{"id":5761,"date":"2011-06-06T17:00:00","date_gmt":"2011-06-06T20:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_vernaculo\/"},"modified":"2011-06-06T17:00:00","modified_gmt":"2011-06-06T20:00:00","slug":"o_vernaculo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_vernaculo\/","title":{"rendered":"O vern\u00e1culo"},"content":{"rendered":"<div id=\":ad\" class=\"ii gt\">\n<div id=\":ae\">\n<div>\n<div>\n<\/div>\n<div>\n<p>IVALDO LEMOS JUNIOR <i style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> Promotor de Justi\u00e7a do MPDFT <\/i>  <\/p>\n<p>Todas as palavras s\u00e3o naturalmente poliss\u00eamicas (t\u00eam v\u00e1rios significados  poss\u00edveis) ou t\u00eam, ao menos, alguma ambiguidade. Qualquer dicion\u00e1rio \u00e9 prova  disso. Uma &#8220;jaqueira&#8221; \u00e9 sem d\u00favida uma &#8220;\u00e1rvore&#8221;, mas \u00e1rvore pode ser uma  excelente ou uma inadequada maneira de se referir a uma jaqueira. Depende da  situa\u00e7\u00e3o.  <\/p>\n<p>Falar errado \u00e9, de certa forma, necess\u00e1rio. Pode ser um errado que \u00e9,  paradoxalmente, certo, porque \u00e9 funcional. N\u00e3o teria cabimento utilizar do  vern\u00e1culo de modo casti\u00e7o em ambientes onde isso n\u00e3o acontece com nenhuma  frequ\u00eancia, como uma oficina mec\u00e2nica, uma obra de constru\u00e7\u00e3o civil. As pessoas  n\u00e3o iriam compreender e o poder comunicativo fracassaria.  <\/p>\n<p>A pr\u00f3pria utiliza\u00e7\u00e3o correta dos pronomes, em nosso portugu\u00eas brasileiro,  parece algo de pern\u00f3stico, mesmo quando tal se d\u00e1 entre pessoas esclarecidas.  Isso n\u00e3o deixa de ser um mist\u00e9rio, pois os pronomes existem para tornar a troca  de ideias mais fluida e mais limpa. Nossos colegas de idioma latino, como os  espanh\u00f3is e os franceses, abusam dos pronomes em conversas de rua e mesmo com as  crian\u00e7as.  <\/p>\n<p>O que dita a escolha exata das palavras \u00e9 o efeito desejado para seus  pr\u00f3prios fins, ou seja, para aquele momento, para aquele interlocutor. Tamb\u00e9m  entram em cena outros recursos que a linguagem oral proporciona, como a pros\u00f3dia  (entona\u00e7\u00e3o), pausas, gesticula\u00e7\u00e3o com a cabe\u00e7a e com as m\u00e3os etc.  <\/p>\n<p>Tudo faz parte de um contexto ainda mais complexo, em que express\u00f5es orais  v\u00eam acompanhadas de sinais exteriores, que podem complementar o quadro  comunicativo ou, ao contr\u00e1rio, provocar um resultado desastroso. Isso n\u00e3o se  aplica necessariamente quando se re\u00fane palavras como &#8220;bom&#8221; e &#8220;dia&#8221;, ou &#8220;tudo&#8221; e  &#8220;bem&#8221;, que s\u00e3o de imediata assimila\u00e7\u00e3o.   <\/p>\n<p>Mas essas outras tr\u00eas juntas \u2014 &#8220;quer&#8221;, &#8220;casar&#8221; e &#8220;comigo&#8221; \u2014 somente poder\u00e3o  ser levadas a s\u00e9rio se proferidas em um momento que foi devidamente preparado, e  enriquecido de outros componentes, como local e o indefect\u00edvel gesto do  oferecimento da alian\u00e7a. O namorado que usa as tr\u00eas palavras fat\u00eddicas durante  uma sess\u00e3o de cinema, no meio de uma barulhenta persegui\u00e7\u00e3o de carro, pode ser  tido como um sujeito dado a brincadeiras de mau gosto. Desconfio que namorada  nenhuma se animaria a responder &#8220;sim&#8221; em uma tal ocasi\u00e3o.  <\/p>\n<p>Vamos supor que um magistrado e um promotor sejam amigos e estejam fazendo  uma audi\u00eancia judicial juntos. Naquele ato, diante de advogados, r\u00e9us,  policiais, testemunhas, \u00e9 tudo muito profissional, com a explora\u00e7\u00e3o do arsenal  do jarg\u00e3o jur\u00eddico e da formalidade. Encerrada a audi\u00eancia, a sisudez \u00e9 colocada  de lado e os dois se p\u00f5em a conversar de maneira &#8220;errada&#8221;, com g\u00edrias,  brincadeiras, palavr\u00f5es.   <\/p>\n<p>A isso se d\u00e1 o nome de &#8220;audit\u00f3rio&#8221;. A mesma pessoa pode falar de modos  diferentes em um almo\u00e7o em fam\u00edlia, em uma reuni\u00e3o de trabalho, em uma palestra  acad\u00eamica, em um posto de gasolina. N\u00e3o s\u00f3 pode como deve. A pessoa \u00e9 a mesma, o  que muda \u00e9 o audit\u00f3rio; aquela apenas se adapta a este.   <\/p>\n<p>Qual \u00e9 ent\u00e3o a necessidade de se estudar o portugu\u00eas? Por que as pessoas  deveriam conhecer gram\u00e1tica pela via dos estudiosos e dos autores mais eruditos?  Qual \u00e9 a vantagem de se saber o que \u00e9 um quiasmo, uma sin\u00e9doque, um litote, uma  catacrese, um oximoro? Para que deixar Machado de Assis entrar em minha  vida?  <\/p>\n<p>Porque \u00e9 isso o que garante o tr\u00e2nsito entre audit\u00f3rios diferentes, os mais  espa\u00e7osos inclusive. Em regra, a comunica\u00e7\u00e3o come\u00e7a em \u00e2mbitos \u00edntimos, com os  pais e familiares, e vai se estendendo a vizinhos e colegas de col\u00e9gio, e da\u00ed  para estranhos. A vida n\u00e3o tem lugar cativo.  <\/p>\n<p>Quanto mais correta a utiliza\u00e7\u00e3o do vern\u00e1culo, maior a chance do maior n\u00famero  de pessoas vir a entender a sem\u00e2ntica do comunicador. Isso pode chegar a n\u00edveis  universais, que n\u00e3o se confinam \u00e0 nacionalidade da l\u00edngua originalmente  manejada. Ningu\u00e9m conseguiria ultrapassar os pr\u00f3prios limites de seus guetos  lingu\u00edsticos \u2014 que podem ser em miniaturas, como gangues, grupos de torcedores  de futebol ou de presidi\u00e1rios, nichos demasiado t\u00e9cnicos \u2014 apenas praticando a  fala corrente. Para tanto, \u00e9 irrecus\u00e1vel a dedica\u00e7\u00e3o ao estudo. N\u00e3o existe outro  jeito: \u00e9 preciso parar, sentar, ler um monte de livros, e aprender um pouco.  <\/p>\n<p>Por fim, existe um lado n\u00e3o-funcional da linguagem, que n\u00e3o tem um valor  exatamente comunicativo. \u00c9 a chamada literatura, em especial a poesia. Numa  frase atribu\u00edda ao poeta ingl\u00eas Robert Browning, ao ser instado a explicar o  sentido de um poema de sua autoria, ele disse: &#8220;Quando o escrevi, Deus e eu  sab\u00edamos o que quis dizer. Agora, s\u00f3 Deus  sabe&#8221;.<\/p><\/div>\n<\/div><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>IVALDO LEMOS JUNIOR Promotor de Justi\u00e7a do MPDFT Todas as palavras s\u00e3o naturalmente poliss\u00eamicas (t\u00eam v\u00e1rios significados poss\u00edveis) ou t\u00eam, ao menos, alguma ambiguidade. Qualquer dicion\u00e1rio \u00e9 prova disso. Uma &#8220;jaqueira&#8221; \u00e9 sem d\u00favida uma &#8220;\u00e1rvore&#8221;, mas \u00e1rvore pode ser uma excelente ou uma inadequada maneira de se referir a uma jaqueira. Depende da situa\u00e7\u00e3o. Falar errado \u00e9, de certa forma, necess\u00e1rio. 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