiro. Ensinou-nos a jogar no bicho, beber caipirinha e dar um jeitinho.  Foi o que aconteceu com a coloca\u00e7\u00e3o de pronomes. A regra veio de Portugal. Tem  tudo a ver com a pron\u00fancia lusitana. N\u00e3o com a nossa. Na terra de Cabral, os  pronomes \u00e1tonos s\u00e3o \u00e1tonos. Aqui, s\u00e3o t\u00f4nicos. Os portugueses dizem m\u2019. N\u00f3s, me.  \u00c9 dif\u00edcil iniciar uma frase com m\u2019. Mas com me \u00e9 f\u00e1cil, f\u00e1cil. \u2018D\u00e1-me um  cigarro\u2019, pede o fil\u00e3o portugu\u00eas. \u2018Me d\u00e1 um cigarro\u2019, pede o brasileiro da  gema.   <\/p>\n<p>Quase tudo    <\/p>\n<p>Em Pindorama vale tudo? Na l\u00edngua falada \u00ad de chinelos e camiseta \u00ad vale. Na  escrita, h\u00e1 um limite. Duas regras exigem respeito. Uma: n\u00e3o iniciar frase com  pronome \u00e1tono. A outra: ficar de olho na atra\u00e7\u00e3o. A gangue do qu (que, quem,  qual, porque, quando, quanto), os pronomes e adv\u00e9rbios negativos (n\u00e3o, ningu\u00e9m,  nunca), as conjun\u00e7\u00f5es subordinativas (se, que, como) s\u00e3o os principais \u00edm\u00e3s do  pronome. Contra eles, n\u00e3o adianta reclamar. H\u00e1 que obedecer.   <\/p>\n<p>Exemplos   <\/p>\n<p>Quem se queixa da imprensa? H\u00e1 muitos pa\u00edses que se opuseram \u00e0 guerra no Iraque. Ningu\u00e9m o procurou ontem. N\u00e3o sei como Obama se pronunciou na ONU. Se me convidarem, aceito o desafio.   <\/p>\n<p> Gilete  <\/p>\n<p>O substantivo entra no time dos \u00edm\u00e3s? N\u00e3o. O danadinho joga na equipe dos  giletes. Corta dos dois lados. Com ele, ora ocorre a pr\u00f3clise. Ora, a \u00eanclise.  Fica a gosto do fregu\u00eas. Vale a forma que soar melhor.    <\/p>\n<p>O caminh\u00e3o se atolou. O caminh\u00e3o atolou-se. Na ONU, Obama se pronunciou a favor da paz. Na ONU, Obama pronunciou-se a favor da guerra. O Brasil se prepara para as elei\u00e7\u00f5es de 2010. O Brasil prepara-se para as  elei\u00e7\u00f5es de 2010. Os alunos se retiraram cedo. Os alunos retiraram-se cedo.   <\/p>\n<p>Invejoso   <\/p>\n<p>O adv\u00e9rbio viu a desenvoltura do substantivo. Invejoso, resolveu imit\u00e1-lo.  Com aqui, ali, talvez, l\u00e1, agora, depois, ontem, hoje, amanh\u00e3, o atonozinho pode  escolher o lugar. Se quiser ficar antes do verbo, \u00e9 bem-vindo. Se preferir  acomodar-se depois, tamb\u00e9m:    <\/p>\n<p>Aqui se fala portugu\u00eas. Aqui fala-se portugu\u00eas. Agora se sente melhor. Agora sente-se melhor. Amanh\u00e3 eu lhe telefono. Amanh\u00e3 eu telefono-lhe.  Depois me dirigi a ele. Depois dirigi-me a ele.   <\/p>\n<p> Limite   <\/p>\n<p>O vaiv\u00e9m do invejoso tem limite. Se houver pausa depois do adv\u00e9rbio, cessa  tudo que a musa antiga canta. O pronome, com o rabinho entre as pernas, \u00e9  obrigado a ficar depois do verbo: Aqui, fala-se portugu\u00eas. Agora, sente-se melhor. Amanh\u00e3, telefono-lhe. Depois, dirigi-me a ele.   <\/p>\n<p>Moral da hist\u00f3ria   <\/p>\n<p>Nada se perde. Tudo se aproveita. A aula do Z\u00e9 Bolacha serviu para p\u00f4r  substantivos e adv\u00e9rbios nos trilhos. Valeu.  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O padeiro Zequinha da Bolacha \u00e9 o prefeito da Cidade do Cabo, a 30km do Recife. Ganhou o apelido porque troca voto por bolacha. O homem \u00e9 de poucas letras mas muitas manhas. Certa tarde, recebeu uma queixa. As ruas estavam muito sujas. O lixo n\u00e3o era recolhido havia muitos dias. O prefeito, de olho nas elei\u00e7\u00f5es, quis dar satisfa\u00e7\u00e3o ao povo. Chamou o assessor [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-4445","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4445","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4445"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4445\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4445"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4445"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4445"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}