{"id":5741,"date":"2011-06-03T14:00:00","date_gmt":"2011-06-03T17:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/alguem_fala_errado\/"},"modified":"2011-06-03T14:00:00","modified_gmt":"2011-06-03T17:00:00","slug":"alguem_fala_errado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/alguem_fala_errado\/","title":{"rendered":"Algu\u00e9m fala errado?"},"content":{"rendered":"\n<p>Ferreira Gullar <\/p>\n<p> Sei muito bem que, de acordo com a lingu\u00edstica moderna, n\u00e3o n\u00e3o existem o  certo e o errado no uso do idioma nacional, ou melhor, n\u00e3o existe o  errado, o que significa que tudo est\u00e1 certo e que minha antiga  professora de portugu\u00eas, que me ensinou a fazer an\u00e1lise l\u00f3gica e  gramatical das proposi\u00e7\u00f5es em l\u00edngua portuguesa, era uma louca, uma vez  que a l\u00edngua n\u00e3o tem l\u00f3gica como ela supunha e a gram\u00e1tica \u00e9 de fato um  instrumento de repress\u00e3o; perdeu seu tempo dona Rosinha ensinando-me que  o verbo concorda com o sujeito, e os adjetivos com os substantivos,  como tamb\u00e9m concordam com estes os artigos, ou seja, que n\u00e3o se deve  dizer dois d\u00fazias de ovos, uma vez que d\u00fazia \u00e9 palavra feminina, donde  ter que dizer &#8220;duas d\u00fazias de ovos&#8221;, o que era, como sei agora, um  ensinamento err\u00f4neo ou, no m\u00e1ximo, correto apenas naquela \u00e9poca, pois  hoje ou\u00e7o na televis\u00e3o e leio nos jornais &#8220;as 6 milh\u00f5es de pessoas&#8221;,  constru\u00e7\u00e3o indiscutivelmente correta hoje, quando os artigos n\u00e3o t\u00eam  mais que concordar com os substantivos e tampouco com o verbo, como me  ensinara ela, pois me corrigia quando eu dizia &#8220;ele foi um dos que fez  barulho&#8221;, afirmando que eu deveria dizer &#8220;um dos que fizeram barulho&#8221;, e  me explicava que era como se dissesse &#8220;foi um dos tr\u00eas que fizeram  barulho&#8221;, explica\u00e7\u00e3o antiquada, do mesmo modo que aquela outra referente  \u00e0 reg\u00eancia dos verbos e que eu, burroide, entendi como certo quando, na  verdade, o certo n\u00e3o \u00e9, por exemplo, dizer &#8220;a comida de que ela  necessita&#8221; ou &#8220;o problema de que falou o presidente&#8221;, e, sim, &#8220;o  problema que falou o presidente&#8221;, frase que, no meu antiquado  entendimento, resulta estranha, pois parece dizer n\u00e3o que o presidente  falou do problema, mas que o problema falou do presidente, donde se  conclui que sou realmente um sujeito maluco, que j\u00e1 est\u00e1 at\u00e9 ouvindo  &#8220;vozes&#8221; e, al\u00e9m de maluco, fora de moda, porque n\u00e3o se conforma com o  fato de terem praticamente eliminado de nossa l\u00edngua as palavras &#8220;este&#8221; e  &#8220;esta&#8221;, que foram substitu\u00eddas por &#8220;esse&#8221; e &#8220;essa&#8221;, pois sem nenhuma  d\u00favida \u00e9 uma tolice querer que o locutor da televis\u00e3o, referindo-se \u00e0  noite em que fala, diga &#8220;no programa desta noite&#8221; em lugar de &#8220;no  programa dessa noite&#8221;, que, dentro do crit\u00e9rio de que o errado \u00e9 certo,  est\u00e1 cert\u00edssimo, ao contr\u00e1rio do que exige esta minha birra, culpa da  professora Rosinha, por ter insistido em nos convencer de que &#8220;este&#8221;  designa algo que est\u00e1 perto de mim, &#8220;esse&#8221;, algo que est\u00e1 perto de voc\u00ea e  &#8220;aquele&#8221;, o que est\u00e1 longe dos dois, e ainda a minha teimosia em achar  que essas palavras correspondem a situa\u00e7\u00f5es reais da vida, n\u00e3o s\u00e3o meras  inven\u00e7\u00f5es de gram\u00e1ticos; e, de t\u00e3o sect\u00e1rio que sou nesta mania de  preservar a l\u00edngua, n\u00e3o suporto ouvir a express\u00e3o &#8220;isto n\u00e3o significa  dizer&#8221; em vez de &#8220;isto n\u00e3o quer dizer&#8221;, que \u00e9 o correto, ou era, al\u00e9m de  express\u00e3o leg\u00edtima, enquanto a outra \u00e9 um anglicismo, mas que, por isso  mesmo, h\u00e1 quem considere ainda mais correta, porque estamos na \u00e9poca da  globaliza\u00e7\u00e3o, o que torna mais bobo ainda implicar com estrangeirismos,  como aquele meu amigo que fica irritado ao ler nos jornais que &#8220;a  reuni\u00e3o da C\u00e2mara foi postergada para segunda-feira&#8221;, em vez de  &#8220;adiada&#8221;, como sempre se disse e que facilita o entendimento da maioria  das pessoas, j\u00e1 que nem todos os brasileiros amargaram o ex\u00edlio em  pa\u00edses de l\u00edngua espanhola. Mas j\u00e1 quase admito ser muita pretens\u00e3o  teimar em dizer &#8220;o governador cogita de enviar \u00e0 C\u00e2mara um novo projeto  de lei&#8221;, pois isso de que o verbo &#8220;cogitar&#8221; rege a preposi\u00e7\u00e3o &#8220;de&#8221;  tamb\u00e9m \u00e9 bobagem, coisa de gente pretensiosa que precisa se impor \u00e0s  outras falando arrogantemente &#8220;correto&#8221;, como se houvesse modo de falar  certo ou errado, de falar correto, pois a verdade \u00e9 que tal pretens\u00e3o  oculta um preconceito de classe, uma discrimina\u00e7\u00e3o contra aqueles que  n\u00e3o tiveram oportunidade de estudar e, por essa raz\u00e3o, n\u00e3o podem falar  como os que usufru\u00edram do privil\u00e9gio burgu\u00eas, ou pequeno-burgu\u00eas, de  estudar gram\u00e1tica, o que vem acentuar a injusti\u00e7a social. Como se n\u00e3o  bastasse serem aqueles pobres discriminados no trabalho e no conforto,  ainda se acrescenta essa discrimina\u00e7\u00e3o, acusando-os de falarem mal a  l\u00edngua, da qual s\u00e3o eles de fato os criadores e que foi apropriada pelos  ricos e poderosos que agora se consideram donos dela, como de tudo o  mais que existe neste mundo, pois eles de fato n\u00e3o toleram a hip\u00f3tese de  que todas as pessoas sejam iguais e que todas elas falem corretamente  ainda que gram\u00e1ticos elitistas insistam em dizer que falam errado s\u00f3  porque n\u00e3o falam segundo as normas da classe dominante, que, al\u00e9m de  impedir os pobres de estudar, acusam-nos de serem ignorantes, atitude de  fato inaceit\u00e1vel, pois sabemos que todas as pessoas s\u00e3o igualmente  inteligentes e talentosas, portanto capazes de criar obras de arte  geniais, de conceber teorias iguais \u00e0s que conceberam Galileu e  Einstein, e s\u00f3 n\u00e3o o fazem porque s\u00e3o deliberadamente impedidas de dar  vaz\u00e3o a seu g\u00eanio criador; e tamb\u00e9m neste caso se comete a injusti\u00e7a de  consagrar como g\u00eanios alguns homens privilegiados e n\u00e3o atribuir  qualquer valor aos milh\u00f5es, perd\u00e3o, \u00e0s milh\u00f5es de pessoas tidas como  comuns, e s\u00f3 n\u00e3o consigo entender \u00e9 por que os ling\u00fcistas que defendem  tais ideias continuam a escrever corretamente tal como exigia minha  professora do col\u00e9gio S\u00e3o Lu\u00eds de Gonzaga, naqueles distantes anos da  d\u00e9cada de 1940&#8230; Diante disto, n\u00e3o est\u00e1 mais aqui quem falou. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>(Do Blog do Moacir Japiassu) <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ferreira Gullar Sei muito bem que, de acordo com a lingu\u00edstica moderna, n\u00e3o n\u00e3o existem o certo e o errado no uso do idioma nacional, ou melhor, n\u00e3o existe o errado, o que significa que tudo est\u00e1 certo e que minha antiga professora de portugu\u00eas, que me ensinou a fazer an\u00e1lise l\u00f3gica e gramatical das proposi\u00e7\u00f5es em l\u00edngua portuguesa, era uma louca, uma vez que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-5741","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5741","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5741"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5741\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5741"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5741"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5741"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}