{"id":4586,"date":"2009-08-23T08:00:00","date_gmt":"2009-08-23T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/casos_de_virgula\/"},"modified":"2009-08-23T08:00:00","modified_gmt":"2009-08-23T11:00:00","slug":"casos_de_virgula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/casos_de_virgula\/","title":{"rendered":"Casos de v\u00edrgula"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;&nbsp;  <BR> &nbsp; A palavra v\u00edrgula vem de longe. Nasceu no latim. L\u00e1, queria dizer varinha. Tamb\u00e9m significava pequeno tra\u00e7o ou linha. Depois, virou sinal de pontua\u00e7\u00e3o. Indica pausa r\u00e1pida, menor que o ponto. &nbsp; A mocinha atravessou os s\u00e9culos. No caminho, suscitou discuss\u00f5es. Alguns afirmam que seu emprego \u00e9 quest\u00e3o de gosto. A gente p\u00f5e o sinalzinho onde tem vontade. Outros dizem que basta ler a frase. Parou pra respirar? Pronto. Taca-lhe a v\u00edrgula. A\u00ed surge um problema. Como os gagos e os asm\u00e1ticos v\u00e3o se virar? &nbsp; Outros, ainda, acham que devem usar todas as v\u00edrgulas a que t\u00eam direito &#8211; as obrigat\u00f3rias e as facultativas. \u00c9 o caso do amanuense Borjalino Ferraz. O homem estudou o assunto anos a fio. Aprendeu tudo. Esnobava o saber em of\u00edcios e memorandos. N\u00e3o deixava passar uma. &nbsp; O&nbsp;chefe reclamou do exagero. \u201cDesse jeito\u201d, disse ele, \u201co amigo acaba com o estoque. O munic\u00edpio n\u00e3o tem dinheiro pra comprar v\u00edrgulas novas\u201d. O pux\u00e3o de orelhas entrou por um ouvido e saiu por outro. O prefeito n\u00e3o p\u00f4de fazer nada. Borjalino tinha estabilidade. &nbsp; <B>Variedade<\/B>&nbsp;  <BR> H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es e situa\u00e7\u00f5es. Nalgumas, a v\u00edrgula \u00e9 facultativa. A\u00ed, n\u00e3o h\u00e1 erro. Voc\u00ea acerta sempre. Noutras, obrigat\u00f3ria. \u00c9 o caso da separa\u00e7\u00e3o dos termos coordenados, explicativos e deslocados. Os coordenados foram assunto da li\u00e7\u00e3o anterior. Agora \u00e9 vez dos explicativos. &nbsp; <B>O que \u00e9?<\/B>&nbsp;  <BR> O termo explicativo tem v\u00e1rias caras. Uma \u00e9 velha conhecida. Chama-se aposto. Lembra-se? &nbsp; D. Pedro II, imperador do Brasil, morreu em Paris. &nbsp; Os professores vivem dizendo que o aposto n\u00e3o faz falta. Pode cair fora. Verdade? \u00c9. Ele facilita a vida do leitor. Mas a aus\u00eancia dele n\u00e3o causa preju\u00edzo ao entendimento da frase. Se eu n\u00e3o sei quem \u00e9 D. Pedro II, tenho sa\u00edda. Dou uma espiadinha num livro de hist\u00f3ria. Est\u00e1 tudo ali. &nbsp; <B>Chute?<\/B>&nbsp;  <BR> Compare as frases: &nbsp; O presidente da Rep\u00fablica, Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, prepara nova viagem. &nbsp; O ex-presidente da Rep\u00fablica Itamar Franco morou no exterior. &nbsp; Por que um nome vem entre v\u00edrgulas e outro n\u00e3o? As situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o parecidas. \u00c9 chute? &nbsp; N\u00e3o. O segredo est\u00e1 no que vem antes do nome. No primeiro caso, \u00e9 presidente da Rep\u00fablica. Quantos existem? S\u00f3 um. <STRONG>Luiz In\u00e1CIO&nbsp;Lula da silva<\/STRONG> \u00e9 termo explicativo. Funciona como aposto. Da\u00ed as v\u00edrgulas. &nbsp; Mas h\u00e1&nbsp;mais de um ex-presidente. Se eu n\u00e3o disser a quem me refiro, deixo o leitor numa enrascada. Posso estar falando de Jos\u00e9 Sarney, Itamar Franco. A\u00ed, s\u00f3 h\u00e1 um jeito: dar nome ao boi. Itamar Franco \u00e9 termo restritivo. N\u00e3o aceita v\u00edrgula. &nbsp; <B>Mais exemplos<\/B>&nbsp;  <BR> A capital do Brasil, Bras\u00edlia, tem dois milh\u00f5es de habitantes (o Brasil tem uma s\u00f3 capital). &nbsp; O ministro da Fazenda, Guido Mantega, deve depor na CPI (s\u00f3 h\u00e1 um ministro da Fazenda). &nbsp; O ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero ficou famoso pela indiscri\u00e7\u00e3o parab\u00f3lica (h\u00e1 um mont\u00e3o de ex-ministros da Fazenda). &nbsp; <B>Enrascada<\/B>&nbsp;  <BR> \u00c0s vezes, a gente se v\u00ea numa enrascada: &nbsp; Meu filho Marcelo estuda na universidade. &nbsp; Restritivo ou explicativo? Depende. Do qu\u00ea? Do antecedente do termo Marcelo. Eu tenho um filho ou mais de um filho? Se um, o termo \u00e9 explictivo. Se mais de um, restritivo. &nbsp; Minha m\u00e3e, Rosa, mora em S\u00e3o Paulo. &nbsp; Minha tia Maria chega amanh\u00e3; minha tia Carla vem na pr\u00f3xima semana. &nbsp; Viu? Eu s\u00f3 tenho uma m\u00e3e. <B>Rosa<\/B> \u00e9 termo explicativo. Tenho mais de uma tia. <B>Maria<\/B> e <B>Carla<\/B> s\u00e3o termos restritivos. &nbsp; <B>Servi\u00e7o completo<\/B>&nbsp;  <BR> N\u00e3o fique pela metade.&nbsp; O termo explicativo vem presinho da silva. Ora, entre v\u00edrgulas. Ora, entre a v\u00edrgula e o ponto: &nbsp; Dom Casmurro, de Machado de Assis, \u00e9&nbsp;obra-prima do Realismo brasileiro. Comprei um Corsa, carro da Chevrolet. &nbsp; <B>Sem monotonia<\/B>&nbsp;  <BR> A l\u00edngua \u00e9 um conjunto de possibilidades. Flex\u00edvel, a danada detesta monotonia. Oferece v\u00e1rios jeitos de dizer a mesma coisa. &nbsp; Veja: &nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O aluno <B>estudioso<\/B> tira boas notas. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O aluno <B>que estuda<\/B> tira boas notas. &nbsp; As frases dizem que h\u00e1 alunos e alunos. N\u00e3o \u00e9 qualquer um que tira boas notas. S\u00f3 chega l\u00e1 quem se debru\u00e7a sobre os livros. Numa, o termo restritivo \u00e9 adjetivo (estudioso). Noutra, ora\u00e7\u00e3o adjetiva (que estuda). O tratamento mant\u00e9m-se. Nada de v\u00edrgula. &nbsp; Com as explicativas ocorre o mesmo: &nbsp; O homem, <B>mortal<\/B>, tem alma imortal. O homem, <B>que \u00e9 mortal<\/B>, tem alma imortal. &nbsp; <B>Desafio<\/B>&nbsp;  <BR> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Esta cilada caiu no vestibular: &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Os cinco filhos de Jos\u00e9&nbsp;que chegaram do Rio est\u00e3o no Recife. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A quest\u00e3o: quantos filhos tem Jos\u00e9? &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;( ) Tem cinco.&nbsp; ( ) Tem mais de cinco. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E agora? Quem responde \u00e9 a ora\u00e7\u00e3o. Restritiva ou explicativa? Sem v\u00edrgulas, \u00e9 restritiva. Ent\u00e3o Jos\u00e9 tem mais de cinco filhos. Se fossem s\u00f3 cinco, \u2018que chegaram do Rio\u2019 estaria cercadinha de v\u00edrgulas. &nbsp; <B>Virtudes<\/B>&nbsp;  <BR> &nbsp;Lembra-se do recado de Montaigne? \u201cO estilo\u201d, diz ele, deve ter tr\u00eas virtudes: clareza, clareza.\u201d Saber identificar o termo explicativo e restritivo n\u00e3o constitui s\u00f3 problema de corre\u00e7\u00e3o. Muitas vezes afeta a clareza.&nbsp;  <BR>&nbsp;  <BR><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;&nbsp; &nbsp; A palavra v\u00edrgula vem de longe. Nasceu no latim. L\u00e1, queria dizer varinha. Tamb\u00e9m significava pequeno tra\u00e7o ou linha. Depois, virou sinal de pontua\u00e7\u00e3o. Indica pausa r\u00e1pida, menor que o ponto. &nbsp; A mocinha atravessou os s\u00e9culos. No caminho, suscitou discuss\u00f5es. Alguns afirmam que seu emprego \u00e9 quest\u00e3o de gosto. A gente p\u00f5e o sinalzinho onde tem vontade. 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