{"id":5924,"date":"2011-03-31T00:00:00","date_gmt":"2011-03-31T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/a_redondilha_cola_na_memoria\/"},"modified":"2011-03-31T00:00:00","modified_gmt":"2011-03-31T03:00:00","slug":"a_redondilha_cola_na_memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/a_redondilha_cola_na_memoria\/","title":{"rendered":"A redondilha cola na mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><b> <\/b> <b> <\/p>\n<p><\/b>  <\/p>\n<p>O verso mais popular do portugu\u00eas? \u00c9 a redondilha maior. Com sete s\u00edlabas,  ela cabe na boca e gruda na mem\u00f3ria. Todos a amam. As cantigas de roda abusam do  modelo. A m\u00fasica popular tamb\u00e9m. Quem n\u00e3o canta <i>A banda<\/i>, de Chico  Buarque, de cor e salteado? A poesia brasileira n\u00e3o fica atr\u00e1s. <i>A can\u00e7\u00e3o do  ex\u00edlio<\/i>, de Gon\u00e7alves Dias, serve de exemplo. Ela frequenta salas de aula,  saraus e a casa da gente com a familiaridade do sapato velho e da camiseta que  aprendeu a forma do corpo.   <\/p>\n<p>Como saber se o verso \u00e9 heptass\u00edlabo? O ouvido ajuda. Se ele gosta do ritmo,  n\u00e3o precisa nem fazer o teste. Mas, se um descrente faz quest\u00e3o de ver para  crer, basta contar o n\u00famero de s\u00edlabas. \u00c9 f\u00e1cil. Mas ele tem de observar uma  manha. A contagem para na s\u00edlaba t\u00f4nica. Exercite:<i>  <\/p>\n<p>Terezinha de Jesus \/ Deu a queda foi ao  ch\u00e3o \/ Acudiram tr\u00eas cavaleiros \/ Todos tr\u00eas chap\u00e9u na m\u00e3o.  <\/p>\n<p>Minha terra tem palmeiras \/ Onde canta  o sabi\u00e1 \/ As aves que aqui gorjeiam \/ N\u00e3o gorjeiam como l\u00e1.  <\/p>\n<p>Estava \u00e0 toa na vida \/ O meu amor me  chamou \/ Pra ver a banda passar \/ Cantando coisas de amor.<\/i><b> &nbsp;  <\/p>\n<p>A excel\u00eancia do Pai<\/b>  <\/p>\n<p>A l\u00edngua tamb\u00e9m tem formas que soam como redondilhas. Elas t\u00eam tudo a ver com  a perfei\u00e7\u00e3o. Dizem que filho de peixe sabe nadar. Ora, se somos filhos de Deus,  temos a mesma \u00e2nsia de excel\u00eancia do Senhor. Por isso gostamos da rosa sem os  espinhos. Em bom portugu\u00eas: gostamos da corre\u00e7\u00e3o.   <\/p>\n<p>Leitores de jornal, ouvintes de r\u00e1dio, telespectadores de notici\u00e1rios  sentem-se incomodados com trope\u00e7os lingu\u00edsticos. Com raz\u00e3o. As trombadas lhes desviam a aten\u00e7\u00e3o dos fatos. Em vez de se concentrarem  nos acontecimentos, concentram-se nos maus-tratos impostos a flex\u00f5es,  concord\u00e2ncias, reg\u00eancias, pron\u00fancias etc. e tal. Eis exemplos comentados na  reda\u00e7\u00e3o do jornal.<b> &nbsp; L\u00edngua de trapos<\/b>  <\/p>\n<p>Quem fala demais d\u00e1 bom-dia a cavalo. Ou tem l\u00edngua de trapos. Assim, bem  comprida \u2014 sem h\u00edfen e no plural. N\u00f3s esquecemos o fato. Na p\u00e1g. 30, apareceu  \u2018\u2018l\u00edngua-de-trapo\u2019\u2019. A grandona protesta. P\u00f5e a boca no mundo.<b>  <\/p>\n<p>Outro<\/b>  <\/p>\n<p>Elas v\u00eam devagarinho. Aparecem aqui e ali. Aos poucos,&nbsp;propagam-se. E viram praga. \u00c9 o caso do  <i>outro<\/i>. O pronome aparece onde n\u00e3o tem vez. Desnecess\u00e1rio, sobra. Vale o  exemplo \u2018\u2018Unido a outros 19 secret\u00e1rios de Fazenda das demais regi\u00f5es do Brasil,  Valdivino Oliveira vai ao Senado\u2019\u2019. Na d\u00favida, basta ler a frase sem o intruso.  Ah!, respira ela aliviada.<b>  <\/p>\n<p>Papa<\/b>  <\/p>\n<p>Vivemos num Estado laico. Aqui, religi\u00e3o n\u00e3o goza de privil\u00e9gio. Nem os  representantes de Deus na Terra. Por isso, papa joga no time de presidente,  ministro, governador, prefeito. Escreve-se com a inicial min\u00fascula. Esquecemos a  isonomia. Na capa, apareceu Papa. \u00c9 discrimina\u00e7\u00e3o. D\u00e1 xilindr\u00f3.<b>  <\/p>\n<p>Aspas<\/b>  <\/p>\n<p>Dentro ou fora? Depende. Se o per\u00edodo se inicia com aspas, o ponto vai dentro  delas. Se as aspas pegam o bonde andando, o ponto vai fora. Ignoramos a regrinha  na p\u00e1g. 2. L\u00e1 est\u00e1, come\u00e7ando o texto: \u2018\u2018Tirem as crian\u00e7as da sala\u2019\u2019. Viu? O  per\u00edodo&nbsp;come\u00e7a dentro das aspas. O ponto  faz parte dele.<b>  <\/p>\n<p>Numera\u00e7\u00e3o de artigos<\/b>  <\/p>\n<p>\u2018\u2018Tudo certo como dois e dois s\u00e3o cinco\u2019\u2019, canta Caetano. Tradu\u00e7\u00e3o: engana-se  quem pensa que os n\u00fameros s\u00e3o exatos. Ou que n\u00e3o d\u00e3o trabalho. D\u00e3o \u2013 e muito.  Us\u00e1-los exige aten\u00e7\u00e3o e bom senso. Na numera\u00e7\u00e3o de artigos de leis, decretos e  portarias, usa-se o ordinal at\u00e9 9 e o cardinal de 10 em diante: art.1\u00ba, art. 5\u00ba,  art. 10. Ontem pisamos a bola. Na p\u00e1g. 5, escrevemos \u2018\u2018art. 207\u00ba\u2019\u2019. Nossa  Senhora! \u00c9 art. 207.<b>  <\/p>\n<p>O moral<\/b>  <\/p>\n<p>\u2018\u2018Quem de palavras tem experi\u00eancia sabe que delas se deve esperar tudo\u2019\u2019,  repetia Jos\u00e9 Saramago. \u00c9 que as palavras  s\u00e3o enganadoras. Ao menor descuido, entramos na delas. Um dos perigos \u00e9 o g\u00eanero  do voc\u00e1bulo. O masculino tem um significado; o feminino, outro. \u00c9 o caso de  cabe\u00e7a. O cabe\u00e7a quer dizer o chefe. A cabe\u00e7a, parte do corpo.&nbsp;Ca\u00edmos na armadilha. Escrevemos: \u2018\u2018O presidente  encontrar\u00e1 a Argentina com a moral alta\u2019\u2019. Nada feito. <i>A moral<\/i> \u00e9 o  conjunto de regras de conduta ou conclus\u00e3o que se tira de uma obra (a moral  protestante, a moral da hist\u00f3ria). <i>O moral<\/i> joga em outro time. \u00c9 astral,  brio: <i>O presidente encontrar\u00e1 a Argentina com o moral alto.<\/i> <strong> <\/p>\n<p><\/strong><strong>J\u00e1\u2026 mais <\/strong>  <\/p>\n<p>&#8220;O brasileiro desperdi\u00e7a porque n\u00e3o precisa plantar bananeiras. Elas nascem  espontaneamente&#8221;, repetia Roberto Campos. Esquecemo-nos de apagar a luz ou de  consertar o pinga-pinga da torneira. Esquecemos a mangueira jorrando \u00e1gua.  Esquecemos de baixar a chama do fog\u00e3o depois de iniciada a fervura. Etc. Etc.  Etc. O esbanjamento chegou \u00e0 l\u00edngua. Redund\u00e2ncias pululam no texto sem  cerim\u00f4nia. O caderno <i>Ve\u00edculos<\/i> serve de prova. Estampou na capa: &#8220;Os  motores evolu\u00edram nas \u00faltimas d\u00e9cadas e j\u00e1 n\u00e3o exigem mais tanto cuidado&#8221;. O uso  simult\u00e2neo de <i>j\u00e1<\/i> e <i>mais<\/i> \u00e9 desperd\u00edcio.&nbsp;Melhor ficar com um ou  outro: <i>Os motores j\u00e1 n\u00e3o exigem tanto cuidado. Os motores n\u00e3o exigem mais  tanto cuidado.<\/i> <strong> <\/p>\n<p><\/strong><strong>Ma\u00e7om<\/strong>  <\/p>\n<p>&#8220;A Casa Masson s\u00f3 vende o que \u00e9 bom&#8221;, dizia o jingle da melhor joalheria de  Porto Alegre em tempos idos e vividos. Masson \u00e9 o nome da fam\u00edlia propriet\u00e1ria  de ouros, p\u00e9rolas e diamantes. N\u00e3o tem nada com ma\u00e7om, membro da ma\u00e7onaria.  Misturamos alhos com bugalhos. Escrevemos: &#8220;Nossos ataques contra alvos  mass\u00f4nicos continuar\u00e3o&#8221;. Os alvos t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com a ma\u00e7onaria? Ent\u00e3o o \u00e7 pede  passagem..  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O verso mais popular do portugu\u00eas? \u00c9 a redondilha maior. Com sete s\u00edlabas, ela cabe na boca e gruda na mem\u00f3ria. Todos a amam. As cantigas de roda abusam do modelo. A m\u00fasica popular tamb\u00e9m. Quem n\u00e3o canta A banda, de Chico Buarque, de cor e salteado? A poesia brasileira n\u00e3o fica atr\u00e1s. A can\u00e7\u00e3o do ex\u00edlio, de Gon\u00e7alves Dias, serve de exemplo. 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