{"id":5851,"date":"2011-03-04T00:00:00","date_gmt":"2011-03-04T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/os_sete_sapatos_sujos_da_lingua\/"},"modified":"2011-03-04T00:00:00","modified_gmt":"2011-03-04T03:00:00","slug":"os_sete_sapatos_sujos_da_lingua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/os_sete_sapatos_sujos_da_lingua\/","title":{"rendered":"Os sete sapatos sujos da l\u00edngua"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Conhece Mia Couto? Mo\u00e7ambicano, ele estudou medicina e biologia. Mas se dedica \u00e0s letras. Tem leitores cativos em Europa, Fran\u00e7a e Bahia. Os brasileiros o prestigiam em lan\u00e7amentos, palestras e tietagens. Os patriotas tamb\u00e9m. Outro dia, convidaram-no para abrir o ano letivo do Instituto Superior de Ci\u00eancias de Mo\u00e7ambique. O tema: os sapatos sujos da modernidade. <BR> &nbsp; Ele justificou a escolha do assunto assim: &#8220;N\u00e3o podemos entrar na modernidade com o atual fardo de preconceitos. \u00c0 porta da modernidade, precisamos nos descal\u00e7ar. Contei sete sapatos sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos modernos. Haver\u00e1 muitos. Mas eu tinha de escolher. E sete \u00e9 n\u00famero m\u00e1gico&#8221;. <BR> &nbsp; O 1\u00ba sapato sujo: a ideia de que os culpados s\u00e3o os outros e n\u00f3s somos sempre v\u00edtimas. O 2\u00ba: a ideia de que o sucesso n\u00e3o nasce do trabalho. O 3\u00ba: o preconceito de que quem critica \u00e9 inimigo. O 4\u00ba: a ideia de que mudar as palavras muda a realidade. O 5\u00ba: a vergonha de ser pobre e o culto das apar\u00eancias. O 6\u00ba: a passividade perante a injusti\u00e7a. O 7\u00ba: a ideia de que, para sermos modernos, temos de imitar os outros. <BR>&nbsp; <BR> <STRONG>X\u00f4, imund\u00edcie<\/STRONG> <BR> &nbsp; A l\u00edngua tamb\u00e9m tem sapatos sujos. S\u00e3o muitos. Mas, como Mia Couto, escolhemos sete. Respondem pela imund\u00edcie: preconceitos, descuidos, escola ruim. Que tal descal\u00e7\u00e1-los? Primeiro passo: conhec\u00ea-los. Segundo: deix\u00e1-los na soleira da porta.&nbsp; <BR>&nbsp; <BR> 1\u00ba \u2014 <STRONG>O mito de que o portugu\u00eas \u00e9 uma l\u00edngua muito dif\u00edcil. Talvez a mais dif\u00edcil do mundo.  <BR><\/STRONG> &nbsp; O portugu\u00eas, como o ingl\u00eas, o franc\u00eas ou o chin\u00eas, \u00e9 l\u00edngua de cultura. Tem seu l\u00e9xico, sua fon\u00e9tica, sua morfologia, sua sintaxe. Domin\u00e1-los exige estudo. \u00c9 como se sub\u00edssemos uma escada com muitos degraus. Cada conquista representa um passo pro alto. Como lembra Mia Couto, o sucesso nasce do trabalho.&nbsp; <BR>&nbsp; <BR> 2\u00ba \u2014 <STRONG>A ideia de que ler e escrever bem s\u00e3o dons divinos.  <BR><\/STRONG> &nbsp; Ler e escrever s\u00e3o habilidades. Jogam no time de nadar, correr ou digitar. Todas exigem treino. Muito treino. Para ser campe\u00e3o ol\u00edmpico, Cesar Cielo pratica 15 horas por dia. Para ganhar a S\u00e3o Silvestre, Marilson dos Santos se exercita cinco horas de domingo a domingo. Para ler e entender, escrever e ser entendido, imp\u00f5e-se ler e escrever \u2014 muito e sempre.&nbsp; <BR>&nbsp; <BR> 3\u00ba \u2014 <STRONG>A cren\u00e7a de que quem n\u00e3o aprendeu a norma culta nos primeiros anos de escola n\u00e3o mais aprender\u00e1. <BR><\/STRONG> &nbsp; Desculpa de pregui\u00e7oso, n\u00e3o? Papagaio velho aprende a falar sim, senhor. Precisa estudar. O Lula serve de exemplo. No in\u00edcio da carreira, trope\u00e7ava em flex\u00f5es, concord\u00e2ncias, reg\u00eancias. Hoje domina o padr\u00e3o culto da l\u00edngua. Viu? O inimigo n\u00e3o \u00e9 o outro. Somos n\u00f3s. <BR>&nbsp; <BR> 4\u00ba \u2014 <STRONG>A fal\u00e1cia de que n\u00e3o se devem apontar erros.  <BR><\/STRONG> &nbsp; Apontar falhas ajuda a corrigir rumos. A corre\u00e7\u00e3o tem hora e vez. Pais educam os filhos com palavras e exemplos. Av\u00f3s, tios, primos, amigos os ajudam. A escola tem compromisso com a aquisi\u00e7\u00e3o do conhecimento. Se se furtar a ensinar a norma culta, por exemplo, condenar\u00e1 muitos alunos a ficarem no andar de baixo. Quem critica, lembra o escritor mo\u00e7ambicano, n\u00e3o \u00e9 inimigo. <BR>&nbsp; <BR> 5\u00ba \u2014 <STRONG>A ilus\u00e3o de que as palavras escondem o raquitismo de ideias. <BR><\/STRONG> &nbsp; A prosa informativa se inspira na internet. \u00c9 \u00e1gil, curta e f\u00e1cil de ler. Perder-se no emaranhado de palavras bonitas impressionava nos dias em que t\u00ednhamos de ser criativos para matar o tempo. N\u00e3o \u00e9 o caso de agora. Hoje, tempo \u00e9 luxo. Menos \u00e9 mais. Menor \u00e9 melhor. <BR> &nbsp; <BR>6\u00ba \u2014 <STRONG>A cren\u00e7a de que eufemismo muda a realidade.<\/STRONG> <BR> &nbsp; Adocicar o termo \u00e9 como envolver o produto em celofane. A embalagem \u00e9 bonita. Mas o interior n\u00e3o muda. Dizer &#8220;o caixa est\u00e1 indispon\u00edvel&#8221; em vez de &#8220;o caixa quebrou&#8221; n\u00e3o muda a realidade: falta dinheiro para pagar as contas ou os credores.&nbsp; <BR>&nbsp; <BR> 7\u00ba \u2014 <STRONG>A ideia de que errar pega mal. <BR><\/STRONG> O teatr\u00f3logo Samuel Beckett responde: &#8220;Erre mais. Erre melhor&#8221;. <BR><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Conhece Mia Couto? Mo\u00e7ambicano, ele estudou medicina e biologia. Mas se dedica \u00e0s letras. Tem leitores cativos em Europa, Fran\u00e7a e Bahia. Os brasileiros o prestigiam em lan\u00e7amentos, palestras e tietagens. Os patriotas tamb\u00e9m. 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