{"id":6104,"date":"2011-07-22T00:00:00","date_gmt":"2011-07-22T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/rascunho-14\/"},"modified":"2011-07-22T00:00:00","modified_gmt":"2011-07-22T03:00:00","slug":"rascunho-14","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/rascunho-14\/","title":{"rendered":"rascunho"},"content":{"rendered":"<p><b>Recado<\/b> &#8220;A literatura \u00e9 o laborat\u00f3rio do poss\u00edvel.&#8221; Ricardo Piglia &nbsp; <strong>Esc\u00e2ndalo na terra de Sua Majestade<\/strong> Ops! O tabloide <i>News of de Wold<\/i> frechou as portas depois de quase dois  s\u00e9culos de vida. A raz\u00e3o: estava envolvido em falcatruas impens\u00e1veis no Reino  Unido. Entre elas, escutas telef\u00f4nicas ilegais, pagamento de propinas, compra da  consci\u00eancia de chef\u00f5es da Scotland Yard. O esc\u00e2ndalo trouxe \u00e0s p\u00e1ginas policiais  Rebekah Brooks. A ex-todo-poderosa editora do jornal usa cabel\u00e3o avermelhado,  crespo e solto. Os ingleses n\u00e3o deixaram por menos. Recorreram \u00e0 mitologia grega  e apelidaram-na de Medusa.  <b> Que med\u00e3o!<\/b> Medusa era um monstro. Tinha duas irm\u00e3s. Tamb\u00e9m monstros. Eram as G\u00f3rgonas.  Elas tinham asas de ouro, m\u00e3os de bronze, presas de javali e a cabe\u00e7a rodeada de  cobras. Quem olhasse nos olhos delas virava pedra. Das tr\u00eas, s\u00f3 Medusa era  mortal. Mas ningu\u00e9m conseguia mat\u00e1-la. Quem tentava se transformava em est\u00e1tua.  Perseu foi desafiado a vencer a criatura. Topou. Pra chegar l\u00e1, precisava de  tr\u00eas objetos.   Um deles: sand\u00e1lias com asas para voar. Outro: um capacete que o tornasse  invis\u00edvel para escapar dos olhos assassinos. O \u00faltimo: um saco m\u00e1gico para  guardar a cabe\u00e7a do monstro depois de cortada. Atena, a deusa da sabedoria,  ajudou o her\u00f3i. P\u00f4s sobre a cabe\u00e7a de Medusa um escudo que funcionou como  espelho. Assim, Perseu n\u00e3o precisou olhar nos olhos da mo\u00e7a. Orientou-se pelo  reflexo.   Ent\u00e3o, foi f\u00e1cil. Pegou uma espada de a\u00e7o e decapitou o monstro. Foi a  gl\u00f3ria. Perseu p\u00f4s a cabe\u00e7a da Medusa no saco, bateu asas e voou. Os olhos  mortais das duas irm\u00e3s procuravam-no. Mas n\u00e3o conseguiam enxerg\u00e1-lo. Ele, de  capacete, estava invis\u00edvel. Com o tempo, Medusa virou substantivo comum. \u00c9  mulher feia e m\u00e1. Uma bruxa. X\u00f4! <b> L\u00e1 e c\u00e1<\/b> Rold\u00e3o Simas Filho tem muitas qualidades. Entre elas, a curiosidade. Um dos  seus focos \u00e9 a l\u00edngua portuguesa. Tudo que se refere ao idioma de Cam\u00f5es lhe  merece a aten\u00e7\u00e3o. Nas constantes viagens a Portugal, anotou as diferen\u00e7as entre  os falares da Europa e da Am\u00e9rica. Foram tantas que viraram livro: <i>Dicion\u00e1rio  l\u00e1&amp;c\u00e1 portugu\u00eas-portugu\u00eas<\/i>. Eis um aperitivo:   &#8220;Enquanto no Brasil adotamos termos estrangeiros at\u00e9 desnecessariamente, em  Portugal h\u00e1 forte determina\u00e7\u00e3o em traduzi-los ou criar express\u00f5es vern\u00e1culas.  Eis exemplos: <i>sida<\/i> (s\u00edndrome de imunodefici\u00eancia adquirida) aqui \u00e9 aids e  existe at\u00e9 o aid\u00e9tico; <i>pronto a<\/i> <i>comer<\/i> (fast food), <i>pronto a  vestir<\/i> (pret \u00e0 porter), <i>mota d\u00b4\u00e1gua<\/i> (jet ski), <i>parque infantil<\/i>  (play ground), <i>escan\u00e7\u00e3o<\/i> (sommelier), <i>toranja<\/i> (grape  fruit).&#8221; <b> Para sexagen\u00e1rios<\/b> A Avon lan\u00e7ou cremes para sexagen\u00e1rios. Anuncia que se trata da &#8220;mais  avan\u00e7ada tecnologia no tratamento cosm\u00e9tico anti-idade&#8221;. Interessados no produto  duvidaram. N\u00e3o da mensagem, mas da grafia. <i>Anti-idade<\/i> se escreve assim  mesmo? Sim. A reforma ortogr\u00e1fica criou uma regra que pode ser traduzida deste  jeito: nos prefixos, os iguais se rejeitam; os diferentes se atraem.   Trocando em mi\u00fados: se duas letras iguais se encontram,  uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Valha-nos, Deus. H\u00edfen pra evitar o choque:  <i>super-regional, contra-ataque, semi-internato, micro-ondas. <\/i>  Se o encontro \u00e9 de duas letras diferentes, oba! A atra\u00e7\u00e3o \u00e9 moment\u00e2nea:  <i>supermercado, contram\u00e3o, semiaberto, microssaia.<\/i> <b> <\/b> <b>O <i>h<\/i><\/b>  Aten\u00e7\u00e3o, gente de Deus. A tal hist\u00f3ria da atra\u00e7\u00e3o e rejei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 absoluta.  Acima dela est\u00e1 o <b>h<\/b>. Prefixo seguido da letrinha muda (que n\u00e3o fala, mas  ajuda) pede h\u00edfen sim, senhor: <i>anti-hist\u00f3rico, super-her\u00f3i,  mini-homem.<\/i> <b> <\/b><b>Leitor pergunta<\/b> Mal come\u00e7ou o controle das balas perdidas, v\u00eam as explos\u00f5es dos bueiros.  Imagine a cena. A criatura caminha tranquilamente na cal\u00e7ada. De repente, n\u00e3o  mais que de repente, voa pelos ares. Pode? No Rio pode. Bem-humorado, o carioca  n\u00e3o deixa por menos. Decidiu aprender a conjuga\u00e7\u00e3o do verbo explodir. Podemos  dizer &#8220;eu explodo&#8221;? <b> Bia Saraiva, Rio <\/b> Explodir, Bia, sofre de incur\u00e1vel pregui\u00e7a. Defectivo, s\u00f3 se conjuga nas  formas em que o <b>e<\/b> ou o <b>i<\/b> seguem o <b>d<\/b>: <i>explo<b>d<\/b>e,  explo<b>d<\/b>imos, explo<b>d<\/b>em; explo<b>d<\/b>i, explo<b>d<\/b>iu,  explo<b>d<\/b>imos, explo<b>d<\/b>iram; explo<b>d<\/b>irei, explo<b>d<\/b>ir\u00e1s;  explo<b>d<\/b>iria, explo<b>d<\/b>isse.<\/i> E por a\u00ed vai.  Eu explodo? Nem pensar. Use outras formas. Recorrer ao auxiliar \u00e9 uma delas  (vou explodir, posso explodir). Outra, apelar para sin\u00f4nimos. Que tal  estourar?  Olho vivo! O presente do subjuntivo, derivado da 1\u00aa pessoa do presente do  indicativo, tamb\u00e9m n\u00e3o existe. Nem em del\u00edrio diga &#8220;que eu exploda&#8221;. Por qu\u00ea?  Com a desobedi\u00eancia, voc\u00ea explode a l\u00edngua.    <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recado &#8220;A literatura \u00e9 o laborat\u00f3rio do poss\u00edvel.&#8221; Ricardo Piglia &nbsp; Esc\u00e2ndalo na terra de Sua Majestade Ops! O tabloide News of de Wold frechou as portas depois de quase dois s\u00e9culos de vida. A raz\u00e3o: estava envolvido em falcatruas impens\u00e1veis no Reino Unido. Entre elas, escutas telef\u00f4nicas ilegais, pagamento de propinas, compra da consci\u00eancia de chef\u00f5es da Scotland Yard. 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