{"id":5776,"date":"2011-02-18T00:00:00","date_gmt":"2011-02-18T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/as_sete_mudancas_da_lingua\/"},"modified":"2011-02-18T00:00:00","modified_gmt":"2011-02-18T02:00:00","slug":"as_sete_mudancas_da_lingua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/as_sete_mudancas_da_lingua\/","title":{"rendered":"As sete mudan\u00e7as da l\u00edngua"},"content":{"rendered":"<p> <strong> <\/p>\n<p><\/strong>  <\/p>\n<p>Istambul \u00e9 mais antiga que o rascunho da  B\u00edblia. Quando Jesus nasceu, a bela cidade turca tinha 667 anos. Os  s\u00e9culos lhe deram nomes diferentes. O primeiro, Biz\u00e2ncio. O segundo,  Constantinopla. Com essa denomina\u00e7\u00e3o, tornou-se, em 330, a capital do Imp\u00e9rio  Romano do Oriente. O imperador n\u00e3o a escolheu por acaso. Elegeu-a porque queria  uma urbe \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Roma \u2014 com sete colinas. Batizou-a de Nova  Roma. O povo a apelidou de Cidade das Sete Colinas. No emblema da Istambul de  hoje, as colinas est\u00e3o l\u00e1. S\u00e3o sete tri\u00e2ngulos.   <\/p>\n<p>Mudan\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o privil\u00e9gio de cidades. Nem de  pessoas. Nem de animais. Nem de coisas. Os adeptos da transforma\u00e7\u00e3o inspiram-se  na natureza. Citam o suceder do dia e da noite, das esta\u00e7\u00f5es do ano, das fases  da Lua. Citam, tamb\u00e9m, o ciclo da vida humana \u2013 nascemos, crescemos, morremos.  No percurso, quem n\u00e3o andava anda, quem n\u00e3o falava fala, quem tomava s\u00f3 leite  passa a comer cereais, carnes, frutas e verduras.   <\/p>\n<p>A l\u00edngua joga no time dos mutantes. Instrumento de  comunica\u00e7\u00e3o das pessoas, muda conforme mudam os tempos e os falantes.  Concord\u00e2ncias, reg\u00eancias, coloca\u00e7\u00f5es, significados trocam o passo conforme a  m\u00fasica. A grafia n\u00e3o fica atr\u00e1s. Letras, acentos, hifens, travess\u00f5es s\u00e3o  inconstantes como o cora\u00e7\u00e3o dos homens. Quer exemplos? Eis sete \u2013 o n\u00famero das  colinas que fizeram de Istambul Istambul.   <strong><\/strong>&nbsp; <strong> <\/p>\n<p><\/strong><strong>Nomes pr\u00f3prios viram  comuns<\/strong>  <\/p>\n<p>\u00c9 o \u00f3bvio dos \u00f3bvios. Os substantivos pr\u00f3prios se  escrevem com inicial grandona \u2014 Jo\u00e3o, Rafael, Maria, Par\u00e1, Col\u00f4nia, Brasil. \u00c0s  vezes, por\u00e9m, entram na composi\u00e7\u00e3o de substantivos comuns. O resultado \u00e9 um s\u00f3.  Tornam-se vira-latas: jo\u00e3o-de-barro, castanha-do-par\u00e1, \u00e1gua-de-col\u00f4nia,  pau-brasil, banho-maria.  <\/p>\n<p>Norte, Sul, Leste, Oeste, quando pontos  cardeias, s\u00e3o nomes pr\u00f3prios. Mas, se definem dire\u00e7\u00e3o ou limite geogr\u00e1fico,  cessa tudo que a musa antiga canta. As mo\u00e7oilas p\u00f5em o rabinho entre as pernas e  entram na vala comum: O leste dos Estados Unidos tem grande influ\u00eancia  latina. O carro avan\u00e7ava na dire\u00e7\u00e3o sul. Cruzou o pa\u00eds de norte a sul, de leste  a oeste.  <strong><\/strong>&nbsp; <strong> <\/p>\n<p><\/strong><strong>Hifens caem<\/strong>  <\/p>\n<p>P\u00e9 de moleque, m\u00e3o de obra, tomara que caia,  quarto e sala, maria vai com as outras se escreviam com h\u00edfen. Veio a  reforma ortogr\u00e1fica. Cassou o tracinho que ligava palavras compostas de tr\u00eas ou  mais voc\u00e1bulos unidas por um elo \u2013 preposi\u00e7\u00e3o, conjun\u00e7\u00e3o, pronome. Exce\u00e7\u00f5es?  Duas. A primeira: palavras do reino animal ou vegetal foram poupadas. \u00c9 o caso  de jo\u00e3o-de-barro, cana-de-a\u00e7\u00facar, p\u00e9-de-milho, bicho-de-p\u00e9, pimenta-do-reino,  castanha-do-par\u00e1. A outra: \u00e1gua-de-col\u00f4nia, cor-de-rosa, p\u00e9-de-meia,  arco-da-velha, mais-que-perfeito escaparam da degola.  <strong><\/strong>&nbsp; <strong> <\/p>\n<p><\/strong><strong>Tracinhos surgem<\/strong>  <\/p>\n<p>Bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1, tim-tim, zum-zum &amp; cia. se  escreviam coladinhos. A reforma ortogr\u00e1fica os separou. Voc\u00e1bulos onomatopaicos  formados ou n\u00e3o por elementos repetidos agora se grafam com h\u00edfen. Assim:  lenga-lenga, tique-taque, toque-toque, trouxe-mouxe,  quem-quem. &nbsp; <strong> <\/p>\n<p><\/strong><strong>Sinais mudam<\/strong>  <\/p>\n<p>O h\u00edfen tinha dois pap\u00e9is bem definidos. Um,  vira-lata: ligar o pronome ao verbo (vende-se). O outro, m\u00e1gico: juntar duas  palavras independentes e formar uma  terceira, sem parentesco com&nbsp;as originais. Vale o exemplo de beija-flor.  <i>Beija<\/i> \u00e9 forma do verbo beijar. <i>Flor<\/i>, o presente colorido que as  plantas nos d\u00e3o. Ligada pelo tracinho, a dupla d\u00e1 nome ao p\u00e1ssaro que seduz pela  leveza e encanto.  <\/p>\n<p>O travess\u00e3o ligava voc\u00e1bulos sem formar palavras novas (Ponte Rio\u2014Niter\u00f3i, trecho Bras\u00edlia\u2014Recife, voo  Nova Iorque\u2014T\u00f3quio). A reforma cassou o  grand\u00e3o nesses casos. Agora, s\u00f3 o pequenino tem vez: Ponte Rio-Niter\u00f3i,  trecho Bras\u00edlia-Recife, voo Nova Iorque-T\u00f3quio.  &nbsp; <strong> <\/p>\n<p><\/strong><strong>Acentos somem<\/strong>  <\/p>\n<p>O hiatos <i>oo<\/i> e <i>eem<\/i> perderam o chap\u00e9u.  <i>V\u00f4o, cor\u00f4o, aben\u00e7\u00f4o<\/i> &amp; cia. viraram <i>voo, coroo, aben\u00e7oo<\/i>.  <i>L\u00eaem, v\u00eaem, cr\u00eaem, d\u00eaem<\/i> &amp; derivados agora se escrevem <i>leem, veem,  creem, deem<\/i>. Os ditongos abertos \u00e9i e \u00f3i mandaram o acento  sumir das <i>parox\u00edtonas<\/i>. Em vez de <i>id\u00e9ia, paran\u00f3ico <\/i>e<i> j\u00f3ia<\/i>,  grafe <i>ideia, paranoico, joia. <\/i>Acentos diferenciais se foram nas  parox\u00edtonas<i>. <\/i>Doravante, ele para, polo norte e sul, pelo do  animal, pera grafam-se sem grampos ou chap\u00e9us. Dois diferenciais  ficaram pra contar a hist\u00f3ria: ele p\u00f4de e o do verbo p\u00f4r. &nbsp; <strong> <\/p>\n<p><\/strong><strong>Alfabeto cresce<\/strong>  <\/p>\n<p>&#8220;Crescei e multiplicai-vos&#8221;, ordenou o Senhor.  O alfabeto obedeceu. Incorporou tr\u00eas letras. O k, o w e o  y, at\u00e9 h\u00e1 pouco penetras na l\u00edngua, tornaram-se irm\u00e3ozinhos  leg\u00edtimos das 23 anteriores. O abeced\u00e1rio  portugu\u00eas passou a ser este: <i>a, b, c, d, e, f, g, h, i, j,  <strong>k<\/strong>, l, m, n, o,&nbsp; p, q, r, s, t, u, v, <strong>w<\/strong>, x,  <strong>y<\/strong>, z. <\/i>  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Istambul \u00e9 mais antiga que o rascunho da B\u00edblia. 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