{"id":5747,"date":"2011-06-05T00:00:00","date_gmt":"2011-06-05T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/dona_norma\/"},"modified":"2011-06-05T00:00:00","modified_gmt":"2011-06-05T03:00:00","slug":"dona_norma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/dona_norma\/","title":{"rendered":"Dona Norma"},"content":{"rendered":"\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  Jos\u00e9 Miguel Wisnik   <\/p>\n<p> O  imbr\u00f3glio da vez \u00e9 a discuss\u00e3o sobre o manual de ensino da l\u00edngua   portuguesa distribu\u00eddo pelo MEC, chamado &#8220;Para uma vida melhor&#8221;, da  autoria de  Heloisa Ramos. Li na imprensa, vi nos blogs e ouvi no r\u00e1dio  do carro vozes,  desde sentenciosas a sard\u00f4nicas e sarc\u00e1sticas, dizendo  que se tratava de uma  descarada proposta de ensino do portugu\u00eas pelo  m\u00e9todo invertido, preconizando o  erro de concord\u00e2ncia, o desvio  sint\u00e1tico e o assalto \u00e0 gram\u00e1tica. Criticava-se a  ado\u00e7\u00e3o do &#8220;lul\u00eas&#8221;  como idioma oficial da escola brasileira. Leio o cap\u00edtulo do  livro em  quest\u00e3o e vejo, no entanto, que a autora se dedica nele, a maior parte   do tempo, a mostrar a import\u00e2ncia da pontua\u00e7\u00e3o, da concord\u00e2ncia e da boa   ortografia na l\u00edngua escrita. Onde est\u00e1 o erro?   <\/p>\n<p>Bater em  teclas equivocadas \u00e9 quase uma praxe do debate cultural corrente,  com  ou sem rendimento pol\u00edtico imediato. Na verdade, o livro assume, para   efeitos pedag\u00f3gicos, uma no\u00e7\u00e3o que se tornou trivial para estudantes de  Letras  desde pelo menos quando eu entrei no curso, em 1967. Os estudos  lingu\u00edsticos  mostravam que a pr\u00e1tica das l\u00ednguas \u00e9 sujeita a muitas  variantes regionais,  sociais, e que a chamada &#8220;norma culta&#8221;,  preconizada pelos gram\u00e1ticos, \u00e9 uma  entre outras variantes da l\u00edngua,  n\u00e3o necessariamente a mais, ou a \u00fanica  &#8220;correta&#8221;. Desse ponto de vista,  cient\u00edfico e n\u00e3o normativo, procura-se  contemplar a multiplicidade das  falas, reconhecidas na sua efic\u00e1cia  comunicativa, sem privilegiar um  padr\u00e3o verbal ditado pelos segmentos letrados  como \u00fanico a ser seguido.    <\/p>\n<p>Discutirei adiante algumas consequ\u00eancias pedag\u00f3gicas disso. Mas  a que me  parece inquestion\u00e1vel, e adotada com propriedade no livro de  Heloisa Ramos, \u00e9 a  import\u00e2ncia de n\u00e3o se estigmatizar os usos populares  da l\u00edngua, reconhecendo em  vez disso a validade do seu funcionamento. \u00c9  nessa hora que ela dava como  exemplo a famigerada frase &#8220;N\u00f3s pega o  peixe&#8221;, ou, ent\u00e3o, &#8220;Os menino pega o  peixe&#8221;. A autora n\u00e3o diz que \u00e9  assim que se deve escrever. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o  deprecia a express\u00e3o:  preconceitos \u00e0 parte, \u00e9 preciso reconhecer que no seu uso  comum a frase  funciona, porque a marca do plural no pronome ou no artigo \u00e9   suficiente para indicar que a a\u00e7\u00e3o \u00e9 exercida por um conjunto de  meninos, e n\u00e3o  por um s\u00f3. Desse ponto de vista, eminentemente  pragm\u00e1tico, nenhum erro.   <\/p>\n<p>A seguir, no mesmo esp\u00edrito pragm\u00e1tico,  o livro afirma claramente a  import\u00e2ncia de que a escola promova o  dom\u00ednio da norma culta, ligado \u00e0 l\u00edngua  escrita, justificado pela sua  necessidade em situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas (aqui vir\u00e1 a  minha discord\u00e2ncia).  D\u00e1 exemplos de como corrigir um texto mal escrito,  mostrando, dentro  dos melhores crit\u00e9rios, como ele deve ganhar coes\u00e3o interna,   articula\u00e7\u00e3o sint\u00e1tica, clareza nos seus recortes (pontua\u00e7\u00e3o) e seguir os   crit\u00e9rios ortogr\u00e1ficos.   <\/p>\n<p>A grita contra o livro, por aqueles  que, imagino, n\u00e3o o leram, \u00e9 uma  estridente confirma\u00e7\u00e3o, em primeiro  lugar, daquilo que o pr\u00f3prio livro diz e, em  segundo lugar, daquilo que  ele n\u00e3o diz, mas que deveria dizer.   <\/p>\n<p>Afirmar cegamente, com  alarme e com alarde, que o livro \u00e9 um atentado,  tornado oficial, \u00e0  l\u00edngua portuguesa, pelo respeito localizado que ele d\u00e1 \u00e0s  variantes  populares de fala que n\u00e3o usam extensivamente as flex\u00f5es, isto \u00e9, as   normas letradas de concord\u00e2ncia, \u00e9 um sintoma ignorante e disseminado de  que se  concebe a l\u00edngua como um instrumento de prest\u00edgio, de  privil\u00e9gio e de poder.    <\/p>\n<p>Mais que isso, a defesa exaltada e  capciosa da suposta corre\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica,  desconsiderando todo o resto,  \u00e9 uma desbragada demonstra\u00e7\u00e3o de ignor\u00e2ncia em  nome da den\u00fancia da sua  perpetua\u00e7\u00e3o. Culta, neste caso, \u00e9 de uma incultura  cavalar. O tom  desinformado e espalhafatoso da den\u00fancia encobre, mal, aquilo de  que  ele tenta fugir: o nosso analfabetismo cr\u00f4nico, difuso, contagiante.   <\/p>\n<p>H\u00e9lio  Schwartsman, em compensa\u00e7\u00e3o, assim como Cristov\u00e3o Tezza no programa de   Monica Waldvogel, disseram coisas importantes e equilibradas. H\u00e9lio  lembra que a  passagem do latim \u00e0s l\u00ednguas rom\u00e2nicas, o portugu\u00eas  inclu\u00eddo, s\u00f3 se deu gra\u00e7as  \u00e0s prov\u00edncias que passaram a falar um latim  tecnicamente estropiado, sem as suas  declina\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas. Sem essa  din\u00e2mica e o correspondente afrouxamento  flexional, estar\u00edamos at\u00e9 hoje  falando latim e usando as cinco declina\u00e7\u00f5es.   <\/p>\n<p>O ingl\u00eas, por sua  vez, \u00e9 muito menos flexional que o portugu\u00eas. A frase &#8220;the  boys get the  fish&#8221;, por exemplo, que funciona perfeitamente para marcar o  plural,  \u00e9, do ponto de vista estrutural, uma esp\u00e9cie de &#8220;n\u00f3s pega o peixe&#8221;   institucionalizado.   <\/p>\n<p>O horizonte do pragmatismo \u00e9 o que me parece  estreito, no entanto, no livro  do MEC. O dom\u00ednio da norma culta \u00e9  justificado, nele, para que o falante tenha  &#8220;mais uma variedade&#8221;  lingu\u00edstica \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, para que n\u00e3o sofra  preconceito, para que  se desincumba em situa\u00e7\u00f5es formais que assim o exigem. \u00c9  muito pouco. A  norma culta n\u00e3o \u00e9 nem um mero adere\u00e7o de classe nem apenas uma   variedade \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do aluno para ele usar diante de autoridades ou  para  preencher requerimentos. A educa\u00e7\u00e3o pela l\u00edngua n\u00e3o pode ser  pensada apenas como  um instrumento de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s conting\u00eancias. A  escrita \u00e9 um equipamento  universal de apuro l\u00f3gico, que est\u00e1 embutido  na estrutura de uma l\u00edngua dada.  Mergulhar nela e nas exig\u00eancias que  lhe s\u00e3o inerentes \u00e9 um processo de  autoconsci\u00eancia e um salto mental de  grandes consequ\u00eancias.   <\/p>\n<p>N\u00e3o se pode fazer por menos. Al\u00e9m de &#8220;Para uma vida melhor&#8221;, tem que ser  tamb\u00e9m &#8220;Para uma vida maior&#8221;.<\/p><\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Jos\u00e9 Miguel Wisnik O imbr\u00f3glio da vez \u00e9 a discuss\u00e3o sobre o manual de ensino da l\u00edngua portuguesa distribu\u00eddo pelo MEC, chamado &#8220;Para uma vida melhor&#8221;, da autoria de Heloisa Ramos. Li na imprensa, vi nos blogs e ouvi no r\u00e1dio do carro vozes, desde sentenciosas a sard\u00f4nicas e sarc\u00e1sticas, dizendo que se tratava de uma descarada proposta de ensino do portugu\u00eas pelo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-5747","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5747","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5747"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5747\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5747"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5747"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5747"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}