{"id":5797,"date":"2011-11-15T00:00:00","date_gmt":"2011-11-15T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/dos_tempos_da_realeza\/"},"modified":"2011-11-15T00:00:00","modified_gmt":"2011-11-15T02:00:00","slug":"dos_tempos_da_realeza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/dos_tempos_da_realeza\/","title":{"rendered":"Dos tempos da realeza"},"content":{"rendered":"<div><b>  <\/p>\n<p><\/b> A hist\u00f3ria dos pronomes de tratamento vem de longe. Come\u00e7ou no s\u00e9culo 12.  Exatamente em 1143, quando Portugal se tornou reino independente. Afonso  Henriques, o primeiro rei, sentia-se t\u00e3o poderoso que dizia:  <\/p>\n<p>\u2014 Deus sou eu.  <\/p>\n<p>Era proibido dirigir-se a ele. Quem ousasse, perdia a cabe\u00e7a. Da\u00ed, bem antes  da guilhotina, surgiu o verbo <i>decapitar. <\/i>O triss\u00edlabo significa cortar a  cabe\u00e7a. Como fazer? Se, no auge da paix\u00e3o, a amada dizia ao rei, &#8220;te amo&#8221;, a  cabe\u00e7a dela rolava\u2026com peruca e tudo. Se o m\u00e9dico perguntava ao soberano o que  estava sentindo, n\u00e3o recebia reposta. A degola vinha antes. E o ministro da  Fazenda? Como saber se podia aumentar os impostos?<b>  <\/p>\n<p>O jeitinho<\/b>  <\/p>\n<p>O Conselho de S\u00e1bios se reuniu. Nasceu a\u00ed o jeitinho. A m\u00e1gica era esta:  ningu\u00e9m falaria ao rei, mas \u00e0 majestade do rei. Cham\u00e1-lo-iam de Vossa Majestade.  As pessoas se dirigiriam ao rei sem se dirigir a ele:  <\/p>\n<p>\u2014 Eu amo <i>Vossa<\/i> Majestade, dizia a namorada olhando o rei nos  olhos.  <\/p>\n<p>Nas cartas cheias de suspiros, escrevia aos amigos: &#8220;Eu amo <i>Sua<\/i>  Majestade&#8221;. O rei ficou feliz. Os puxa-sacos, que existiam desde ent\u00e3o,  come\u00e7aram a inventar pronomes. Nasceram ent\u00e3o Vossa Excel\u00eancia, Vossa Senhoria,  Vossa Emin\u00eancia, Vossa Magnific\u00eancia. E por a\u00ed vai.  <\/p>\n<p>Era um barato. Os bajuladores n\u00e3o se dirigiam ao rei. Mas \u00e0 excel\u00eancia do  rei, \u00e0 senhoria do rei, \u00e0 emin\u00eancia do rei. Depois, os pronomes se  especializaram. Reitor ficou com magnific\u00eancia. Cardeais abocanharam emin\u00eancia.  Papa preferiu santidade. Altas autoridades adotaram excel\u00eancia. E assim por  diante. Para azar nosso, que precisamos memoriz\u00e1-los at\u00e9 hoje.<b>  <\/p>\n<p>Concord\u00e2ncia<\/b>  <\/p>\n<p>\u2014 Vossa Majestade \u00e9 divino. Sou <i>sua<\/i> f\u00e3 at\u00e9 debaixo d\u2019\u00e1gua, dizia a  futura rainha.  <\/p>\n<p>Reparou? A namorada sabida fazia a concord\u00e2ncia como manda a gram\u00e1tica. Os  pronomes de tratamento levam o verbo e os pronomes para a terceira pessoa. Por  isso, nunca, nunca mesmo, se usa <i>vosso<\/i> com eles.  <\/p>\n<p>E o adjetivo? N\u00e3o deveria concordar com majestade, substantivo feminino? Sim.  Mas quem ousaria chamar o rei, t\u00e3o mach\u00e3o, de divina? Deu-se outro jeitinho.  Criou-se a silepse. A figura permite seja feita a concord\u00e2ncia com a id\u00e9ia, n\u00e3o  com a palavra. O adjetivo concordaria com o sexo da pessoa, n\u00e3o com o  substantivo. Da\u00ed a rainha ter usado <i>divino<\/i>, n\u00e3o <i>divina.<\/i><b>  <\/p>\n<p>Efeitos do calend\u00e1rio<\/b>  <\/p>\n<p>A grafia dos pronomes sofreu os efeitos do calend\u00e1rio. Nos tempos do rei, as  pessoas escreviam \u00e0 m\u00e3o. A abreviatura era feita com o azinho em cima e, abaixo  dele, o ponto (V.Ex\u00aa.) Com a m\u00e1quina de datilografia, o tra\u00e7o substituiu o ponto  (V.Ex\u00aa). Alguns programas de computador n\u00e3o t\u00eam o azinho. Escrevem-no na mesma  linha seguido de ponto (V.Exa.).   <\/p>\n<p>O <i>Manual de reda\u00e7\u00e3o da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica<\/i> p\u00f5e ponto final na  briga. Pro\u00edbe a abreviatura do pronome de tratamento. A regra vale para o Poder  Executivo. S\u00f3.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria dos pronomes de tratamento vem de longe. Come\u00e7ou no s\u00e9culo 12. Exatamente em 1143, quando Portugal se tornou reino independente. Afonso Henriques, o primeiro rei, sentia-se t\u00e3o poderoso que dizia: \u2014 Deus sou eu. Era proibido dirigir-se a ele. Quem ousasse, perdia a cabe\u00e7a. Da\u00ed, bem antes da guilhotina, surgiu o verbo decapitar. O triss\u00edlabo significa cortar a cabe\u00e7a. Como fazer? 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