{"id":5980,"date":"2011-12-05T08:00:00","date_gmt":"2011-12-05T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/fala_espanhol\/"},"modified":"2011-12-05T08:00:00","modified_gmt":"2011-12-05T10:00:00","slug":"fala_espanhol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/fala_espanhol\/","title":{"rendered":"Fala espanhol?"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>JOS\u00c9 HORTA MANZANO<a name=\"Save1\"><\/a><i style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/i> &nbsp; Em 1958 o Brasil ganhou a Copa. Pasternak levou o Nobel de literatura.  Batista, acossado por Fidel e seu bando, fugiu do pa\u00eds. Nasceram Michael  Jackson, Madonna, Sharon Stone e Albert de M\u00f4naco. Mas nenhum desses fatos ter\u00e1  deixado consequ\u00eancias t\u00e3o profundas como o acesso de um grande personagem \u00e0s  altas esferas do poder na Fran\u00e7a.  <\/p>\n<p>No final da Segunda Guerra, quando os canh\u00f5es se calaram e a hora dos acertos  soou, Charles De Gaulle, general carism\u00e1tico, conseguiu convencer o mundo de que  a Fran\u00e7a havia ganho a guerra e que merecia seu lugar \u00e0 mesa de concertamento. A  verdade n\u00e3o era bem essa. Em maio de 1940, uma blitzkrieg alem\u00e3 de poucas  semanas havia varrido do mapa o prestigioso ex\u00e9rcito franc\u00eas. Seguiu-se a  humilha\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o e um cortejo de anos de priva\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m, na euforia do  fim do conflito, o general ganhou pela insist\u00eancia. A Fran\u00e7a foi acolhida \u00e0 mesa  dos vencedores, como se um deles fosse.<i style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/i><i> <\/p>\n<p><\/i><i>Sic transit gloria mundi<\/i>, toda gloria \u00e9 passageira. O general vitorioso,  in\u00fatil em tempos de paz, foi sumariamente aposentado por um povo que queria mais  atirar-se de cabe\u00e7a na excitante modernidade que aportava no bojo do Plano  Marshall.  <\/p>\n<p>Finda a euforia, baixada a poeira, a realidade recrudesceu: guerras  coloniais, atentados, a Europa dividida em dois blocos, uma Alemanha que ainda  assustava. Foi quando o povo franc\u00eas se lembrou de que o velho le\u00e3o ainda estava  vivo. E foram busc\u00e1-lo para o papel de messias. Em 1958, De Gaulle recebeu  poderes imperiais e carta branca para conduzir o pa\u00eds. Coincidiu com a entrada  em vigor do Tratado de Roma, que cristalizava a \u00e2nsia pela paz, pela seguran\u00e7a e  pela uni\u00e3o.  <\/p>\n<p>As diferen\u00e7as entre os pa\u00edses fundadores eram muitas. O tempo havia de  resolv\u00ea-las, mas uma delas estava a exigir decis\u00e3o imediata: a quest\u00e3o  lingu\u00edstica. Os seis pa\u00edses somavam quatro l\u00ednguas oficiais. Seria impens\u00e1vel  promover apenas uma delas em detrimento das demais. Era inadmiss\u00edvel instalar um  dos membros num patamar acima dos outros.  <\/p>\n<p>Cogitou-se adotar uma l\u00edngua artificial como idioma comum a todos os  europeus. No espa\u00e7o de uma gera\u00e7\u00e3o, viriam as vantagens: os europeus seriam  todos bil\u00edngues; o respeito \u00e0s l\u00ednguas maternas estaria mantido; a l\u00edngua comum,  por ser um idioma aprendido, n\u00e3o privilegiaria nenhum povo. O Esperanto  preenchia com maestria os requisitos.  <\/p>\n<p>Mas isso tudo era sem contar com nosso velho De Gaulle, homem do s\u00e9culo 19,  nacionalista e guardi\u00e3o da grandeu<i>r<\/i> francesa. Jamais admitiria que se  impusesse a seu povo uma segunda l\u00edngua. Guardava a secreta esperan\u00e7a de que o  franc\u00eas se tornasse a l\u00edngua franca da Europa Unida. Nessa expectativa, mandou  \u00e0s favas a ado\u00e7\u00e3o de uma l\u00edngua artificial. O resultado conhecemos: no  Parlamento Europeu, cada deputado tem o direito de se exprimir em sua l\u00edngua  materna.  <\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica hoje frisa o caos. O organismo conta com 23 l\u00ednguas  oficiais. Isso resulta em 506 combina\u00e7\u00f5es poss\u00edveis de tradu\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o.  Cada parlamentar tem o direito de enfiar o fone de ouvido e receber, em sua  l\u00edngua materna, a tradu\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea do discurso que estiver sendo pronunciado.  Como n\u00e3o existem int\u00e9rpretes capazes de traduzir, por exemplo, do estoniano para  o malt\u00eas, a transla\u00e7\u00e3o tem de ser feita em duas etapas: do estoniano para o  ingl\u00eas, em seguida do ingl\u00eas para o malt\u00eas. Com toda a perda de tempo e de  qualidade que isso implica. Como se v\u00ea, a turra do general tem custado caro.  <\/p>\n<p>Em nossas plagas, temos o Mercosul. \u00c9 embrion\u00e1rio, o que nos d\u00e1 a tremenda  chance de evitar erros cometidos na Europa. Mas o perigo ronda. Faz alguns  meses, o di\u00e1rio paraguaio <i>ABC<\/i> falou em pleitear a introdu\u00e7\u00e3o do guarani  entre as l\u00ednguas oficiais da uni\u00e3o aduaneira em constru\u00e7\u00e3o. Parece-me uma ideia  temer\u00e1ria.  <\/p>\n<p>Todos os paraguaios alfabetizados conhecem o espanhol. Se, em nosso modesto  bloco, damos conta do recado com somente duas l\u00ednguas, por que raz\u00e3o acrescentar  mais esse \u00f4nus? Por que entreabrir a porta a uma situa\u00e7\u00e3o inextric\u00e1vel?  <\/p>\n<p>A bola da vez \u00e9 o guarani. Se entrarem a Bol\u00edvia e o Peru, os falantes de  qu\u00eatchua e de aimar\u00e1 v\u00e3o reivindicar o direito a incluir sua l\u00edngua no rol das  oficiais. Em nosso pr\u00f3prio pa\u00eds, 180 l\u00ednguas ind\u00edgenas sobrevivem \u2014 ainda que  poucos brasileiros se deem conta disso. Se exce\u00e7\u00e3o for aberta para o guarani,  poucos anos bastar\u00e3o para que todos os aut\u00f3ctones exijam o mesmo direito. Ser\u00e1  imposs\u00edvel eludir.  <\/p>\n<p>Sem menosprezar as l\u00ednguas nativas, saibamos dar o devido valor \u00e0 facilidade  de comunica\u00e7\u00e3o que o destino nos legou.<\/p><\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JOS\u00c9 HORTA MANZANO &nbsp; Em 1958 o Brasil ganhou a Copa. Pasternak levou o Nobel de literatura. 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