{"id":5646,"date":"2011-01-26T00:00:00","date_gmt":"2011-01-26T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/os_sete_pecados_da_redacao_oficial\/"},"modified":"2015-11-12T19:32:06","modified_gmt":"2015-11-12T21:32:06","slug":"os_sete_pecados_da_redacao_oficial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/os_sete_pecados_da_redacao_oficial\/","title":{"rendered":"Os sete pecados da reda\u00e7\u00e3o oficial"},"content":{"rendered":"<p> <BR>&nbsp; Que sorte, hein? O gato tem sete vidas. Por qu\u00ea? H\u00e1 quem diga que o privil\u00e9gio se deve \u00e0s qualidades do bichano. Ele cai de p\u00e9. Os m\u00fasculos, maiores que os dos c\u00e3es, lhe permitem dar saltos ousados. Ex\u00edmio equilibrista, o felino se destaca pela agilidade, flexibilidade, destreza, garras afiadas, vis\u00e3o e audi\u00e7\u00e3o agu\u00e7adas. Nem todos concordam com a explica\u00e7\u00e3o. Os invejosos atribuem o atributo ao modo de ser ego\u00edsta do animal. O peludo cuida muito bem de si. Come e dorme o dia inteiro. Sem medo de ser feliz, sai \u00e0 noite pra gandaia. Que vid\u00e3o! <BR> &nbsp; O gato ganhou a fama e dorme na cama. Nem todos, por\u00e9m, gozam de tais vantagens. Um dos desprezados da sorte \u00e9 a reda\u00e7\u00e3o oficial. Os textos da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica s\u00e3o pra l\u00e1 de inflex\u00edveis. Obedecem a normas t\u00e3o antigas quanto o rascunho da B\u00edblia. Os funcion\u00e1rios n\u00e3o t\u00eam sa\u00edda. Precisam aprender as manhas, aplicar as regras e poupar energia. Espernear? Muitos tentam. Cometem sete pecados que os condenam \u00e0s chamas do inferno. Valham-nos, excel\u00eancias, senhorias, majestades &amp; cia. burocr\u00e1tica. <BR> &nbsp; <STRONG>Burocracia <BR><\/STRONG> &nbsp; Voc\u00ea sabia? A palavra burocracia tem dupla nacionalidade. Bureau vem do franc\u00eas. Na l\u00edngua de Voltaire e Victor Hugo, quer dizer mesa de trabalho. Kr\u00e1tos nasceu grega. Desde Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles, significa poderio.  <BR>A mocinha fez longa caminhada. No come\u00e7o da vida, bureau era o tecido grosseiro com que se cobriam as mesas para escrever ou fazer contas. Com o tempo, passou a designar a pr\u00f3pria mesa de trabalho. Por fim, chegou ao sentido atual \u2014 escrit\u00f3rio, reparti\u00e7\u00e3o.  <BR> &nbsp; <STRONG>Pronomes de tratamento <BR><\/STRONG> &nbsp; Vossa Senhoria, Vossa Excel\u00eancia, Vossa Mejestade, Vossa Magnific\u00eancia &amp; demais salamaleques s\u00e3o formas de tratamento da reda\u00e7\u00e3o oficial. Elas vieram ao mundo na monarquia portuguesa. \u00c0 \u00e9poca, era proibido se dirigir ao rei. Quem ousasse faz\u00ea-lo perdia a cabe\u00e7a. O jeito foi buscar subterf\u00fagios. Em vez de se falar ao monarca, falava-se \u00e0 excel\u00eancia do monarca, \u00e0 majestade do monarca, \u00e0 senhoria do monarca. Viu? O jeitinho brasileiro vem de longe. <BR> &nbsp; <STRONG>Pessoas <BR><\/STRONG> &nbsp; Os pronomes de tratamento s\u00e3o cheios de manhas. Ora se referem \u00e0 pessoa com quem se fala. Pedem, ent\u00e3o, ajuda ao possessivo vossa: Vossa Excel\u00eancia, senhor presidente, fez belo discurso. Vossa Senhoria pode atender o telefone? N\u00e3o sei, reitor, a que documento Vossa Magnific\u00eancia se reportou. <BR>Outras vezes, referem-se \u00e0 pessoa de quem se fala. Trocam, ent\u00e3o, o vossa pelo sua. Nada mais muda: Sua Excel\u00eancia fez belo discurso. Sua Senhoria n\u00e3o costuma atender o telefone. N\u00e3o sei a que documento Sua Magnific\u00eancia se reportou. <BR> &nbsp; <STRONG>Concord\u00e2ncia <BR><\/STRONG> &nbsp; Ops! N\u00e3o vale bobear. Os verbos e os pronomes relacionados aos pronomes de tratamento s\u00e3o vaquinhas de pres\u00e9pio. N\u00e3o arredam p\u00e9 da 3\u00aa pessoa: Vossa Excel\u00eancia pode repetir a frase? Majestade, n\u00e3o entendi suas palavras. Vossas Magnific\u00eancias fizeram suas considera\u00e7\u00f5es com eleg\u00e2ncia. <BR>Viu? Com os pronomes de tratamento, o possessivo vosso n\u00e3o tem vez. X\u00f4!  <BR> &nbsp; <STRONG>Crase  <BR><\/STRONG> &nbsp; Olho vivo! Pronomes de tratamento come\u00e7ados por Vossa t\u00eam alergia ao artigo. Com eles, a crase n\u00e3o tem vez. Por qu\u00ea? Crase \u00e9 o casamento de dois aa. Um deles \u00e9 o artigo. Sem um par, o outro fica solteirinho da silva: Dirijo-me a Vossa Senhoria. Refiro-me a Sua Excel\u00eancia. Encaminho a Sua Senhoria a carta solicitada.  <BR> &nbsp; <STRONG>Anexo, em anexo <BR><\/STRONG> &nbsp; Of\u00edcios e memorandos t\u00eam uma paix\u00e3o. Encaminham alguma coisa. Pode ser livros, relat\u00f3rios e tantos outros documentos que a burocracia adora produzir. A\u00ed, n\u00e3o d\u00e1 outra. Anexo ou em anexo entram em cartaz. Como usar um ou outro?  <BR> &nbsp; <STRONG>Anexo <\/STRONG>\u00e9 adjetivo. Como os irm\u00e3ozinhos dele, concorda em g\u00eanero e n\u00famero com o nome a que se refere: Anexo, encaminho o documento. Anexos, encaminho os documentos. Anexa, encaminho a carta. Anexas, encaminho as cartas.  <BR> &nbsp; <STRONG>Em anexo <\/STRONG>bate \u00e0 porta de outra freguesia. Locu\u00e7\u00e3o adverbial, joga no time dos inflex\u00edveis. Sem feminino, masculino, singular ou plural, \u00e9 sempre igual: Em anexo, encaminho os documentos. Em anexo, encaminho o documento. Em anexo, encaminho a carta. Encaminho as cartas em anexo.  <BR> &nbsp; <STRONG>Vocativo  <BR><\/STRONG> &nbsp; O vocativo n\u00e3o se dirige \u00e0 pessoa. Dirige-se ao cargo da autoridade. Escreve-se com as iniciais mai\u00fasculas (Senhor Diretor, Senhor Presidente, Senhor Chefe). O texto come\u00e7a sempre com letra grandona: Escrevo-lhe a fim de lhe comunicar o andamento do processo\u2026 <BR> &nbsp; Ufa!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Que sorte, hein? O gato tem sete vidas. Por qu\u00ea? H\u00e1 quem diga que o privil\u00e9gio se deve \u00e0s qualidades do bichano. Ele cai de p\u00e9. Os m\u00fasculos, maiores que os dos c\u00e3es, lhe permitem dar saltos ousados. Ex\u00edmio equilibrista, o felino se destaca pela agilidade, flexibilidade, destreza, garras afiadas, vis\u00e3o e audi\u00e7\u00e3o agu\u00e7adas. Nem todos concordam com a explica\u00e7\u00e3o. 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