{"id":4584,"date":"2010-06-27T00:00:00","date_gmt":"2010-06-27T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/ha_erros_e_erros\/"},"modified":"2010-06-27T00:00:00","modified_gmt":"2010-06-27T03:00:00","slug":"ha_erros_e_erros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/ha_erros_e_erros\/","title":{"rendered":"H\u00e1 erros e erros"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Errar \u00e9 humano. Deus nos livre da pessoa que s\u00f3 quer acertar. Ela vive na defensiva. Medrosa, treme s\u00f3 de pensar em correr riscos. N\u00e3o tenta nada. Esquece-se de que os erros de uns servem de li\u00e7\u00e3o para outros. Da\u00ed o conselho de Samuel Beckett: &#8220;Tente de novo. Erre de novo. Erre melhor&#8221;.  <BR> &nbsp; O toque vale para o Marco Aur\u00e9lio. Ele cursa o pr\u00e9-vestibular. Perfeccionista, nega-se a apresentar reda\u00e7\u00f5es ao professor. S\u00f3 o far\u00e1 quando puder tirar 10. Se poss\u00edvel, com louvor. Para chegar l\u00e1, pede ajuda ao blog. &#8220;Existe uma hierarquia de erros?&#8221;, pergunta.  <BR> &nbsp; Existe. Na l\u00edngua, h\u00e1 quatro n\u00edveis de erros. O primeiro pertence ao mundinho da grafia. O segundo, da sintaxe. O terceiro, da l\u00f3gica. O \u00faltimo, da adequa\u00e7\u00e3o. Conhec\u00ea-los ensina uma verdade. Cursos, estudos, leituras ajudam a subir degraus. Aprimoram. Sem perceber, compreendemos melhor os recados. E damos recados mais claros.&nbsp; <BR>&nbsp; <BR> <STRONG>Primeiro n\u00edvel  <BR><\/STRONG> &nbsp; Trope\u00e7ar na grafia das palavras \u00e9 marca de quem n\u00e3o tem familiaridade com a l\u00edngua escrita. \u00c9 o caso de crian\u00e7a em processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o. Ela troca, acrescenta ou omite letras. Esquece os acentos. N\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed pros hifens. Os cadernos infantis est\u00e3o cheios de p\u00e9rolas como esta:  <BR> Os mininos for\u00e3o au ospitau. <BR> &nbsp; Na l\u00edngua falada, n\u00e3o se percebem as falhas. S\u00f3 na escrita. A consulta ao dicion\u00e1rio ajuda a sair da enrascada. O paiz\u00e3o registra a forma certinha. Quando fixamos a grafia, mandamos os Aur\u00e9lios da vida pras cucuias. Escrevemos hospital com h sem pensar. E sem necessidade de desvendar a origem do voc\u00e1bulo. O milagre se deve ao olho. De tanto ver o triss\u00edlabo com h, o c\u00e9rebro grava a carinha dele. A\u00ed, pronto. Ningu\u00e9m o segura.  <BR> &nbsp; Conclus\u00e3o: Leia. Leia. Leia.&nbsp; <BR>&nbsp; <BR> <STRONG>Segundo n\u00edvel  <BR><\/STRONG> &nbsp; &#8220;Liberdade completa ningu\u00e9m desfruta&#8221;, escreveu Graciliano Ramos. &#8220;Come\u00e7amos oprimidos pela sintaxe e acabamos \u00e0s voltas com o Dops.&#8221; \u00c9 isso. Na frase, as palavras vivem regime de escravid\u00e3o. Ficam amarradinhas. Adjetivos, pronomes e artigos prendem-se ao nome. Adv\u00e9rbios, ao verbo. Concord\u00e2ncias, reg\u00eancias, pontua\u00e7\u00e3o t\u00eam tudo a ver com o segundo n\u00edvel. Observe a frase:  <BR> &nbsp; Os menino foi aos hospital.  <BR> &nbsp; Pelos crit\u00e9rios do 1\u00ba n\u00edvel, a danada est\u00e1 pra l\u00e1 de certa. Soltinhas, as palavras merecem nota 10. Ent\u00e3o, o buraco \u00e9 mais embaixo. Quem cai nele desconhece concord\u00e2ncia. Ignora que o artigo concorda com o substantivo. O verbo, com o sujeito.  <BR> &nbsp; Esse tipo de erro compromete mais que o anterior. \u00c9 vis\u00edvel na l\u00edngua falada e na escrita. Em provas, tira preciosos pontinhos. Valha-nos, Deus! N\u00e3o adianta ir ao dicion\u00e1rio. O pai de todos n\u00f3s dir\u00e1 que as palavras est\u00e3o do jeitinho que o professor gosta. A receita \u00e9 outra. Bem-vinda, sintaxe.&nbsp; <BR>&nbsp; <BR> <STRONG>Terceiro n\u00edvel  <BR><\/STRONG> &nbsp; A l\u00edngua \u00e9 conversadeira. As palavras batem papo sem parar. As frases v\u00e3o atr\u00e1s. Os par\u00e1grafos tamb\u00e9m. S\u00e3o todos presos uns aos outros. O primeiro passo conduz ao segundo. O segundo, ao terceiro. O terceiro, ao quarto. E assim caminha o texto. Quem ignora a coes\u00e3o das partes escreve mostrengos como este:  <BR> Os meninos foram ao hospital. O supermercado estava lotado. <BR> &nbsp; Protegei-nos, Senhor! Que rela\u00e7\u00e3o o primeiro enunciado tem com o segundo? Nenhuma. O autor queimou etapas. \u00c9 como querer construir o 3\u00ba andar de um pr\u00e9dio antes do segundo. N\u00e3o d\u00e1. O edif\u00edcio desaba. O texto fica sem sentido. A sa\u00edda? Deixar a pregui\u00e7a pra l\u00e1. O pedreiro ergue o 2\u00ba andar. O escritor exp\u00f5e o omitido:  <BR> &nbsp; Os meninos foram ao hospital. No caminho, passaram no supermercado para comprar frutas. N\u00e3o compraram nada. O supermercado estava lotado.  <BR> &nbsp; A desconex\u00e3o \u00e9 pra l\u00e1 de comum em trabalhos em grupo. Boas-vidas, os estudantes dividem tarefas. Um se encarrega da introdu\u00e7\u00e3o. Outro, do desenvolvimento. O \u00faltimo, da conclus\u00e3o. Na data fatal, re\u00fanem-se. Grampeiam as partes. E entregam ao professor. O resultado? \u00c9 o samba do texto doido. As partes ficam incomunic\u00e1veis. Uma n\u00e3o entende a outra.&nbsp; <BR>&nbsp; <BR> <STRONG>Quarto n\u00edvel <BR><\/STRONG> A adequa\u00e7\u00e3o? Ops! \u00c9 t\u00e3o importante que merece tratamento privilegiado. Ser\u00e1 tema de&nbsp;pr\u00f3ximo post. <BR>&nbsp; <BR><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Errar \u00e9 humano. Deus nos livre da pessoa que s\u00f3 quer acertar. Ela vive na defensiva. Medrosa, treme s\u00f3 de pensar em correr riscos. N\u00e3o tenta nada. Esquece-se de que os erros de uns servem de li\u00e7\u00e3o para outros. 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