{"id":5256,"date":"2010-09-05T00:00:00","date_gmt":"2010-09-05T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/sua_majestade_o_plural\/"},"modified":"2010-09-05T00:00:00","modified_gmt":"2010-09-05T03:00:00","slug":"sua_majestade_o_plural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/sua_majestade_o_plural\/","title":{"rendered":"Sua Majestade o plural"},"content":{"rendered":"<p> <BR> Ops! Foi um susto. Janyce Freire Silva conta: &#8220;Sou contadora. Decidi cursar direito pra realizar um sonho antigo. Passei no vestibular. Na primeira aula, tudo muito animador. A professora de direito civil indicou v\u00e1rios livros. Entre eles, o de Maria Helena Diniz. Entusiasmad\u00edssima, li o pref\u00e1cio. Eis a frase de abertura: `Com o intuito de sermos \u00fatil no estudo\u00b4. Sermos \u00fatil? Uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Meus olhos e ouvidos sofreram. Eles exigem sermos \u00fateis. Est\u00e3o certos? Ou \u00e9 capricho de quem n\u00e3o tem o que fazer?&#8221; A resposta tem tudo a ver com a pol\u00edtica. Quer ver?&nbsp;  <BR>  <BR><STRONG>Quest\u00e3o de mod\u00e9stia  <BR><\/STRONG> &nbsp; A campanha eleitoral est\u00e1 no ar. Com ela, volta ao cartaz um pluralzinho pra l\u00e1 de especial. Uns o chamam de plural de mod\u00e9stia; outros, de majest\u00e1tico. No fundo, no fundo, ele n\u00e3o passa de um enganador. \u00c9 singular. Mas faz de conta que n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed pro n\u00famero a que se refere.  <BR> &nbsp; A pessoa usa n\u00f3s, mas quer dizer eu. Assim, como quem n\u00e3o quer aparecer. Antes, empregado por reis, papas e dignit\u00e1rios da Igreja, o recurso exibia cetro e coroa. Da\u00ed o nome majest\u00e1tico. Depois, baixou de status. Oradores passaram a socorrer-se dele como expediente ret\u00f3rico. S\u00f3 pra impressionar. \u00c9 o caso daquele pol\u00edtico que, em com\u00edcio na cidadezinha do interior, disse: &#8220;N\u00f3s queremos ser bondoso e competente&#8221;.&nbsp;  <BR>&nbsp;  <BR> <STRONG><\/STRONG>&nbsp; <STRONG>Ser\u00e1?  <BR><\/STRONG> &nbsp; O povo se entreolhou. Pensou que o candidato fosse analfabeto de pai e m\u00e3e. Talvez fosse. Mas, ali, o homem usou o plural de mod\u00e9stia. O verbo concorda com o sujeito de fachada (n\u00f3s), mas o adjetivo, que n\u00e3o \u00e9 bobo, concorda com o sujeito verdadeiro (eu). Parece erro de concord\u00e2ncia, n\u00e3o? Em l\u00edngua de gente sem falsidade, dir\u00edamos:  <BR> \u2022 Eu quero ser bondoso e competente (refer\u00eancia a uma pessoa).  <BR> \u2022 N\u00f3s queremos ser bondosos e competentes (refer\u00eancia a mais de uma pessoa).  <BR> &nbsp; Mais exemplos? Imagine estas frases na boca do h\u00f3spede do Pal\u00e1cio do Planalto. Elas servem como luva para a plural majest\u00e1tico:  <BR> \u2022 N\u00f3s somos presidente de todos os brasileiros.  <BR>(Eu sou presidente de todos os brasileiros.)  <BR> \u2022 N\u00f3s somos moderno e amigo do povo.  <BR>(Eu sou moderno e amigo do povo.)&nbsp;  <BR>&nbsp;  <BR> <STRONG>Moral da hist\u00f3ria<\/STRONG>  <BR> &nbsp; O pseudomodesto \u00e9 pai dos tucanos. Fica no muro. Meio l\u00e1, meio c\u00e1. O verbo vai para o plural. Os adjetivos e substantivos n\u00e3o. \u00c9 o caso da consulta de Janyce. Maria Helena Diniz apelou pro plural de mod\u00e9stia. Em vez do eu, escolheu o n\u00f3s. O adjetivo, como manda o figurino, concorda com eu.  <BR>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ops! Foi um susto. Janyce Freire Silva conta: &#8220;Sou contadora. Decidi cursar direito pra realizar um sonho antigo. Passei no vestibular. Na primeira aula, tudo muito animador. A professora de direito civil indicou v\u00e1rios livros. Entre eles, o de Maria Helena Diniz. Entusiasmad\u00edssima, li o pref\u00e1cio. Eis a frase de abertura: `Com o intuito de sermos \u00fatil no estudo\u00b4. Sermos \u00fatil? Uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! 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