{"id":6073,"date":"2011-07-19T10:00:00","date_gmt":"2011-07-19T13:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_dito-cujo\/"},"modified":"2011-07-19T10:00:00","modified_gmt":"2011-07-19T13:00:00","slug":"o_dito-cujo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_dito-cujo\/","title":{"rendered":"O dito-cujo"},"content":{"rendered":"\n<div><b>  <\/p>\n<p><\/b> Al Martin \u00e9 exigente.&nbsp;Al\u00e9m  da&nbsp;not\u00edcia, ele&nbsp;faz quest\u00e3o de  texto correto. Por isso l\u00ea jornais e sites com lupa. Outro dia, ao navegar na internet,  levou um baita susto. Eis o coment\u00e1rio: &#8220;Sabemos que o antigo e charmoso  <i>cujo<\/i> j\u00e1 faleceu, faz tempo, de morte bem morrida. Eu pensava, no entanto,  que os jornalistas mantivessem, no fundo da cachola, a no\u00e7\u00e3o de genitivo  embutida no velho pronome relativo.   <\/p>\n<p>Com certa decep\u00e7\u00e3o, constato e reconstato que o <i>cujo<\/i>  morreu mesmo e, mais grave ainda, n\u00e3o foi substitu\u00eddo. Veja esta frase que li  neste s\u00e1bado na edi\u00e7\u00e3o on-line do <i>Estado de S\u00e3o Paulo<\/i>:&nbsp;`H\u00e1 um reconhecimento de que um calote americano  seria um problema dif\u00edcil de antever o impacto sobre o resto do mundo\u00b4.   <\/p>\n<p>A aus\u00eancia do <i>cujo<\/i> tira o nexo da frase. Seria t\u00e3o  mais elegante escrever `H\u00e1 o reconhecimento de que um calote americano seria  problema cujo impacto sobre o resto do mundo \u00e9 dif\u00edcil de antever<i>\u00b4. &#8220;<\/i>   &nbsp; <strong>O xis da quest\u00e3o<\/strong>  <\/p>\n<p>Voc\u00ea sabe usar o pronome cujo? A maioria dos brasileiros n\u00e3o sabe. Por isso  foge do coitado como o diabo da cruz. O diss\u00edlabo \u00e9 pronome relativo. Pertence \u00e0  fam\u00edlia de <i>que,<\/i> <i>o qual,  onde<\/i>. \u00c9 o membro chique do cl\u00e3. Requintado, imp\u00f5e tr\u00eas regras para ser  empregado. S\u00e3o exig\u00eancias simples. Para atend\u00ea-las, basta manter as antenas  ligadas e a pregui\u00e7a adormecida em ber\u00e7o espl\u00eandido.<b style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/b><b> <\/p>\n<p><\/b><b>Primeira exig\u00eancia<\/b>  <\/p>\n<p>Tenha cuidado com a separa\u00e7\u00e3o das s\u00edlabas: o danadinho morre de vergonha de  ficar com um peda\u00e7o l\u00e1 e outro c\u00e1. O motivo \u00e9 justo. A primeira s\u00edlaba, no fim  da linha, vira palavr\u00e3o (cu-jo). Feito o estrago, o constrangido s\u00f3 encontra uma  sa\u00edda. Consola-se com federal (fede-ral). Os dois se abra\u00e7am e choram, choram,  choram. <b style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/b><b> <\/p>\n<p><\/b><b>Segunda exig\u00eancia<\/b>  <\/p>\n<p>Deixe o artigo pra l\u00e1: cujo tem avers\u00e3o a <i>o, a, os<\/i> e <i>as<\/i>. Nunca  escreva: cujo o, cuja a, cujos os, cujos as. Nunca mesmo. O casamento pega mal  como bater em mulher, cuspir no ch\u00e3o ou palitar os dentes em p\u00fablico. Veja o  exemplo:<i> <\/i><i> <\/p>\n<p><\/i><i>O pol\u00edtico, cujo o discurso foi recebido com vaias, lamentou o  epis\u00f3dio<\/i>.  <\/p>\n<p>X\u00f4, artigo!<i>  <\/p>\n<p>O pol\u00edtico, cujo discurso foi recebido com vaias, lamentou o  epis\u00f3dio.<\/i><b style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/b><b> <\/p>\n<p><\/b><b>Terceira exig\u00eancia<\/b>  <\/p>\n<p>D\u00ea aten\u00e7\u00e3o \u00e0 posse: o cujo, como todo pronome relativo, tem uma fun\u00e7\u00e3o \u2014  junta duas frases. No caso, uma delas tem de indicar posse. O diss\u00edlabo evita a  repeti\u00e7\u00e3o de palavras e deixa o enunciado chique como p\u00e9rola negra.  Compare:<i>  <\/p>\n<p>Dilma recebeu cr\u00edticas no exterior. O discurso de Dilma (=dela) foi aplaudido  em Bras\u00edlia.<\/i>  <\/p>\n<p>Feio, n\u00e3o? Dilma em dose dupla ningu\u00e9m merece. A repeti\u00e7\u00e3o do nome  torna a frase mon\u00f3tona. O jeito? Recorrer ao relativo. Para dar ideia de posse,  o glorioso <i>cujo<\/i> pede passagem:<i>  <\/p>\n<p>Dilma, cujo discurso foi aplaudido em Bras\u00edlia, recebeu cr\u00edticas no  exterior.<\/i>  <\/p>\n<p>Outro exemplo:  <\/p>\n<p>O PT est\u00e1 com a faca e o queijo na m\u00e3o. O candidato do PT (=dele) ganhou a  presid\u00eancia da empresa<i>.<\/i> <i> <\/p>\n<p><\/i><i>O PT, cujo candidato ganhou a presid\u00eancia da enpresa, est\u00e1 com a faca e o  queijo na m\u00e3o.<\/i><b style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/b><b> <\/p>\n<p><\/b><b>Trope\u00e7os<\/b>  <\/p>\n<p>O brasileiro morre de medo do cujo. Mas, orgulhoso, esconde a verdade. Alega  que a esnoba\u00e7\u00e3o se deve \u00e0 feiura do pobrezinho. Mentira tem perna curta. Volta e  meia, aparecem mostrengos como o apontado por Al Martin:<i>  <\/p>\n<p>A mulher que o filho morreu vai deixar a cidade.  <\/p>\n<p>Paulo Coelho, que os livros fazem sucesso em Europa, Fran\u00e7a e Bahia, \u00e9  imortal da Academia Brasileira de Letras.<\/i><b style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/b><b> <\/p>\n<p><\/b><b>Desafio<\/b>  <\/p>\n<p>Vamos corrigir as duas frases capengas? Pra chegar l\u00e1, lembre-se do cujo:  <\/p>\n<p>1\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026. 2\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026.  <\/p>\n<p>Acertou? Confira<i>: A mulher cujo filho morreu vai deixar a cidade. Paulo  Coelho, cujos livros fazem sucesso em Europa, Fran\u00e7a e Bahia, \u00e9 imortal da  Academia Brasileira de Letras.<\/i><b style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/b><b> <\/p>\n<p><\/b><b>Moral da hist\u00f3ria<\/b>  <\/p>\n<p>Uma frase elegante, capaz de veicular com clareza e  simplicidade a mensagem, \u00e9 conquista pessoal  &#8212; exerc\u00edcio di\u00e1rio de desapego, humildade e vontade de  melhorar.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Al Martin \u00e9 exigente.&nbsp;Al\u00e9m da&nbsp;not\u00edcia, ele&nbsp;faz quest\u00e3o de texto correto. Por isso l\u00ea jornais e sites com lupa. Outro dia, ao navegar na internet, levou um baita susto. Eis o coment\u00e1rio: &#8220;Sabemos que o antigo e charmoso cujo j\u00e1 faleceu, faz tempo, de morte bem morrida. 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