{"id":4759,"date":"2010-02-04T10:00:00","date_gmt":"2010-02-04T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/licenca_meu_poeta\/"},"modified":"2010-02-04T10:00:00","modified_gmt":"2010-02-04T12:00:00","slug":"licenca_meu_poeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/licenca_meu_poeta\/","title":{"rendered":"Licen\u00e7a, meu poeta?"},"content":{"rendered":"\n<p><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&#8220;Ah, se eu pudesse! Pisaria a l\u00edngua todos os dias. Em troca, receberia chuvas de aplausos&#8221;, suspiram, invejosos, milh\u00f5es de brasileiros. E explicam: &#8220;Drummond, que \u00e9 Drummond, abusou das liberdades po\u00e9ticas. Quando a diva do teatro nos abandonou em 1969, o mestre mineiro escreveu: `Cacilda Becker morreram\u00b4. O verso comoveu Europa, Fran\u00e7a e Bahia. Mas d\u00e1 uma baita trombada na concord\u00e2ncia. O poeta errou?&#8221;<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o. Ele tem licen\u00e7a po\u00e9tica. Privilegiado, pode mandar as regras pras cucuias. A norma, pra ele, \u00e9 liberta\u00e7\u00e3o. Nunca camisa-de-for\u00e7a. Entre as tantas possibilidades que a l\u00edngua oferece nenhuma serve? Pau nelas. Criam-se sa\u00eddas. Com o simples plural do verbo, Drummond deu o recado. Cacilda \u00e9 muitas. N\u00e3o morreu uma atriz. Morreram as multid\u00f5es de atrizes que viviam dentro dela.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Alto l\u00e1, cara p\u00e1lida<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Qual o limite da licen\u00e7a-po\u00e9tica? O nome da figura diz tudo. Trata-se de concess\u00e3o ao artista. \u00c9 privil\u00e9gio para quem galgou os degraus do conhecimento. Todinhos. E, l\u00e1 de cima, pode mover-se em qualquer dire\u00e7\u00e3o. O assunto freq\u00fcenta os cursos de comunica\u00e7\u00e3o. Alunos de publicidade esperneiam. Negam-se a se submeter ao rigor da norma. &#8220;Com ela a gente n\u00e3o chega a lugar nenhum&#8221;, dizem. Ser\u00e1? Propaganda do Guaran\u00e1 Antarctica prova que n\u00e3o. Ei-la:<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Procuram-se garrafas antigas de Guaran\u00e1 Antarctica. Uma comunidade na internet encontrou pistas de que diversas garrafas de Guaran\u00e1 Antarctica est\u00e3o escondidas h\u00e1 muito tempo pelo Brasil. Elas cont\u00eam peda\u00e7os de um mapa que \u00e9 chave de um grande segredo. Ajude-nos. Oferecemos recompensa. Mais detalhes, procure-nos no site.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Meus respeitos, l\u00edngua<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>O texto est\u00e1 nas p\u00e1ginas de jornais e revistas. Vende o produto e homenageia a l\u00edngua. Trope\u00e7ou em cinco dificuldades. Ultrapassou-as. Quer ver?<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Procuram-se garrafas antigas<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Que col\u00edrio! O autor sabe lidar com a passiva sint\u00e9tica. Garrafas antigas \u00e9 o sujeito. O verbo, velho vassalo, concorda com o suserano. Muitos duvidam. Para sair da confus\u00e3o, basta recorrer \u00e0 passiva anal\u00edtica. A\u00ed, fica claro o mandachuva da ora\u00e7\u00e3o: Procuram-se garrafas antigas (garrafas antigas s\u00e3o procuradas). Vendem-se ovos (ovos s\u00e3o vendidos). Alugam-se casas na praia (casas na praia s\u00e3o alugadas). Consertam-se carros (carros s\u00e3o consertados). <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Internet<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Quando nasceu, internet era sigla (escrevia-se com a inicial mai\u00fascula). Era a forma pregui\u00e7osa de international net. Em bom portugu\u00eas: rede internacional de computadores. Com o tempo, entrou no time das m\u00eddias. \u00c9 como jornal, revista, r\u00e1dio ou tev\u00ea. Perdeu o privil\u00e9gio da inicial mai\u00fascula. Tornou-se a vira-lata internet.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>H\u00e1 muito tempo<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Viva! \u00c9 contagem de tempo passado? O verbo haver pede passagem: Cheguei h\u00e1 pouco. O com\u00e9rcio abriu h\u00e1 duas horas. Os eleitos de outubro assumiram o poder h\u00e1 100 dias.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Trata-se de futuro? S\u00f3 a preposi\u00e7\u00e3o a tem vez: Daqui a pouco chego a\u00ed. A dois meses das festas juninas, o Nordeste ensaia as quadrilhas e os casamentos na ro\u00e7a. A que horas voc\u00ea pode sair? S\u00f3 daqui a meia hora.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Elas cont\u00eam<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>V\u00edtimas da m\u00e1 escola? H\u00e1 muitas. Uma delas: os derivados do verbo ter. Os infelizes sofrem maus-tratos na grafia e na conjuga\u00e7\u00e3o. A 3\u00aa pessoa do singular e plural do presente do indicativo \u00e9 freguesa dos descuidados. Vale a pena ver a forma nota mil: ele cont\u00e9m, eles cont\u00eam; ele ret\u00e9m, eles ret\u00eam; ele det\u00e9m, eles det\u00eam. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p> O futuro do subjuntivo chora, chora, mas ningu\u00e9m se comove. \u00c9 &#8220;se ele se deter&#8221; pra c\u00e1, &#8220;se eu me manter pra l\u00e1&#8221;, &#8220;se voc\u00ea se conter&#8221; pra todos os lados. A turma esqueceu (ou nunca aprendeu) que o pai do futuro do subjuntivo \u00e9 conhecido. Trata-se da 3\u00aa pessoa do plural do pret\u00e9rito perfeito do indicativo sem o am- final: <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Pret\u00e9rito perfeito: eu tive, ele teve, n\u00f3s tivemos, eles tiver(am)<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Futuro do subjuntivo: seu eu detiver, ele detiver, n\u00f3s detivermos, eles detiverem; se eu mantiver, ele mantiver, n\u00f3s mantivermos, eles mantiverem; se eu contiver, ele contiver, n\u00f3s contivermos, eles contiverem.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Mais detalhes<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>A mo\u00e7ada costuma dizer &#8220;maiores detalhes&#8221;. Cruz-credo. Detalhe n\u00e3o se mede por metro. A gente quer mais detalhes. Quer tamb\u00e9m mais informa\u00e7\u00f5es, mais trabalho, mais dinheiro.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Resumo da \u00f3pera: texto jornal\u00edstico e l\u00edngua portuguesa podem andar de m\u00e3os dadas. C\u00e1 entre n\u00f3s \u2014 formam bela parceria.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Ah, se eu pudesse! Pisaria a l\u00edngua todos os dias. Em troca, receberia chuvas de aplausos&#8221;, suspiram, invejosos, milh\u00f5es de brasileiros. E explicam: &#8220;Drummond, que \u00e9 Drummond, abusou das liberdades po\u00e9ticas. Quando a diva do teatro nos abandonou em 1969, o mestre mineiro escreveu: `Cacilda Becker morreram\u00b4. O verso comoveu Europa, Fran\u00e7a e Bahia. Mas d\u00e1 uma baita trombada na concord\u00e2ncia. 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