{"id":5608,"date":"2011-05-20T09:00:00","date_gmt":"2011-05-20T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/quem_e_que_manda-2\/"},"modified":"2011-05-20T09:00:00","modified_gmt":"2011-05-20T12:00:00","slug":"quem_e_que_manda-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/quem_e_que_manda-2\/","title":{"rendered":"Quem \u00e9 que manda"},"content":{"rendered":"<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">\n<p>Concei\u00e7\u00e3o Freitas  <\/p>\n<p>Considerando que esta cr\u00f4nica decidiu obedecer estritamente \u00e0s regras  gramaticais da l\u00edngua culta, informo-lhes que a partir de hoje este p\u00e9 de p\u00e1gina  n\u00e3o vai mais usar o pronome antes do verbo. Pr\u00f3clise nunca mais, nem quando  autorizada pelas normas da coloca\u00e7\u00e3o pronominal. Vai que algu\u00e9m acha que o  pronome sempre tem que vir depois do verbo. \u00c9 chique. Enobrece-a. Assim,  demonstrarei aos ilustr\u00edssimos leitores e aos dign\u00edssimos defensores da L\u00edngua  Portuguesa escorreita que a cronista se importa e muito com o que pensam os  gram\u00e1ticos, fil\u00f3logos, etmologistas, lexic\u00f3grafos e toda a banca de jurados do  Tribunal dos Crimes Cometidos contra a L\u00edngua P\u00e1tria.   <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o far\u00e1 uso da informalidade quando o uso de mes\u00f3clise se impuser,  dada a norma culta. O que imp\u00f5e uma indaga\u00e7\u00e3o: Ler-me-\u00e3o, Ler-me-\u00e1s ou  Ler-me-ias? Ou me mandar\u00e3o praquele lugar? Ops\u2026 Ou serei encaminhada para  localidade distante por conta de meu gracejo indevido para com as regras em  vigor da l\u00edngua portuguesa?   <\/p>\n<p>Nada de linguagem coloquial. O que me imp\u00f5e uma d\u00favida: se, at\u00e9 agora, minha  inapet\u00eancia para vestir as palavras com terno e gravata n\u00e3o me deixou  desempregada, o que acontecer\u00e1 se a partir de agora eu me armar, diariamente, de  uma ou duas gram\u00e1ticas, de prefer\u00eancias as mais volumosas, tipo aquela grandona  do Celso Cunha \u2014 &#8220;tipo aquela&#8221;?, &#8220;grandona&#8221;? Pera\u00ed, isso n\u00e3o vai dar certo.   <\/p>\n<p>Sou uma cafetina das palavras, pra me aproveitar da deliciosa cr\u00f4nica do  Verissimo. &#8220;Sou um gigol\u00f4 das palavras&#8221;, escreveu o marido de dona L\u00facia. &#8220;Vivo  \u00e0s suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de c\u00e1ften profissional. Abuso  delas. S\u00f3 uso as que eu conhe\u00e7o, as desconhecidas s\u00e3o perigosas e potencialmente  tra\u00e7oeiras. Exijo submiss\u00e3o. N\u00e3o raro, pe\u00e7o delas flex\u00f5es inomin\u00e1veis para  satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as sem d\u00favida. E jamais me deixo  dominar por elas. N\u00e3o me meto na sua vida particular. N\u00e3o me interessa seu  passado, suas origens, sua fam\u00edlia nem o que os outros j\u00e1 fizeram com elas. Se  bem que n\u00e3o tenho o melhor escr\u00fapulo em roub\u00e1-las de outro, quando acho que vou  ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. S\u00e3o falad\u00edssimas.  Algumas s\u00e3o de baix\u00edssimo cal\u00e3o. N\u00e3o merecem o m\u00ednimo respeito.&#8221;    <\/p>\n<p>N\u00e3o tenho, \u00e9 verdade, essa intimidade luxuriante (ou seria luxuriosa? Ou  luxurienta?) que Verissimo tem com as palavras. Meu jeito de chegar nelas \u00e9  outro, um pouco mais derramado, mas n\u00e3o menos desabusado e distra\u00eddo, tanto na  l\u00edngua escrita quanto na falada. N\u00e3o obede\u00e7o ao p\u00e9 da letra as rela\u00e7\u00f5es de  concord\u00e2ncia, de subordina\u00e7\u00e3o e de ordem impostas pela sintaxe.   <\/p>\n<p>A gram\u00e1tica e o  dicion\u00e1rio, senhora e senhor das normas e dos sentidos, ficam de cabelo em p\u00e9 a  cada vez que passam os olhos neste p\u00e9 de p\u00e1gina. N\u00e3o raras vezes, os revisores  passam a caneta vermelha nas impropriedades. A cr\u00f4nica, ent\u00e3o, fica mais  correta, menos desabusada e ganha uma artificialidade de senten\u00e7a judicial.  Cumprem o of\u00edcio, os revisores.   <\/p>\n<p>Eu continuo seguindo a escola do Verissimo e do genu\u00edno exerc\u00edcio de me  apropriar da l\u00edngua ao meu gosto. Como diz o genial cronista, &#8220;a gram\u00e1tica  precisa apanhar todos os dias pra saber quem \u00e9 que manda.&#8221; Isso se o leitor e o  editor n\u00e3o me mandarem e<a name=\"Save1\"><\/a>mbora\u2026 <\/p>\n<p>(Cr\u00f4nica publidada no Correio Braziliense de hoje) <\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Concei\u00e7\u00e3o Freitas Considerando que esta cr\u00f4nica decidiu obedecer estritamente \u00e0s regras gramaticais da l\u00edngua culta, informo-lhes que a partir de hoje este p\u00e9 de p\u00e1gina n\u00e3o vai mais usar o pronome antes do verbo. Pr\u00f3clise nunca mais, nem quando autorizada pelas normas da coloca\u00e7\u00e3o pronominal. Vai que algu\u00e9m acha que o pronome sempre tem que vir depois do verbo. \u00c9 chique. Enobrece-a. 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